{"id":10197,"date":"2016-01-24T15:27:59","date_gmt":"2016-01-24T17:27:59","guid":{"rendered":"http:\/\/julianacunha.com\/blog\/?p=10197"},"modified":"2026-10-23T18:23:13","modified_gmt":"2026-10-23T21:23:13","slug":"mistress-america-frances-ha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/mistress-america-frances-ha\/","title":{"rendered":"Mistress America, Frances Ha"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o sei exatamente por que assisto a todos os filmes de Noah Baumbach se o \u00fanico realmente bom \u00e9 <em>A Lula e a Baleia<\/em>. Fora ele, tenho alguma afei\u00e7\u00e3o por <em>Frances Ha <\/em>e acho os outros med\u00edocres, mas \u00e9 de Deus.<\/p>\n<p>O mais recente, <em>Mistress America<\/em>, \u00e9 uma esp\u00e9cie de continua\u00e7\u00e3o de <em>Frances Ha<\/em>. As personagens s\u00e3o outras, mas ele segue na proposta de mostrar problemas em uma rela\u00e7\u00e3o entre duas garotas. Na verdade, o que menos importa \u00e9 serem duas garotas. Ambos os filmes s\u00e3o sobre a dificuldade de estabelecer v\u00ednculos num mundo de rela\u00e7\u00f5es fugidias. S\u00f3 que em vez de se voltar para namoros, casamentos, aquilo que todo mundo j\u00e1 sabe que azeda, ele lan\u00e7a esse mesmo olhar da fragmenta\u00e7\u00e3o para as rela\u00e7\u00f5es que ainda vemos como s\u00f3lidas. Em <em>Frances Ha<\/em>, a amizade. Em <em>Mistress America<\/em>, uma tentativa de fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Frances \u00e9 uma aspirante a dan\u00e7arina que enxerga a melhor amiga e roommate, Sophie, como uma esp\u00e9cie de reserva afetiva em uma Nova Iorque fria e hipisterizada em que as rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o comodificadas at\u00e9 o talo. Aguentem uma an\u00e1lise FFLCH porque \u00e9 o que a casa tem pra servir.<\/p>\n<p>A comodifica\u00e7\u00e3o surge em diversos pontos do filme. Frances e o namorado terminam durante uma negocia\u00e7\u00e3o sobre alugu\u00e9is e gatos. Ele quer morar com ela, mas n\u00e3o como um projeto rom\u00e2ntico: quer ter algu\u00e9m para dividir o valor e o cuidado com os dois gatos que deseja comprar, e que trata como mercadoria o tempo todo. J\u00e1 ela quer renovar o contrato de aluguel com a melhor amiga. Os dois rompem em um di\u00e1logo em que ela se oferece para pagar por um dos gatos e ressalta que o valor de mercado dele vai ficar prejudicado sendo um &#8220;solteiro com dois gatos&#8221;. Depois, numa conversa com a amiga, Frances avalia o ex em termos de performance, quantidade de sexo obtido, repeti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O rompimento com o namorado n\u00e3o \u00e9 nem um pouco traum\u00e1tico porque a rela\u00e7\u00e3o real de Frances \u00e9 com Sophie. \u00c9 para ela que Frances pede &#8220;me conte a hist\u00f3ria da gente&#8221; (uma hist\u00f3ria em que as duas s\u00e3o bem sucedidas, t\u00eam amantes e n\u00e3o maridos e s\u00e3o invejadas por todos), \u00e9 com ela que divide a vida.<\/p>\n<p>Na maior parte das cenas entre as duas, Frances est\u00e1 de corpo presente enquanto Sophie est\u00e1 com a aten\u00e7\u00e3o dividida. Enquanto Frances l\u00ea alto para a amiga, Sophie fica no celular. Enquanto Frances faz basicamente qualquer coisa f\u00edsica e presente, Sophie abre uma janela para fora dali. Em dado momento, Frances reclama disso, com algum humor. A amiga responde: meu celular n\u00e3o deixa a lou\u00e7a na pia por semanas.