{"id":10141,"date":"2015-12-31T12:53:51","date_gmt":"2015-12-31T14:53:51","guid":{"rendered":"http:\/\/julianacunha.com\/blog\/?p=10141"},"modified":"2026-10-23T18:23:24","modified_gmt":"2026-10-23T21:23:24","slug":"desculpa-por-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/desculpa-por-hoje\/","title":{"rendered":"Desculpa por hoje"},"content":{"rendered":"<p>Vou embora em seis meses.<\/p>\n<p>Naquele ponto em que voc\u00ea come\u00e7a a decorar pequenos tiques da pessoa, como um jeito solene de alongar os m\u00fasculos do rosto antes de beber \u00e1gua antes de colocar o aparelho de apneia antes de esticar o bra\u00e7o para o lado no travesseiro e te chamar para deitar ali num gesto um pouco burocr\u00e1tico, quase um flanelinha indicando onde estacionar a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Vou embora em seis meses.<\/p>\n<p>Espero que seja feliz e que d\u00ea tudo certo, quero que fa\u00e7a o que for melhor pra voc\u00ea.<\/p>\n<p>(exceto que quero que fa\u00e7a o que for melhor pra voc\u00ea num raio de duas baldea\u00e7\u00f5es de metr\u00f4 da minha casa. Vejo coisas maravilhosas pra voc\u00ea em Itaquera).<\/p>\n<p>J\u00e1 no primeiro m\u00eas, ele cai sete metros escalando uma rocha. Est\u00e1 prestes a passar a corda pelo pr\u00f3ximo mosquet\u00e3o quando, no pior momento poss\u00edvel, pimba.<\/p>\n<p>I&#8217;ve always wanted to say &#8216;go there, break a leg&#8217; in a context in which the other person could actually end up breaking a leg.<\/p>\n<p>Interna\u00e7\u00e3o, cirurgia, pinos, placas de tit\u00e2nio que voc\u00ea pode ficar tranquilo que n\u00e3o apitam no detector de metal do aeroporto, pizza no sagu\u00e3o ass\u00e9ptico, a m\u00e3e que chora ao telefone. Do quarto, ouvimos passeatas da direita, fazemos piadas sobre xixi no papagaio, o artefato pl\u00e1stico que acaba virando vaso de flores.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 maravilhoso que eles contratem nutricionistas e fa\u00e7am question\u00e1rios pra depois servir torrada, geleia e suco industrializado.<\/p>\n<p>\u2014 E em por\u00e7\u00f5es t\u00e3o pequenas.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a \u00e9 conservadora. O m\u00e9dico quer saber o que sou dele. Sou de uma ONG que acompanha estrangeiros desamparados em hospitais.<\/p>\n<p>Seis semanas depois, tirar os pinos. O mo\u00e7o da administra\u00e7\u00e3o de leitos quer saber a filia\u00e7\u00e3o do paciente. Mo\u00e7o, era bonitinho, chamei pra jantar, as coisas correm bem, n\u00e3o sei o nome do pai.<\/p>\n<p>Luis.<\/p>\n<p>Uma dan\u00e7a de gestos que vai ficando um pouco mais coordenada. A chave de bra\u00e7o disfar\u00e7ada de abra\u00e7o que te d\u00e1 quando quer dormir mais meia hora, o ponto do filme em que \u00e9 preciso mudar o cachorro de lado pra n\u00e3o doer o pesco\u00e7o.<\/p>\n<p>There is no such a thing as romantic experience; there are romantic memories, and there is the desire of romance \u2014that is all. Our most fiery moments of ecstasy are merely shadows of what somewhere else we have felt, or of what we long some day to feel. Strangely enough, what comes of all this is a curious mixture of ardor and indifference. I myself would sacrifice everything for a new experience, and I know there is no such thing as a new experience at all.