{"id":10229,"date":"2016-03-26T19:16:15","date_gmt":"2016-03-26T22:16:15","guid":{"rendered":"http:\/\/julianacunha.com\/blog\/?p=10229"},"modified":"2026-10-23T18:22:56","modified_gmt":"2026-10-23T21:22:56","slug":"festa-em-piscina-vazia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/festa-em-piscina-vazia\/","title":{"rendered":"Festa em piscina vazia"},"content":{"rendered":"<p>Uma fam\u00edlia do Morumbi leva uma vida de conflitos apaziguados at\u00e9 que a filha da empregada entre em cena. \u200bLan\u00e7ado em 2015, <em>Que Horas Ela Volta?<\/em> \u00e9 uma esp\u00e9cie de f\u00e1bula lulista perfeita. No filme, uma empregada que dorme no servi\u00e7o e vive \u00e0 sombra dos patr\u00f5es come\u00e7a a questionar a ordem das coisas quando sua filha passa no vestibular.<\/p>\n<p>Val (Regina Cas\u00e9) parece perfeitamente conformada com a vida numa casa com piscina no Morumbi. Empregada h\u00e1 quase vinte anos, ela viu Fabinho (Michel Joelsas), filho dos patr\u00f5es Barbara (Karine Teles) e Carlos (Louren\u00e7o Mutarelli), crescer enquanto sua pr\u00f3pria filha, J\u00e9ssica (Camila M\u00e1rdila), era criada em Pernambuco por uma mulher chamada Sandra, que ningu\u00e9m sabe se \u00e9 parente ou bab\u00e1 da menina. O pai, embora mencionado, parece ter uma atua\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria o bastante para ser desprezada.<\/p>\n<p>A casa \u00e9 grande e conta com a ajuda de empregados eventuais, como um zelador e uma faxineira. A fun\u00e7\u00e3o de Val \u00e9 mais do que cuidar da casa, \u00e9 atender a qualquer m\u00ednima demanda dos patr\u00f5es, incapazes de pegar um copo d\u2019\u00e1gua na geladeira.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia vive num mundo em que a riqueza independe do trabalho. A renda do casal vem da heran\u00e7a do marido, um pintor precocemente \u201caposentado\u201d. Segundo ele pr\u00f3prio, foi reconhecido r\u00e1pido demais, o que lhe estragou o talento. A mulher trabalha com algo relacionado a moda, embora nunca apare\u00e7a trabalhando e sua atividade seja posta de maneira bastante gen\u00e9rica.<\/p>\n<p>Na \u00fanica cena relacionada a trabalho, ela aparece dando uma entrevista para a televis\u00e3o em que o que \u00e9 ressaltado \u00e9 seu estilo de vida, n\u00e3o seu trabalho. Na entrevista, pedem que Barbara defina o que \u00e9 estilo. Ela diz que estilo \u00e9 ser voc\u00ea mesmo. Esse \u00e9 um bom resumo para a profiss\u00e3o de Barbara, e dos ricos improdutivos em geral. Algumas vezes s\u00e3o pintores, noutras trabalham com moda, mas sua verdadeira atividade \u00e9 ser eles mesmos e ganhar algum em cima disso, seja simbolicamente ou fazendo o dinheiro girar entre outros ricos em ciclos relacionais est\u00e9reis.<\/p>\n<p>Ainda que se dedique a uma atividade presumivelmente decorativa, Barbara \u00e9 a \u00fanica pessoa de a\u00e7\u00e3o na casa. A \u00fanica que precisa ou se sente impelida a fazer algo para manter sua posi\u00e7\u00e3o, seja atrav\u00e9s de festas, entrevistas ou corridas na esteira. J\u00e1 os homens da casa se entregam ao lazer sem disfarces, quando n\u00e3o sucumbem ao t\u00e9dio.<\/p>\n<p>O esquema dom\u00e9stico \u00e9 t\u00e3o bem estruturado que os conflitos parecem invis\u00edveis. Essa invisibilidade \u00e9 possibilitada por Val, que parece ter as regras do jogo entranhadas numa esp\u00e9cie de segunda natureza. Para n\u00e3o dizer que ela nunca cruza a linha da hierarquia, sozinha, no banheiro da patroa, experimenta um creme. Passa no bra\u00e7o algo que provavelmente \u00e9 destinado ao rosto e faz uma cara de prazer e estranhamento.