<\/p>\n<p>Num ambiente de trabalho competitivo e precarizado \u2014aos 27 ela ainda est\u00e1 tentando numa profiss\u00e3o em que a validade dos corpos \u00e9 baixa\u2014, num contexto em que rela\u00e7\u00f5es amorosas duram (e significam) cada vez menos, parece muito esperto da parte de Frances depositar sua lealdade na amizade, um la\u00e7o aparentemente menos perec\u00edvel que os\u00a0demais.<\/p>\n<p>Um pouco mais bem-sucedida do que a amiga \u2014ela \u00e9 editora-assistente numa grande editora\u2014 Sophie, tem outros planos e, pouco depois do fim do namoro de Frances, avisa que quer se mudar para outro apartamento, com outras pessoas, num lugar que a amiga n\u00e3o pode pagar. O aviso \u00e9 feito no metr\u00f4 e Sophie precisa dar resposta sobre o apartamento no mesmo dia. Ela nem se incomoda em fingir que as coisas s\u00e3o de outro modo: os argumentos fornecidos\u00a0s\u00e3o \u201co apartamento \u00e9 \u00f3timo\u201d, \u201c\u00e9 a rua onde eu sempre quis morar\u201d.\u00a0 A pr\u00f3pria Frances n\u00e3o consegue externar descontentamento afetivo com a situa\u00e7\u00e3o. Os argumentos que ela usa n\u00e3o s\u00e3o &#8220;mas somos amigas, mas voc\u00ea est\u00e1 me trocando por um apartamento&#8221;. Ela apenas diz que a amiga precisa arcar com o aluguel das duas at\u00e9 o fim do contrato. N\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para uma exig\u00eancia afetiva, s\u00f3 para exig\u00eancias contratuais. Como diz um amigo meu, hoje em dia \u00e9 tudo os indiv\u00edduos, os contratos e vambora. O contrato das duas, no caso, n\u00e3o \u00e9 renovado.<\/p>\n<p>De um turno, Frances fica sem casa (ela n\u00e3o pode bancar o apartamento sozinha), sem namorado e sem amiga, j\u00e1 que Sophie n\u00e3o apenas muda de casa como desaparece de cena, deixando claro o aspecto circunstancial da rela\u00e7\u00e3o. A amizade das duas era relativamente longa: tinham feito faculdade juntas, moravam juntas. Mas circunst\u00e2ncias tamb\u00e9m podem ser longas.<\/p>\n<p>No apartamento vazio, a falta de Sophie ganha uma dimens\u00e3o material. O \u00fanico protesto de Frances depois da separa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m se d\u00e1 materialmente: liga para reclamar que ela levou embora uma chaleira que as duas compraram juntas. &#8220;We bought it together, remember?&#8221;. \u00c9 o v\u00ednculo que tem pra hoje.<\/p>\n<p>A perda de Sophie \u00e9 seguida de uma busca pelas coisas perdidas: os elos, o lar. Frances vai morar no quarto menor do apartamento de dois garotos ricos. Basta uma noite boa, um jantar em que ela pr\u00f3pria faz todo o esfor\u00e7o afetivo, cozinha, dan\u00e7a e tenta agradar, pra Frances se encantar com a idea de uma amizade de sitcom. Quando Sophie finalmente reaparece para um breve encontro entre um compromisso e outro, acha a casa de Frances muito autoconsciente. Ela rebate dizendo que \u00e9 tudo \u00f3timo e que ela e os roommates possuem a tal amizade de sitcom.<\/p>\n<p>N\u00e3o tem uma tentativa de contato humano no filme que n\u00e3o seja mediada pelo dinheiro e pelo consumo de experi\u00eancias. Num jantar com um dos amigos ricos, Frances quer pagar a conta, mas o restaurante s\u00f3 aceita cart\u00e3o de cr\u00e9dito: \u201cN\u00e3o tenho cart\u00e3o de cr\u00e9dito, n\u00e3o sou uma pessoa de verdade\u201d.