<\/p>\n<p>Cinco anos de Brasil e pronuncia todas as palavras com x como se fosse equis. Chama t\u00eanis de sapatilha. N\u00e3o acha gra\u00e7a do verso de Drummond \u201ceu tamb\u00e9m j\u00e1 fui brasileiro, moreno como voc\u00eas\u201d.<\/p>\n<p>Fala um portugu\u00eas t\u00e3o bom que, quando calha de cometer um erro, demoro a entender, por bobo que seja, porque n\u00e3o o espero.<\/p>\n<p>Vinte e cinco anos de Estados Unidos e n\u00e3o viu um s\u00f3 filme com Marilyn Monroe, Audrey Hepburn ou Doris Days. N\u00e3o identifica piadas com <em>The Sound of Music<\/em>. Nunca viu um musical.<\/p>\n<p>Mesmo agora seu p\u00e9 continua inchado e com essa cicatriz voc\u00ea at\u00e9 parece uma crian\u00e7a exposta. Podemos te chamar de \u00c9dipo, o de p\u00e9s inchados.<\/p>\n<p>Ela \u00e9 dan\u00e7arina quando saio pro trabalho \u00e0s sete da manh\u00e3. Um lado da cama \u00e9\u00a0roubado, passo a dormir no outro mesmo sozinha, para ressentimento geral do cachorro. Ideias de pautas que damos um ao outro, a comunh\u00e3o poss\u00edvel entre rep\u00f3rteres.<\/p>\n<p>Sinto tantas coisas boas por voc\u00ea. Agora, por exemplo, s\u00f3 um contentamento por voc\u00ea existir em algum ponto da cidade. Da \u00faltima vez que te vi voc\u00ea estava cheio de sono, mas foi muito obediente quando te pedi para se virar para mim um pouco, pra eu mexer no seu rosto antes de levantar. Voc\u00ea virou de um jeito que s\u00f3 posso usar a palavra obediente. Foi engra\u00e7ado, e me deu uma onda de carinho.<\/p>\n<p>N\u00e3o sou boa de apresentar pessoas. Os \u00fanicos amigos que o conheceram o fizeram porque estavam hospedados na minha casa, ou moravam comigo, ou chegaram na hora errada. Para os outros, era minha Odette. (cheguei a falar isso a ele. A piada sobre Odette, as coisas horr\u00edveis que eu sou capaz de falar para uma pessoa).<\/p>\n<p>Um Natal que antecipa separa\u00e7\u00f5es, cada um na sua Bahia e um elefante na sala: n\u00e3o pretende voltar para mim depois das f\u00e9rias.<\/p>\n<p>(um ano antes, o que eu fazia? trocava mensagens com um paquera virtual que passava o Natal na casa dos pais, em Santa Maria da Feira. O cocker spaniel Che caia na piscina na noite do dia 24 e morria congelado, incapaz de nadar pra fora dela).<\/p>\n<p>Estou com saudades suas. Rid\u00edculo ter que terminar com voc\u00ea para me dar conta disso, mas pelo jeito eu sou um pouco rid\u00edculo. N\u00e3o sei qual era a barreira que eu tinha, mas depois de umas 24 horas de al\u00edvio, o que tenho sentido \u00e9 perda est\u00fapida, arrependimento. Eu gosto de voc\u00ea, gosto de como voc\u00ea pensa e fala, seu humor e snort-laugh (que me agradou desde o nosso primeiro encontro), sua cara de surface-antipatia; fiquei um temp\u00e3o agora olhando todas as fotos dispon\u00edveis de voc\u00ea nas redes, como um creep de internet. N\u00e3o sei por que de repente vem essa vontade de estar longe, porque o resto do tempo me sinto t\u00e3o bem com voc\u00ea. E, bom, n\u00e3o sei como \u00e9 poss\u00edvel oscilar de um extremo para outro desse jeito, mas o que sinto agora \u00e9 que quero te namorar, n\u00e3o quero outra coisa.