<\/p>\n<p>A paz dom\u00e9stica depende ainda da ingenuidade infantil de Val. No anivers\u00e1rio da patroa, por exemplo, ela compra um jogo de caf\u00e9 para dar de presente a Barbara. A patroa recebe o presente com displic\u00eancia e cuida para que fique \u201creservado para uma ocasi\u00e3o especial\u201d. O tom usado \u00e9 teatral e condescendente, como se falasse a uma crian\u00e7a. Mais do que isso: como se estivesse enganando uma crian\u00e7a na frente de outro adulto e fizesse quest\u00e3o de piscar para o adulto enquanto fala. O outro adulto, no caso, \u00e9 a jornalista que est\u00e1 na sala, uma pessoa que, embora n\u00e3o pare\u00e7a ser da mesma classe de Barbara, pelo menos \u00e9 considerada como igual para os fins desse di\u00e1logo.<\/p>\n<p>Qualquer adulto com um m\u00ednimo de traquejo teria compreendido a mensagem. A patroa detestou o presente, n\u00e3o considera aquele jogo de caf\u00e9 digno de sua casa e espera nunca mais v\u00ea-lo. Val, no entanto, cai na conversa da ocasi\u00e3o especial e tenta usar o presente numa festa da casa. \u00c9 repreendida no ato. Ainda assim, sua rea\u00e7\u00e3o \u00e9 antes de incompreens\u00e3o que de humilha\u00e7\u00e3o ou raiva. Na sua generosidade simples, Val \u00e9 um retrato perfeito da pureza popular que habitava o imagin\u00e1rio intelectual brasileiro at\u00e9 a d\u00e9cada de 1980.<\/p>\n<p>Mas a infantiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas de Val. Os patr\u00f5es, sobretudo os homens, tamb\u00e9m s\u00e3o infantilizados. Val trata Fabinho como a um filho, retirados da equa\u00e7\u00e3o todos os conflitos de uma rela\u00e7\u00e3o m\u00e3e e filho. Sua rotina de adolescente difere muito pouco da rotina de crian\u00e7a. S\u00e3o os mesmos amigos, a mesma piscina como eixo central da vida. Fora uma camiseta de banda de rock, n\u00e3o h\u00e1 em Fabinho nenhum sinal de puberdade, algo que fica mais aparente com o surgimento de J\u00e9ssica. Postos lado a lado, os dois jovens da mesma idade parecem ter muitos anos\u00a0entre eles.<\/p>\n<p>Carlos tamb\u00e9m recebe, de certo modo, um tratamento de filho, com a empregada indo ao p\u00e9 de sua cama para acord\u00e1-lo, por exemplo. O clima de conflito, ainda que velado, \u00e9 mais aparente com Barbara. Aos homens cabe uma posi\u00e7\u00e3o de quem est\u00e1 acima das miudezas dom\u00e9sticas e sequer repara nelas.<\/p>\n<p>Um recurso que o filme explora bastante\u00a0\u00e9 o humor do subalterno. Quando Carlos vai \u00e0 cozinha buscar um guaran\u00e1, Val o \u201crepreende\u201d dizendo: \u201co que o senhor est\u00e1 procurando na minha geladeira?\u201d. O que ela quer dizer \u00e9 \u201cpor que o senhor n\u00e3o me diz o que quer e eu te sirvo?\u201d, mas isso \u00e9 colocado como uma declara\u00e7\u00e3o de posse da geladeira. Ao estilo das piadas em que um homem chama sua mulher de \u201cpatroa\u201d, brincamos com o que est\u00e1 longe de ser real.<\/p>\n<p>Algo semelhante aparece na rela\u00e7\u00e3o entre Val e os amigos de Fabinho, em quem ela finge dar broncas e ordens, sempre com um afeto maternal e um humor de quem reconhece seu lugar mesmo quando est\u00e1 aparentemente impondo autoridade.