Minha pergunta de pesquisa é: por que nos desentendemos por mensagem de texto? É óbvio que, dada a centralidade dessa forma de comunicação, todo mundo aqui já se perguntou isso, mas as respostas parecem girar em torno da dificuldade de ler e transmitir tom de voz e expressões faciais, algo que tentamos reverter a base de emoticons e exclamações mais abundantes do que vírgulas. Essa resposta me parece insuficiente e, francamente, abobada, por isso queria ajuda para pensar em algo mais aprumado.
A primeira ressalva lógica em que penso é: nos desentendemos, e agora isso se dá por mensagem de texto. Trata-se de uma coincidência que talvez não implique causalidade. Nos desentendemos, agora isso costuma acontecer por mensagem de texto porque essa é a forma de comunicação não fática mais frequente que usamos, às vezes até com pessoas próximas. Porque conversamos demais por esse meio e porque costumamos criar ou abordar problemas através dele, as chances de nos desentendemos assim crescem. Como a conversa pessoal passou a ser usada como resolvedora de conflitos já postos pelo texto, a disposição das pessoas ao conversarem ao vivo sobre o mesmo problema é outra, o cuidado é outro, o que leva à impressão de que ao vivo funciona quando talvez fosse mais justo pensar que com cuidado funciona, com boa vontade funciona, ou que resolver problemas é menos difícil do que nunca criar problemas.
Mas vamos supor que não seja apenas uma coincidência, que a mensagem de fato aumente a frequência e a gravidade dos desentendimentos. Ainda assim me parece haver respostas mais completas do que tom de voz e expressões faciais. Ao falar em tom de voz e expressões faciais, estamos falando o que, exatamente? Que o texto é intrinsecamente, irremediavelmente deficitário em relação à linguagem oral? Que com os áudios do WhatsApp ou, sei lá, se passarmos a gravar videozinhos no qual faremos todas as expressões e gestos, a questão será resolvida?
Poderíamos dizer que a questão é que não sabemos ler e escrever tão bem quanto sabemos ouvir e falar, o que parece lógico se pensarmos no conjunto da população, mas não corresponde à média das pessoas do meu meio, basicamente alfabetizadas no IRC, ICQ, UOL, MSN e, posteriormente, nas redes sociais, além de serem leitoras de livro ao menos razoáveis. Aprendemos estratégias de leitura e de escrita mais sofisticadas do que a média dos nossos pais porque esses foram desde cedo instrumentos poderosos de sociabilidade. Termos aprendido essas estratégias, todo e cada um de nós estar fluente demais em artimanhas elementares de como construir um texto engraçadinho, perspicazinho, emocionantezinho, talvez contribua para o nosso bode crescente em relação a amigos que postam demais e suas fórmulas fáceis de chamar atenção com textos que parecem berrar o efeito que pretendem causar. As palavras, como todas as outras coisas, sofrem desgaste.
Conclusões parciais: as pessoas se desentendem; as pessoas se desentendem menos quando são mais cuidadosas; as pessoas sabem ler e escrever; a linguagem escrita tem suas próprias ferramentas e independe de gestual e de tom de voz; vídeos e áudios dificilmente resolverão o problema.
Hipóteses para estudos futuros:
Talvez os problemas gerados pelas mensagens de texto estejam mais ligados à falta de controle das condições de recepção da mensagem e a uma tendência a presumir que a outra pessoa lerá nossa mensagem em condições neutras ou similares às nossas. Você escreve uma mensagem levemente bêbado no banheiro de uma festa e dá de barato o quanto o ambiente influencia seu modo de sentir e de se expressar naquele momento, assim como dá de barato que a outra pessoa estará em um estado mental neutro ou semelhante, e não imersa em um outro problema, no meio de uma situação desagradável, de uma conversa mais interessante do que a sua etc.