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se voc\u00ea quer, agora. Se n\u00e3o, vou entender. N\u00e3o vou gostar, vou achar triste, mas talvez at\u00e9 melhor, ou pelo menos mais sensato. Tenho medo de muita coisa. Sobretudo de te magoar mais do que j\u00e1 te magoei com minha repentina paranoid-making frieza, porque n\u00e3o a entendo, n\u00e3o sei de onde vem. E, como todos sabemos, eu vou embora \u2014talvez fique at\u00e9 maio agora, porque parece que meu livro sai um m\u00eas mais tarde, mas vou embora\u2014 e tenho medo de te magoar \u00e0 toa por uma coisa por for\u00e7a tempor\u00e1ria. Ou, bom, de me magoar. Sentindo o que senti essa semana, tamb\u00e9m fiquei com medo do meu attachment a voc\u00ea, se faria sentido aument\u00e1-lo, aumentando a possibilidade de all-around m\u00e1goa quando eu for embora, se continu\u00e1ssemos at\u00e9 l\u00e1.<\/p>\n<p>\u00c9 muito medo e muita neurose e d\u00favida. A \u00fanica clareza que tive ao longo da semana \u00e9 que n\u00e3o gosto de n\u00e3o estar com voc\u00ea. Queria ter mais clareza. Acho justo voc\u00ea querer mais. Sei que gosto de voc\u00ea e que a rela\u00e7\u00e3o que t\u00ednhamos \u00e9 sem duvida a melhor que j\u00e1 tive em muitos sentidos. Mas eu tamb\u00e9m tenho medo de minha pr\u00f3pria capacidade de ficar distante assim do nada. E bom, a verdade \u00e9 que ela n\u00e3o \u00e9 uma total novidade pra mim.<\/p>\n<p>Quando eu tinha seis anos, ganhei um porquinho-da-\u00edndia. Que dor de cora\u00e7\u00e3o me dava porque o bichinho s\u00f3 queria estar debaixo do fog\u00e3o! Levava ele pr\u00e1 sala, pra os lugares mais bonitos mais limpinhos. Ele n\u00e3o gostava, queria era estar debaixo do fog\u00e3o. N\u00e3o fazia caso nenhum das minhas ternurinhas\u2026 O meu porquinho-da-\u00edndia foi minha primeira namorada.<\/p>\n<p>Modesto boletim de perdas de um relacionamento breve: um ventilador, um guarda-chuva e duas biografias do lado dele. Um palet\u00f3, outro guarda-chuva (esse em melhor estado) e <em>Um Copo de C\u00f3lera <\/em>do meu.<\/p>\n<p>\u2014 Fui escalar e encontrei o Jorge l\u00e1, junto com o cara que estava fazendo a minha seguran\u00e7a no dia da queda. A minha narrativa da queda estava errada esse tempo todo! Descobri quando perguntei pra eles o que viram. Me dei conta de que o cara, Luiz, apesar de n\u00e3o ter a culpa exatamente, podia ter evitado o acidente se fosse mais experiente. Estou um pouco perturbado porque me dei conta de que eu estava confiando minha vida em gente que eu sequer conhecia.<\/p>\n<p>\u2014 Mas isso \u00e9 parte da beleza da escalada, n\u00e3o? Aquilo que me falou sobre desconhecidos fazerem as vias e voc\u00ea basicamente confiar que fizeram direito.<\/p>\n<p>\u2014 As vias tudo bem, mas n\u00e3o d\u00e1 para fazer uma escalada perigosa como aquela com um desconhecido inexperiente. Eu n\u00e3o estava apreciando os riscos corretamente.<\/p>\n<p>Como sou uma pessoa especial\u00edssima, um artigo raro e delicado, ele terminou comigo duas vezes em um m\u00eas, uma por chat de Facebook ap\u00f3s dias me tratando com burocracia enquanto eu viajava para uma pauta, outra por email, do sagu\u00e3o do aeroporto, antes de embarcar para o Natal. Na v\u00e9spera, dividimos um ceviche que mal dava pra um, tomamos pisco sour e mezcal. No dia seguinte, acordei com ele me olhando como se eu fosse pouco menos do que uma total estranha. Suponho que se eu n\u00e3o fosse t\u00e3o querida podia ter recebido um saco de bosta por Sedex \u00e0 guisa de despedida.