<\/p>\n<p>A infantiliza\u00e7\u00e3o dos homens da casa culmina numa castra\u00e7\u00e3o dos mesmo. N\u00e3o h\u00e1 em Carlos ou em Fabinho uma fa\u00edsca de puls\u00e3o sexual. Essa dessexualiza\u00e7\u00e3o parece ser parte fruto dessa infantiliza\u00e7\u00e3o, parte fruto da seguran\u00e7a modorrenta de gera\u00e7\u00f5es de vida ganha.<\/p>\n<p>Mesmo a investida em J\u00e9ssica empreendida por Carlos parece assexual e desajeitada, antes uma imita\u00e7\u00e3o de como age um homem naquelas circunst\u00e2ncias do que um movimento real. O que ele sente de fato parece ser uma atra\u00e7\u00e3o instintiva pelo primeiro sopro de vida que surge naquela casa talvez desde sempre, algo que ele tenta elaborar primeiro numa insinua\u00e7\u00e3o cafajeste e ad\u00faltera, depois em um pedido de casamento pat\u00e9tico e deslocado que cheira a pedido de socorro.<\/p>\n<p>Val n\u00e3o tem vida pessoal. Mesmo os outros empregados \u2014a diarista e o zelador da casa, a empregada da vizinha\u2014 parecem ter alguma vida pessoal. Val, n\u00e3o. Quando sai para o forr\u00f3 com a amiga, a outra encontra um par, ela permanece sozinha.<\/p>\n<p>Os conflitos saem do arm\u00e1rio quando J\u00e9ssica chega ao Morumbi. Do nada, a menina, que n\u00e3o falava com a m\u00e3e h\u00e1 tr\u00eas anos, decide se mudar para S\u00e3o Paulo para prestar vestibular na USP. Ap\u00f3s um arranjo com a patroa, que sequer lembrava que Val tinha uma filha, J\u00e9ssica \u00e9 recebida na casa. \u00c9 a pr\u00f3pria menina, no caminho do aeroporto, que anuncia que aquilo n\u00e3o vai dar certo.<\/p>\n<p>Aparentemente, J\u00e9ssica n\u00e3o estava inteirada sobre condi\u00e7\u00f5es de trabalho da m\u00e3e, e a pintava como mais rica do que ela de fato era. Essa frustra\u00e7\u00e3o com a condi\u00e7\u00e3o real da m\u00e3e nunca \u00e9 superada e est\u00e1 na base de boa parte dos conflitos. De certo modo, a revolta de J\u00e9ssica \u00e9 menos com as injusti\u00e7as da rela\u00e7\u00e3o patr\u00e3o\/empregado do que com a sua condi\u00e7\u00e3o de filha da empregada.<\/p>\n<p>Tudo que em Val era ingenuidade, em J\u00e9ssica vira cinismo. Ela parte de uma estrat\u00e9gia de literalidade republicana, fingindo n\u00e3o perceber a discrep\u00e2ncia entre aquilo que \u00e9 dito e aquilo que \u00e9 presumido. Se dizem a J\u00e9ssica que ela \u00e9 h\u00f3spede da casa, a resposta dela ser\u00e1 \u201cent\u00e3o \u00e9 aqui no quarto de h\u00f3spedes que eu vou ficar?\u201d. Se dizem que ela \u00e9 igual, que sua m\u00e3e \u00e9 da fam\u00edlia, que a casa \u00e9 tamb\u00e9m dela, \u00e9 assim que ela vai agir, for\u00e7ando a m\u00e3e a finalmente demonstrar um entendimento adulto e a patroa a lhe confinar ao espa\u00e7o delimitado onde Val restringiu-se \u201cpor conta pr\u00f3pria\u201d.<\/p>\n<p>Ao explicar as regras do jogo \u00e0 filha, ao explicar, por exemplo, que, quando Eles oferecem algo que \u00e9 Deles \u00e9 porque t\u00eam certeza de que A Gente n\u00e3o vai aceitar, Val \u00e9 obrigada a explicitar\u00a0um esquema de coisas que foi se constituindo \u201cnaturalmente\u201d. Essa explica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o bastante para que ela se volte contra o que ela pr\u00f3pria est\u00e1 dizendo. Pelo contr\u00e1rio, Val defende o esquema de coisas que lhe possibilitou levar a vida, mas a partir da\u00ed ela j\u00e1 n\u00e3o tem a chance de tratar como natural um conjunto de regras completamente artificial.