Se pessoalmente também é possível estar dessintonizado emocionalmente, ao menos existe um ambiente comum e a possibilidade de avaliar o terreno antes de iniciar a interação. Também é mais fácil se desapegar de expectativas e roteiros previamente estabelecidos e se deixar convencer pelo outro quando os turnos de fala não demoram minutos, horas inteiras usadas para solidificar posições.
(no caso de desentendimentos entre casais, talvez seja justo acrescentar que pessoalmente não estamos tão dispostos a interpretar mal alguém em quem pretendemos ter autorização para tocar dali a dois minutos).
Escritores tentam criar e controlar minimamente as condições de recepção de seus textos. Tentam selecionar se o leitor ideal estará com tempo ou apressado, se vai devorar, degustar ou ruminar o texto. O fazem através da extensão, do meio onde publicam, do título apagado ou chamativo, da escolha entre uma linguagem transparente ou opaca, de uma narrativa que empurre o leitor num carrinho de mão e saia em disparada ou que exija que ele caminhe com suas próprias pernas por um terreno movediço. Nós também tentamos controlar essas condições, sobretudo através da escolha entre ferramentas (e-mail pressupõe leitura e resposta mais lentas, WhatsApp pressupõe diálogo etc.), mas trata-se de um controle pequeno e para o qual nos vemos com menos recursos.
Tem a máxima de Montaigne de que metade da palavra é de quem lê, uma proporção que tende a diminuir com o diálogo pessoal, onde aquele que fala tem um poder maior de se fazer entender, pois sente imediatamente as reações de seu interlocutor. No caso do texto escrito, da mensagem de texto, há uma série de circunstâncias que escapam ao poder do enunciador (algo que os americanos chamam de set and setting). Se a pessoa lê sua mensagem no metrô, preocupada com algo do trabalho, ou se lê à noite, no meio das cobertas, são leituras e interpretações e até textos completamente distintos. Para quem pensa que até a literatura pode ser apenas um modo de leitura, e não algo que esteja necessariamente no texto, isso deve fazer sentido.
Outra hipótese, essa um pouco mais fraca: hiperleitura. As palavras ganham mais peso por escrito porque foram grafadas, podem ser lidas várias vezes, soam mais pesadas. Essa é um pouco mais fraca porque, dado o volume em que escrevemos, acho que relemos cada vez menos. Não é como na época do IRC com internet discada e mãe que não era sócia da Telebahia em que nos especializávamos em hiperleitura neurótica ao reler logs de conversas por uma semana antes de iniciar a próxima interação. Você já viu um adolescente de hoje no WhatsApp? A quantidade de mensagens, grupos e conversas a dois que eles administram o tempo todo e ao mesmo tempo? A falta de barreiras financeiras, técnicas e sociais que limitem o falatório descontrolado? Mas isso é uma outra questão porque se trata de uma gente esquisita que vai destruir o mundo de uma tacada. No momento estou mais interessada em saber por que nós, gente limpa e ordeira, não conseguimos nos entender.
Por fim, em uma guinada contraditória e imprevista que aprendi em séries televisivas, tem a questão do tom de voz e das expressões faciais. Mas não é que tenhamos dificuldade em ler ou transmitir por escrito as mesmas informações que esses marcadores da interação face a face transmitem. É que de algum modo esses marcadores não são apenas informações que decodificamos racionalmente, mas ferramentas poderosas de quebra da nossa bolha autocentrada. Pessoalmente, tendemos a querer agradar e a fazer pequenos ajustes e modulações instantâneas nas nossas falas para atingir esse propósito. Isso não apenas não é ruim como é a coisa mais civilizada do mundo. Por mensagem de texto, nos expressamos bem até demais justamente porque são retirados filtros importantes do contato com o outro. O interlocutor se virtualiza virando menos gente e mais projeção. Pessoalmente, o outro não é um avatar irritantemente incapaz de aderir ao seu roteiro, é um termômetro de como suas ideias soam fora da sua cabeça (mal).