<\/p>\n<p>\u00c9 engra\u00e7ado pensar em como nos recuperamos\u00a0dessas coisas \u2014englobando<em> nessas coisas<\/em> desde namoros breves desses que a gente se sente um\u00a0Pedro da Maia\u00a0rebaixado por n\u00e3o superar em dois tempos at\u00e9 hist\u00f3rias s\u00e9rias e longas, dessas que n\u00e3o sei se terei\u2014, e numa velocidade impressionante, mesmo os mais lentos entre n\u00f3s. Outro dia morreu uma funcion\u00e1ria do jornal, uma esp\u00e9cie de datil\u00f3grafa faz-tudo. Em seu obitu\u00e1rio, constava que ela permaneceu solteira a vida toda, fiel a um amor desencontrado da juventude. Bullshitagem. Ela apenas se afei\u00e7oou esteticamente \u00e0 solid\u00e3o, \u00e0 ideia de uma datil\u00f3grafa de jornal que n\u00e3o consegue virar a p\u00e1gina.<\/p>\n<p>Por outro lado, tamb\u00e9m \u00e9 verdade que n\u00e3o nos recuperamos. Fitzgerald em <em>The Crack-Up<\/em>: A man does not recover from such jolts \u2014he becomes a different person, and, eventually, the new person finds new things to care about.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o falava de amor, mas de como, na faculdade, teve de abandonar o projeto de ser um homem que manda em homens para ser um mero escritor. Since that day I have not been able to fire a bad servant, and I am astonished and impressed by people who can.<\/p>\n<p>Nada temos a temer, exceto as palavras. Os gestos ainda n\u00e3o s\u00e3o gravados e arquivados. Sobre eles, a interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 mais arredia, a mem\u00f3ria, mais piedosa. E somos rep\u00f3rteres. Eu sempre digo: sai da frente com esse infogr\u00e1fico. Se voc\u00ea n\u00e3o conseguiu me explicar algo em palavras, n\u00e3o \u00e9 um desenho que ir\u00e1 salvar.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea n\u00e3o fala as coisas, \u00e9 como se elas n\u00e3o tivessem ocorrido. Um gesto precisa que algu\u00e9m venha por cima e fixe o sentido dele. Sen\u00e3o ele parece falar por si, mas s\u00f3 por uma semana. S\u00e3o as palavras que v\u00e3o criando os sentimentos. Voc\u00ea fala \u201ceu gosto de voc\u00ea\u201d e isso passa a existir, \u00e9 um verbo performativo. Ou o contr\u00e1rio: fala \u201ceu gosto de voc\u00ea\u201d e aquilo n\u00e3o se sustenta, a frase te soa capenga. Mas \u00e9 preciso dizer, soltar as palavras no frio da conversa para ver se elas solidificam ou esfarelam; um pouco como fazer vidro. Ningu\u00e9m vai dizer que \u00e9 f\u00e1cil pegar as palavras, crias suas, e atirar nesse mundo sem saber o que ser\u00e3o delas.<\/p>\n<p>(em jornalismo, temos um termo interessante: chama-se legenda para cego. legenda para cego \u00e9 quando o redator faz uma legenda que descreve a foto, em vez de adicionar informa\u00e7\u00f5es a ela. h\u00e1 uma foto de uma mulher no parque, sentada num banco e a legenda diz: mulher no parque, sentada num banco, em vez de informar quem \u00e9 a dita cuja, quantos anos ela teria, que parque seria esse, o que estaria fazendo ali sentada, porque tiramos essa foto. mas a descri\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 reprodu\u00e7\u00e3o, \u00e9 decifra\u00e7\u00e3o, e eu particularmente adoro legenda para cego. existem duas modalidades de declara\u00e7\u00e3o amorosa, a legenda para cego e a fabrica\u00e7\u00e3o de vidro).