<\/p>\n<p>Quando Val diz para J\u00e9ssica que ela parece ter vindo de Marte, essa \u00e9 a melhor defini\u00e7\u00e3o para a personagem. O problema de J\u00e9ssica \u00e9 que ela parece ter sido criada em Marte. Em que parte de Pernambuco um ser humano de 18 anos precisa ter sido criado para ser t\u00e3o alheio ao sistema de classes brasileiro? Que lugar de Pernambuco pode dar origem a uma filha de empregada dom\u00e9stica que n\u00e3o compreende o universo da m\u00e3e?<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia de J\u00e9ssica n\u00e3o \u00e9 partir de uma posi\u00e7\u00e3o de questionamento do poder, mas sim de uma posi\u00e7\u00e3o de incompreens\u00e3o do poder. J\u00e9ssica age como um elemento externo, uma enviada especial, uma correspondente internacional infiltrada numa casa brasileira.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe um brasileiro vivente com dificuldades em entender Val, seus pensamentos, seu modo de vida, seu esquema de trabalho ou o que a levou a internalizar as regras do jogo. Ao agir como se n\u00e3o entendesse as coisas, J\u00e9ssica obriga os personagens ao seu redor a serem despudoradamente claros.<\/p>\n<p>Esse recurso, embora interessante, d\u00e1 ao filme um tom excessivamente did\u00e1tico, que soa cansativo em cenas como aquela em que Fabinho e J\u00e9ssica molham os p\u00e9s na piscina. Pouco antes, J\u00e9ssica havia entrado na piscina, jogada pelos amigos de Fabinho. Logo ap\u00f3s o epis\u00f3dio, Barbara decide trocar toda a \u00e1gua da piscina alegando ter visto um rato por ali. Fabinho conta a hist\u00f3ria do rato para J\u00e9ssica, que diz com todas as letras: \u201ceu acho que o rato sou eu\u201d. Fabinho desconversa e segue seu teatro de menino ing\u00eanuo.<\/p>\n<p>O embate entre Val e J\u00e9ssica d\u00e1 a entender que tudo que falta a Val \u00e9 uma postura mais altiva. Fosse ela mais confiante, se impusesse mais e aquele esquema dom\u00e9stico nunca teria se armado. Falta a J\u00e9ssica a consci\u00eancia de que ela \u00e9 fruto das vit\u00f3rias da gera\u00e7\u00e3o de Val, e de que o patr\u00e3o ganha poder em contextos em que o trabalho vale menos, como valia na \u00e9poca em que Val entrou naquela casa.<\/p>\n<p>Enquanto a gera\u00e7\u00e3o de Val elegeu Lula e possibilitou que sua filha n\u00e3o fosse dom\u00e9stica, J\u00e9ssica integra a gera\u00e7\u00e3o por ora derrotada. A gera\u00e7\u00e3o que n\u00e3o foi capaz de superar o lulismo, viu o programa de &#8220;disputar o governo por dentro&#8221; ruir e agora assistir\u00e1\u00a0a pol\u00edtica de redistribui\u00e7\u00e3o de renda via a\u00e7\u00e3o assistencial do Estado ser rapidamente achatada pela crise. No momento em que <em>Que Horas Ela Volta?<\/em> foi lan\u00e7ado, o trabalho dom\u00e9stico j\u00e1 tinha voltado a crescer no Brasil, ap\u00f3s anos de\u00a0retra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A escolha de Regina Cas\u00e9 para o papel de Val parece acertada na medida em que a atriz \u00e9 uma figura s\u00edmbolo da concilia\u00e7\u00e3o que marca a Era Lula. Lula \u00e9 uma figura da concilia\u00e7\u00e3o, um sujeito que bebia um u\u00edsque com os patr\u00f5es da f\u00e1brica e uma cacha\u00e7a com os oper\u00e1rios, um presidente que tentou promover um ganha-ganha, um governo onde os ricos nunca lucraram tanto e os pobres nunca apanharam t\u00e3o pouco, algo de que ele se orgulha ainda hoje, em discursos recentes.