<\/p>\n<p>No fim, Sophie troca sua carreira por um noivo rico, Frances ajusta suas expectativas e aceita um emprego de escrit\u00f3rio na companhia de dan\u00e7a, que ela concilia com alguns trabalhos como core\u00f3grafa. Vai morar sozinha num apartamento muito longe do Soho de Sophie e continua considerando a amiga como a \u201csua pessoa\u201d.<\/p>\n<p>Baumbach poderia contar essa hist\u00f3ria como uma hist\u00f3ria de amor, de casal, mas as pessoas facilmente achariam que o problema est\u00e1 na fragilidade do desejo, em como \u201choje em dia temos op\u00e7\u00f5es demais e fica dif\u00edcil escolher\u201d, em como o ser humano \u201cn\u00e3o foi feito\u201d para estabelecer um v\u00ednculo amoroso de longo prazo. Optando pela amizade, ele retira esses fatores e respostas prontas, embora ainda \u00e9 poss\u00edvel jogar tudo na conta da din\u00e2mica da metr\u00f3pole ou em sei l\u00e1 que justificativa as pessoas d\u00e3o para a fal\u00eancia das rela\u00e7\u00f5es hoje em dia. Me parece claro que dinheiro e trabalho exer\u00e7am uma fun\u00e7\u00e3o central no filme, assim como nos nossos problemas contempor\u00e2neos para manter e estabelecer v\u00ednculos. A amizade n\u00e3o \u00e9 nem pode ser um tipo de rela\u00e7\u00e3o isento dos problemas de todas as outras rela\u00e7\u00f5es que estabelecemos. Se somos descart\u00e1veis e descartados no amor e no trabalho, por que n\u00e3o ser\u00edamos na amizade?<\/p>\n<p>A resposta de <em>Frances Ha<\/em> \u00e9: podemos sim, e somos.<\/p>\n<p>Algumas pessoas (meus amigos) enxergam o fim do filme como um ajuste saud\u00e1vel de expectativas por parte de Frances. Eu acho que profissionalmente pode ser: ela aceitou o emprego de escrit\u00f3rio na companhia de dan\u00e7a, entreviu que podia ser uma boa core\u00f3grafa, ainda que dificilmente seja a core\u00f3grafa do table-book que todos invejam, n\u00e3o caiu numa narrativa de que quanto voc\u00ea descobrir o que *realmente nasceu para fazer*, o c\u00e9u ser\u00e1 o limite. Mas do ponto de vista das rela\u00e7\u00f5es pessoais, o ajuste parece violento: ela permanece sozinha, os amigos continuam sendo aqueles p\u00e9ssimos amigos de sempre, Sophie parece ser a Sophie de sempre.<\/p>\n<p>A cena final em que ela mede o pr\u00f3prio tamanho no batente do novo apartamento e tenta encaixar o pr\u00f3prio nome no interfone (n\u00e3o funciona, da\u00ed a abrevia\u00e7\u00e3o para Frances Ha) me parece uma cena em que ela se redimensiona e abra\u00e7a a solid\u00e3o. A cara de contentamento, no entanto, aponta para uma mitologia contempor\u00e2nea da pessoa que se basta, uma l\u00f3gica que n\u00e3o me agrada muito. N\u00e3o tenho nenhuma solu\u00e7\u00e3o melhor para oferecer a Frances, mas queria que ela demonstrasse algum tipo de saud\u00e1vel insatisfa\u00e7\u00e3o com o que lhe \u00e9 oferecido.<\/p>\n<p>J\u00e1 em <em>Mistress America<\/em> temos essa caloura de faculdade aspirante a escritora t\u00edpica Pessoa Boa de filme que se veste, age e fala como A Menina Legal Que Na Primeira Cena Voc\u00ea Sabe Que \u00c9 Legal. E temos Greta Gerwig num papel de Pessoa de Sucesso. Mas \u00e9 a Greta Gerwig, ent\u00e3o n\u00e3o d\u00e1 para cair no papel. S\u00f3 quem cai \u00e9 a escritora, que na verdade \u00e9 a esp\u00e9cie de vil\u00e3 do filme.<\/p>\n<p>Tracy, a escritora, e Brooke, a Mistress America, se conhecem por sugest\u00e3o dos pais delas, que por sua vez mal se conhecem, mas v\u00e3o se casar. Ambas parecem maravilhadas com a ideia de um v\u00ednculo familiar, de ter uma irm\u00e3. Mas Brooke \u00e9 obcecada por sua autoimagem. E Tracy \u00e9 a escritora que transita pelo mundo usando as outras pessoas como material.