<\/p>\n<p>Actually we did not have the feelings we said we had until we spoke them \u2014at least, I didn\u2019t; to phrase them was to invent them and own them. We whipped our strangeness and newness into a froth that resembled love, and we dared not play too long with it, talk too much of it, or it would flatten and fizzle away.<\/p>\n<p>Desculpa por hoje. N\u00e3o queria estar repetindo j\u00e1 essa coisa de ficar de repente distante e frio. Por tr\u00e1s tem algumas das mesmas raz\u00f5es. Mas a verdade \u00e9 que tem outra coisa tamb\u00e9m, que \u00e9 que acho que n\u00e3o posso retribuir o que voc\u00ea disse sentir por mim. Eu mencionei motivos racionais, mas me parece que aquilo talvez n\u00e3o devesse ser t\u00e3o racional, e que a minha pr\u00f3pria busca por desculpas significa alguma coisa. Sinceramente n\u00e3o sei como posso oscilar t\u00e3o dramaticamente como voc\u00ea tem visto, mas n\u00e3o me parece justo com voc\u00ea, e tamb\u00e9m me parece que talvez eu precise aceitar essa inconst\u00e2ncia como sinal de que n\u00e3o vai dar certo entre n\u00f3s. N\u00e3o queria me precipitar, nem queria terminar com voc\u00ea por email, mas tamb\u00e9m n\u00e3o queria te deixar no limbo que nem da \u00faltima vez \u2014por ainda mais tempo, j\u00e1 que vou estar fora durante tr\u00eas semanas. Me sinto terr\u00edvel tendo pedido para voc\u00ea voltar comigo s\u00f3 para terminar pouco depois. Acho voc\u00ea especial e n\u00e3o podia n\u00e3o tentar de novo; realmente achava que podia funcionar, e passei momentos muito bons com voc\u00ea nesse tempo. Mas acho que eu n\u00e3o sinto o que precisaria sentir para a gente continuar. Desculpe-me de novo por te fazer passar por tudo isso.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei de que cor s\u00e3o seus olhos. Almir Guineto tem um samba que ele fez numa mesa de bar, pra fugir de uma saia justa. Ele sempre passava a mesma cantada, dizia pras mo\u00e7as que elas tinham uns olhos lindos. Um dia, uma mais esperta fechou o olho na hora e perguntou: mas de que cor s\u00e3o meus olhos? Os seus n\u00e3o d\u00e1 pra saber, mesmo abertos n\u00e3o d\u00e1 pra saber.<\/p>\n<p>\u2014 Prometo n\u00e3o te colocar numa situa\u00e7\u00e3o em que seja crucial saber a cor dos meus olhos.<\/p>\n<p>\u2014 Se te perco na praia e saio te descrevendo, \u00e9 a primeira coisa que perguntam.<\/p>\n<p>Ambar.<\/p>\n<p>Almir Guineto n\u00e3o pensou numa resposta pronta para essa cor.<\/p>\n<p><em>Bianca<\/em>, Nanni Moretti. C\u2019\u00e8 un uomo che ti pensa ancora, lo capisci questo? A conversa na rede em que falamos de ex-namorados, a impress\u00e3o de que, de um jeito ou de outro, ele sempre sai por cima das situa\u00e7\u00f5es. A mo\u00e7a que ficava na janela e escrevia sobre cavalos. Foi ela quem terminou e ainda assim \u00e9 ela quem \u201ccontinua tendo problemas\u201d. A que tenta lhe cooptar os amigos e questiona o motivo do t\u00e9rmino tr\u00eas anos depois do ocorrido. \u201cE, poxa, foi um namoro de um ano\u201d.