<\/p>\n<p>A diretora do filme, Anna Muylaert, disse que se inspirou em <em>O Som ao Redor <\/em>para fazer esse filme quando, na verdade, ela fez o caminho oposto. <em>O Som ao Redor<\/em> \u00e9 uma cr\u00edtica do lulismo feita a partir da esquerda. <em>Que Horas Ela Volta?<\/em> \u00e9 uma celebra\u00e7\u00e3o deslocada do lulismo numa \u00e9poca em que ele j\u00e1 ruiu enquanto projeto.<\/p>\n<p>Os conflitos da hist\u00f3ria se d\u00e3o apenas entre as mulheres. A posi\u00e7\u00e3o dos homens \u00e9 t\u00e3o garantida\u00a0que eles n\u00e3o precisam se rebaixar a negociar com a filha da empregada os limites da rela\u00e7\u00e3o. Quem faz isso \u00e9 exclusivamente a patroa, assim como \u00e9 somente ela quem precisa competir com a empregada pelo amor do filho.<\/p>\n<p>At\u00e9 a disputa pelo \u201csorvete de Fabinho\u201d \u00e9 uma disputa entre J\u00e9ssica e Barbara. O pr\u00f3prio Fabinho dorme o sono tranquilo dos que sabem que, de um jeito ou de outro, seu sorvete ser\u00e1 assegurado.<\/p>\n<p>A escolha de J\u00e9ssica pela USP \u00e9 interessante. Tida como a melhor universidade do pa\u00eds, a USP \u00e9 das poucas institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas que n\u00e3o trabalha com sistema de cotas nem aceita ENEM, dois fatores que prejudicam, um bocado intencionalmente, o ingresso de pobres e de pessoas de fora do estado de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Se por um lado a escolha da USP rompe com a literalidade da f\u00e1bula lulista uma vez que cotas e financiamentos estudantis em universidades privadas foram os dois grandes meios pelos quais os governos petistas conseguiram assegurar a entrada de uma massa de pessoas sem nenhum antecedente familiar de estudo universit\u00e1rio no ensino superior, por outro essa escolha enaltece um elemento importante tanto para a personagem quanto para o filme: a ideia do m\u00e9rito.<\/p>\n<p>O curso que J\u00e9ssica escolheu, Arquitetura, \u00e9 um dos mais elitistas, com aulas em tempo integral e concorr\u00eancia feroz, ingredientes importantes para o bolo meritocr\u00e1tico.<\/p>\n<p>A possibilidade de J\u00e9ssica cursar essa universidade \u00e9 questionada a todo momento. T\u00e3o logo a expectativa \u00e9 posta, a m\u00e3e diz que n\u00e3o vai dar tempo porque j\u00e1 passou o per\u00edodo de inscri\u00e7\u00e3o. A menina explica que j\u00e1 se inscreveu pela internet. A cada nova pessoa que \u00e9 informada sobre o projeto, surgem mais questionamentos. Se a escola dela era boa, por que Arquitetura, se ela sabe desenhar. Mesmo depois do vestibular, quando J\u00e9ssica faz uma quantidade impressionante de pontos, Barbara faz quest\u00e3o de lembrar que aquela foi s\u00f3 a primeira fase do processo seletivo. O mundo est\u00e1 constantemente exigindo as credenciais de J\u00e9ssica, que s\u00e3o recebidas ora com espanto, ora com descren\u00e7a.<\/p>\n<p>Parte importante dessas credenciais \u00e9 mostrar seus conhecimentos arquitet\u00f4nicos, quase sempre voltados para os marcos modernistas do pa\u00eds, como o edif\u00edcio Copan, sonho de coabita\u00e7\u00e3o entre as classes, e o pr\u00e9dio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, erguidos pelos arquitetos comunistas Oscar Niemeyer e Vilanova Artigas. S\u00f3 que, no contexto do filme, esses s\u00edmbolos modernistas s\u00e3o esvaziados de seu sentido original e representam t\u00e3o somente uma forma pela qual a menina pobre demonstra circular bem pelos assuntos da elite. Desse modo, Copan, FAU e at\u00e9 o pr\u00e9dio da Sudene \u2014\u00fanica men\u00e7\u00e3o ao Estado