<\/p>\n<p>Brooke n\u00e3o fez faculdade e vive de uma sobreposi\u00e7\u00e3o de subempregos: como professora de spinning numa academia, decoradora, dando aulas de matem\u00e1tica para uma crian\u00e7a, fazendo o que aparecer enquanto tenta embalar essa precariedade triste numa aura descolada. O restaurante que ela quer abrir reflete esse modo err\u00e1tico. Ela quer que pare\u00e7a o lugar onde voc\u00ea gostaria de ter ido na sua inf\u00e2ncia, quer que seja acolhedor, familiar (um familiar armado, j\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 o restaurante onde voc\u00ea foi na sua inf\u00e2ncia, e sim onde queria ter ido numa outra inf\u00e2ncia, muito melhor). Mas tamb\u00e9m quer que seja uma s\u00e9rie de coisas: que sirva comida, que agregue, que as pessoas possam ir trabalhar, e conversar, e apenas estar, e quem sabe pode ter um espa\u00e7o pra isso, praquilo e praquilo outro. Brooke passou a vida colecionando pratos \u201csem saber por que\u201d e espera que o restaurante possa ser a coisa que vai sintetizar e dar sentido a tudo que ela passou a vida juntando sem saber por qu\u00ea.<\/p>\n<p>O restaurante, claro, n\u00e3o vai pra frente (ter um restaurante \u00e9 como ter um filho viciado em drogas, diz seu ex-namorado rico). Brooke depende do dinheiro do namorado rico (outro) para montar o neg\u00f3cio, e ele termina com ela. O casamento de seu pai com a m\u00e3e de Tracy tamb\u00e9m desanda e, do nada, ela e a meia-irm\u00e3 n\u00e3o s\u00e3o nada uma da outra. Aquela rela\u00e7\u00e3o na qual ela depositava uma expectativa de ser uma coisa menos circunstancial e vol\u00favel que as demais\u00a0vai ter que se estabelecer no mesmo grau de precariedade de todas as outras porque dependia da rela\u00e7\u00e3o entre os pais delas, que era por sua vez vol\u00favel. Nada na vida de Brooke tem um lastro. Tudo depende de rela\u00e7\u00f5es (inclusive a vida financeira dela, que depende de namorados) fragilizadas.<\/p>\n<p>Tracy escreve sobre Brooke no dia seguinte ao primeiro encontro das duas. Pinta a meia-irm\u00e3 como uma esp\u00e9cie de super-hero\u00edna novaiorquina um pouco utilitarista e que n\u00e3o reconhece seu lugar no mundo. Brooke l\u00ea o texto e, claro, n\u00e3o gosta. Acha injusto ser resumida \u00e0quilo. Acha injusto que a irm\u00e3 tenha escrito sobre ela e que o tenha feito depois de 01 noite juntas. Tracy tenta explicar que a personagem n\u00e3o \u00e9 exatamente a irm\u00e3, \u00e9 fic\u00e7\u00e3o. Argumenta que escreveu sobre coisas que as duas viveram. Brooke solta duas frases maravilhosas: \u201c\u00e9, mas essa fic\u00e7\u00e3o est\u00e1 cheia de coisas que n\u00e3o aconteceram bem assim\u201d. E: \u201cvoc\u00ea \u00e9 uma pessoa muito pior do que parece \u00e0 primeira vista\u201d.<\/p>\n<p>As duas acusa\u00e7\u00f5es s\u00e3o verdadeiras e o texto da irm\u00e3, a prop\u00f3sito, \u00e9 um amontoado de clich\u00eas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o sei exatamente por que assisto a todos os filmes de Noah Baumbach se o \u00fanico realmente bom \u00e9 A Lula e a Baleia. Fora ele, tenho alguma afei\u00e7\u00e3o por Frances Ha e acho os outros med\u00edocres, mas \u00e9 de Deus. O mais recente, Mistress America, \u00e9 uma esp\u00e9cie de continua\u00e7\u00e3o de Frances Ha. 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