<\/p>\n<p>O que tenho a depor de minha parte? O namorado de adolesc\u00eancia, os virtuais, o que teve leucemia e muito cedo perdeu a conex\u00e3o com o real, o que hoje \u00e9 amigo t\u00e3o pr\u00f3ximo que virou minha fam\u00edlia, o que me dispensou em dois meses por mensagem de texto quando eu achava que tinha encontrado a minha pessoa. Numa revista semanal, Contardo Calligaris dizia: a gente devia se divorciar por WhatsApp. A descri\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 proposi\u00e7\u00e3o, \u00e9 constata\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Aquela cena em que Michele diz pra Bianca: n\u00e3o vamos come\u00e7ar nada porque um dia, quando eu j\u00e1 estiver tranquilo, eu estarei aqui no terra\u00e7o, apenas aqui no terra\u00e7o, voc\u00ea vai se aproximar de mim, vou te sentir solene, vai come\u00e7ar a dizer \u201cprecisamos conversar, acho que n\u00e3o est\u00e1 dando certo\u201d.<\/p>\n<p>No come\u00e7o, \u201ceu gosto de voc\u00ea\u201d significa \u201ceu gosto de voc\u00ea\u201d. Passados uns meses, \u201ceu gosto de voc\u00ea\u201d significa \u201ceu n\u00e3o te amo\u201d e at\u00e9 evitamos dizer.<\/p>\n<p>Voc\u00ea pode tentar remendar isso com um olhar mais penetrante, com uma pausa dram\u00e1tica antes de \u201cgosto\u201d, mas leia de novo o que eu disse sobre gestos.<\/p>\n<p>Um prazo assim estimula neuroses e as nossas preenchem com folga os tr\u00eas quarteir\u00f5es que nos separam. Mas \u00e9 tamb\u00e9m um al\u00edvio: voc\u00ea tem uma dura\u00e7\u00e3o definida, \u00e9 mais f\u00e1cil escrever dentro da retranca. O que voc\u00ea quer que signifique? Voc\u00ea quer fazer uma hist\u00f3ria bonita, mas quer levantar r\u00e1pido depois. Philip Roth diz que nada de mal pode acontecer a um escritor, tudo \u00e9 material. Mas muita coisa pode acontecer a dois.<\/p>\n<p>Defeitos: obcecado pelo pr\u00f3prio corpo. Se fosse poss\u00edvel, eu preferiria n\u00e3o ouvir de novo o quanto todo mundo te acha mais novo do que voc\u00ea realmente \u00e9. Isent\u00e3o que acha que n\u00e3o \u00e9 isent\u00e3o apenas se faz de isent\u00e3o para ter mais credibilidade. Se relaciona com os assuntos como se fossem apenas not\u00edcias.\u00a0Faz uma doa\u00e7\u00e3o generosa para a caixinha dos porteiros e fica conferindo se os vizinhos seguiram <em>O Exemplo<\/em>. Toma aqui o seu trof\u00e9u por n\u00e3o se expor em redes sociais. Tem um cheiro bom que se prova intransfer\u00edvel para superf\u00edcies como travesseiros e roupas \u2014isso dep\u00f5e contra algu\u00e9m que n\u00e3o se d\u00e1 ao mundo, que ret\u00e9m as coisas.<\/p>\n<p>Qualidades: N\u00e3o faz aquela cara de apari\u00e7\u00e3o da Virgem que alguns homens fazem diante da nudez feminina. \u00c9 poss\u00edvel deixar celulares desbloqueados e computadores sem senha por perto. Gosta de cachorros e plantas, embora prefira n\u00e3o cuidar deles. Poucos amigos, discreto como nunca serei, nenhuma necessidade de encher a vida de figurantes, nenhuma necessidade de fingir saber o que n\u00e3o sabe, n\u00e3o falha em reconhecer responsabilidades. Inteligente, razoavelmente engra\u00e7ado e constrangedoramente bonito.<\/p>\n<p>As a teenager, I started to grab that it was relatively easy for people to recognize my qualities or even to like me, but something on me (or something I lack) would prevent them to go any further. There is something on me that wouldn\u2019t allow them to take the next step \u2014which is not a step anymore, it\u2019s more of a fall. I know that I may sound both pretentious and victimist for saying that is not hard for people to like and admire me, and yet I\u2019m somehow beyond being loved, but I don\u2019t care about how I sound. I just don\u2019t want you to doubt your own capacity to love just because you couldn\u2019t love me. Nobody could, sweetpie. I\u2019m kind of a shadow zone for other people\u2019s affections.