no filme\u2014 viram mero repert\u00f3rio da pobre talentosa rumo ao seu projeto de ascens\u00e3o individual e meritocr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Um di\u00e1logo que refor\u00e7a a impress\u00e3o de que o interesse de J\u00e9ssica em arquitetura \u00e9 seletivo e instrumentalista \u00e9 aquele em que, passando de \u00f4nibus com sua m\u00e3e pelo Largo da Batata, Val lhe fala sobre a reforma recente da pra\u00e7a e como aquilo, em sua opini\u00e3o, prejudicou o uso popular daquele espa\u00e7o. Diante desse coment\u00e1rio, nem tra\u00e7o da empolga\u00e7\u00e3o que a mo\u00e7a apresenta para comentar pr\u00e9dios famosos e mostrar que &#8220;entendeu&#8221; a decora\u00e7\u00e3o da casa dos ricos.<\/p>\n<p>J\u00e1 da parte de Fabinho, n\u00e3o sabemos sequer o curso que ele escolheu, assim como, mais tarde, n\u00e3o saberemos que raios ele vai estudar na Austr\u00e1lia. Mesmo diante do fracasso do garoto no vestibular, Val diz: \u201cFicou nervoso, n\u00e9? Sabia de tudo.\u201d<\/p>\n<p>Barbara, por sua vez, diz que o filho pode estudar mais no ano seguinte. Essa sutil repreens\u00e3o \u00e9 mal recebida. Fabinho compara sua m\u00e3e a Val, para quem sua intelig\u00eancia \u00e9 um dado a priori e incontest\u00e1vel mesmo diante do baixo rendimento (vale ressaltar que o garoto n\u00e3o foi apenas reprovado em um processo que \u00e9 de fato concorrido, ele fez uma pontua\u00e7\u00e3o notavelmente baixa).<\/p>\n<p>O que Fabinho vai estudar de fato n\u00e3o importa. Seu futuro com uma profiss\u00e3o meramente cosm\u00e9tica ou fortemente baseada em rela\u00e7\u00f5es pessoais parece assegurado. Sua postura anti-intelectual e alheia ao estudo encarna ainda a cobran\u00e7a decrescente de que os ricos brasileiros apresentem pelo menos um verniz de erudi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>(Eu diria que hoje as \u00fanicas coisas capazes de\u00a0atrapalhar as credenciais de um rico brasileiro entre seus pares seriam n\u00e3o falar \u201cingl\u00eas fluente\u201d e n\u00e3o ter passado seis meses em qualquer pa\u00eds estrangeiro fazendo rigorosamente\u00a0qualquer coisa, incluindo nada. Para todo o resto h\u00e1 perd\u00e3o autom\u00e1tico. Digamos que a ida de Fabinho \u00e0 Austr\u00e1lia j\u00e1 cumpre tudo que se espera dele.)<\/p>\n<p>\u00c9 somente com a not\u00edcia de que J\u00e9ssica fez muito mais pontos do que Fabinho e, ao contr\u00e1rio dele, passou na primeira fase do vestibular, que Val passa a ver sua filha como algo al\u00e9m de um problema a ser resolvido. A partir da\u00ed, ela passa a estar definitivamente do lado da filha, assim como os afetos do p\u00fablico tendem a mudar, migrando de Val para J\u00e9ssica. Os la\u00e7os entre Barbara e Fabinho tamb\u00e9m parecem subitamente fortalecidos.<\/p>\n<p>\u00c9 depois dessa not\u00edcia que Val tem sua cena de consagra\u00e7\u00e3o em uma piscina vazia, onde ela entra para molhar os p\u00e9s. A cena \u00e9 bastante triste: \u00e9 noite, a casa est\u00e1 vazia, ela est\u00e1 inteiramente vestida (a camiseta que usa \u00e9 de um time de futebol americano, presumivelmente uma roupa velha de Fabinho) com uma \u00e1gua que n\u00e3o chega aos joelhos, fazendo um teatro de subvers\u00e3o para agradar a filha.<\/p>\n<p>No fim, Fabinho vai para a Austr\u00e1lia e Val se demite para cuidar de J\u00e9ssica e de seu neto, que est\u00e1 em Pernambuco, com a mesma Sandra que criou sua filha, completando um ciclo de maternidades terceirizadas. O plano da ex-dom\u00e9stica \u00e9 virar empreendedora: quer ser massagista ou vender potinhos de croch\u00ea. A imagem do pobre empreendedor j\u00e1 havia sido sugerida antes: o primeiro apartamento que J\u00e9ssica e Val decidem alugar era um sal\u00e3o de beleza dom\u00e9stico, com cores estranhas e aspecto\u00a0deslocado.<\/p>\n<p>O filme n\u00e3o idealiza\u00a0os la\u00e7os de solidariedade na periferia. Ao contr\u00e1rio de <em><a href=\"http:\/\/confeitariamag.com\/julianacunha\/casa-grande\/\" target=\"_blank\">Casa Grande<\/a><\/em> e na esteira de filmes como <em>Branco Sai, Preto Fica<\/em>, Muylaert fala de uma periferia dominada pelo individualismo e pelos contratos, como fica evidente no di\u00e1logo com o\u00a0propriet\u00e1rio da primeira casa que elas tentam alugar.<\/p>\n<p>O projeto de J\u00e9ssica tamb\u00e9m \u00e9 individual. Seu inc\u00f4modo n\u00e3o parece ser com a opress\u00e3o de classe ou com o trabalho dom\u00e9stico em si, mas com a falta de meritocracia e com o lugar que ela ocupa na ordem das coisas. N\u00e3o busca solu\u00e7\u00f5es coletivas nem se enxerga como &#8220;vanguarda&#8221;. Seu modelo n\u00e3o \u00e9 o das cartilhas da velha esquerda, \u00e9 exemplar. Eu vou por aqui, se voc\u00eas v\u00eam tamb\u00e9m me \u00e9 indiferente.\u00a0N\u00e3o perde tempo tentando &#8220;educar&#8221; ou convencer a m\u00e3e ou os outros trabalhadores. Quando Val comunica que se demitiu, a pergunta \u00e9: &#8220;e agora, vai fazer o qu\u00ea?&#8221;, no singular, cada um respons\u00e1vel por si. A resposta: &#8220;eu dou meu jeito.&#8221;<\/p>\n<p>A concilia\u00e7\u00e3o encontrada no fim do filme \u00e9 afetiva e familiar, com a fam\u00edlia como n\u00facleo de suporte e ajuda m\u00fatua. Num mundo sem solidariedade de classe, sobram os v\u00ednculos regressivos. As personagens se voltam para um projeto de fam\u00edlia e tentam construir algum tipo de afetividade a partir da\u00ed. J\u00e9ssica chama Val de mainha pela primeira vez quando ela se prop\u00f5e a cuidar do neto. O arranjo familiar parece ser a melhor chance das personagens, sobretudo de J\u00e9ssica, conquistarem seu objetivo de realiza\u00e7\u00e3o pessoal.<\/p>\n<p>Na \u00faltima cena do filme, m\u00e3e e filha tomam caf\u00e9 pela primeira vez na casa nova. Val exibe\u00a0seu famoso jogo de x\u00edcaras, presente desprezado que ela apresenta \u00e0 filha como \u201croubo\u201d. O suposto furto \u00e9 festejado. Assim como soube agradar os patr\u00f5es, Val agora sabe como agradar a filha, com entradas em piscinas vazias e roubos do que a patroa n\u00e3o quis. Sobre o jogo de x\u00edcaras, a ex-dom\u00e9stica diz: \u201c\u00e9 tudo diferente, o preto no branco, o branco no preto. Que nem tu. Moderno\u201d. No segundo seguinte e sem que tenhamos acesso a quem trocou as x\u00edcaras e os pires, j\u00e1 est\u00e1 tudo preto no preto, branco no branco.<\/p>\n<p>PS: Fiz esse texto para apresentar no meu grupo de estudos na USP.\u00a0Depois disso, incorporei alguns coment\u00e1rios dos colegas. O nome do grupo \u00e9 Formas Culturais e Sociais Contempor\u00e2neas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma fam\u00edlia do Morumbi leva uma vida de conflitos apaziguados at\u00e9 que a filha da empregada entre em cena. \u200bLan\u00e7ado em 2015, Que Horas Ela Volta? \u00e9 uma esp\u00e9cie de f\u00e1bula lulista perfeita. 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