<\/p>\n<p>Tem gostos interessantes por serem indistintos. N\u00e3o d\u00e1 para saber exatamente do que ele gosta porque n\u00e3o usa seus consumos culturais como marcadores de personalidade. (que tipo de pessoa \u00e9 esse?). Eu diria que ele gostou de <em>Out of Sheer Rage<\/em>, de Geoff Dyer, mas n\u00e3o me sinto confort\u00e1vel dizendo que ele goste especificamente de um autor, ou do que quer que seja.<\/p>\n<p>Est\u00e1 sempre se perguntando ser\u00e1 que a Ju vai continuar saindo comigo se eu tirar a barba, ser\u00e1 que a Ju vai continuar gostando de mim depois de ler meu livro. At\u00e9 concluir que sim e isso deixar de importar.<\/p>\n<p>Estando com uma pessoa bonita, \u00e9 dif\u00edcil saber o que \u00e9 sua proje\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica e o que est\u00e1 no objeto. O que \u00e9 afeto e o que \u00e9 fria constata\u00e7\u00e3o de fatos. \u00c9 bonito ver um homem forte sentado na sua cama \u2014lendo, engolindo comprimidos misteriosos, procurando o repelente entre os sapatos.<\/p>\n<p>Tem rugas ao redor dos olhos que n\u00e3o consigo identificar de onde v\u00eam. Rugas s\u00e3o rastros de movimentos, mas as dele saem do cantinho do olho, ali onde se alojam as remelas, e partem como ligeiros sulcos at\u00e9 a ma\u00e7\u00e3 do rosto. Que movimento \u00e9 preciso fazer para marcar a pele desse modo? Pe\u00e7o que fa\u00e7a express\u00f5es com a cara, mas n\u00e3o consigo descobrir.<\/p>\n<p>Mora h\u00e1 cinco anos num estado de imperman\u00eancia, num duplex mobiliado com talheres de cabo pl\u00e1stico corro\u00eddo e m\u00f3veis de madeirinha clara e aspecto de escrit\u00f3rio. Na casa dele, as coisas nunca est\u00e3o diretamente sobre um m\u00f3vel, \u00e9 sempre um paninho e s\u00f3 ent\u00e3o os objetos. \u00c9 paninho, rel\u00f3gio, panhinho, escova de cabelo. Um cuidado de tia um pouco destoante do quadro geral. Para n\u00e3o dizer que nunca escalei nada, escalamos da sala ao quarto do duplex com uma corda. N\u00e3o sei se fiz por gosto ou pela hist\u00f3ria, mas a gente raramente sabe.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vou embora em seis meses. Naquele ponto em que voc\u00ea come\u00e7a a decorar pequenos tiques da pessoa, como um jeito solene de alongar os m\u00fasculos do rosto antes de beber \u00e1gua antes de colocar o aparelho de apneia antes de esticar o bra\u00e7o para o lado no travesseiro e te chamar para deitar ali num [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-10141","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10141","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10141"}],"version-history":[{"count":20,"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10141\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10278,"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10141\/revisions\/10278"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10141"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10141"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10141"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}