{"id":10334,"date":"2016-07-29T12:56:45","date_gmt":"2016-07-29T15:56:45","guid":{"rendered":"http:\/\/julianacunha.com\/blog\/?p=10334"},"modified":"2026-10-23T18:22:28","modified_gmt":"2026-10-23T21:22:28","slug":"salvar-maridos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/salvar-maridos\/","title":{"rendered":"Salvar maridos"},"content":{"rendered":"<p>\u201cTudo que eu quero \u00e9 salvar maridos, me traz uns maridos para eu salvar\u201d, diz o meu amigo Marcos, soltando Fanta pelo nariz.<\/p>\n<p>Em nossos almo\u00e7os, pelo menos uma pauta \u00e9 repetida: <em>Casablanca<\/em>. Marcos \u00e9 psic\u00f3logo e acha que gostar de <em>Casablanca<\/em> \u00e9 meio caminho andado para diagnosticar um neur\u00f3tico. O filme, na nossa leitura de almo\u00e7o, \u00e9 sobre um sujeito que prefere n\u00e3o viver um amor para preservar sua autoimagem. <\/p>\n<p>No fim da hist\u00f3ria, Rick tem duas escolhas: pode ficar com Ilsa e conviver com o fantasma do marido perfeito, her\u00f3i da Resist\u00eancia, ou pode virar o joguinho e ser ele o her\u00f3i, salvando a ela e o ao marido e se transformando num abnegado, num sujeito que sabe que a Hist\u00f3ria \u00e9 mais importante do que os afetos de tr\u00eas pessoinhas jogadas nesse mundo louco. <\/p>\n<p>Ilsa diz: mas e voc\u00ea? E a gente? Rick responde com uma esperteza sem sabedoria: se voc\u00ea ficar comigo, vai se arrepender. Talvez n\u00e3o hoje, talvez n\u00e3o amanh\u00e3, mas na semana que vem e para o resto da vida. <\/p>\n<p>O que ele faz \u00e9 entregar a mulher que ele ama a um marido subitamente desprovido de qualquer gra\u00e7a. \u00c9 assim que ele, um comerciante, um dono de bar, se projeta acima de um her\u00f3i de guerra. Eu vejo e revejo <em>Casablanca<\/em> como um treinamento para que quando chegar minha vez \u2014 se um dia chegar minha vez \u2014 eu escolha sempre Casablanca a Paris.<\/p>\n<p>Em <em>Manhattan<\/em>, Woody Allen rebaixa tudo isso quando Isaac diz \u201cwe&#8217;ll always have Paris\u201d para a namoradinha Tracy (aquela, que nunca sabe os nomes das atrizes) em um contexto em que eles sequer tiveram Paris, sequer tiveram uma semana de pura aventura e amor rom\u00e2ntico seguida de uma separa\u00e7\u00e3o teatral por motivos que envolvem a chegada dos alem\u00e3es e o bem do povo tcheco. Em <em>Manhattan<\/em> n\u00e3o h\u00e1 guerra, Paris, Casablanca, aliados, Resist\u00eancia, tr\u00e1fico de armas, m\u00fasica de casal ou Humphrey Bogart e Paul Henreid disputando Ingrid Bergman. Tudo que h\u00e1 \u00e9 muito mundano, lanchonetes, supermercados, televis\u00e3o, dever de casa, um Woody Allen calvo insistindo para que a namorada v\u00e1 para Londres ou fique com o \u201clittle Tommy\u201d, casais que se bagun\u00e7am apenas porque n\u00e3o t\u00eam nada al\u00e9m de seus problemas pessoais para entret\u00ea-los. Como diz o protagonista no final, \u201ca story about people in Manhattan who are constantly creating these unnecessary, neurotic problems for themselves because it keeps them from dealing with more unsolvable, terrifying problems\u201d. Aqui, os suspeitos de sempre s\u00e3o o t\u00e9dio, a gratuidade da vida, as pequenas vaidades (meu livrinho, minha privacidade, se gostei ou n\u00e3o daquela exposi\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>Eu sei exatamente o que eu queria fazer em <em>Casablanca<\/em>. Se me soltarem, como em <em>A Rosa P\u00farpura do Cairo<\/em>, no meio de <em>Casablanca<\/em>, eu sei exatamente o que quero fazer. J\u00e1 em <em>Manhattan<\/em>, t\u00e3o mais pr\u00f3ximo, meio que tanto faz. Entre o professor desleal, a jornalista pedante, o roteirista cujo grande ato de hero\u00edsmo consiste em pedir demiss\u00e3o, a mulher largada \u2014 levemente superior por falar baixo e aparecer t\u00e3o pouco \u2014, e a colegial, ironicamente a \u00fanica adulta do filme, praticamente tanto faz. <\/p>\n<p>Se me soltarem em<em> Manhattan<\/em>, eu toco aquela gaita da Tracy e talvez procure o \u201clittle Tommy\u201d s\u00f3 porque sempre quis saber que cara ele teria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cTudo que eu quero \u00e9 salvar maridos, me traz uns maridos para eu salvar\u201d, diz o meu amigo Marcos, soltando Fanta pelo nariz. Em nossos almo\u00e7os, pelo menos uma pauta \u00e9 repetida: Casablanca. Marcos \u00e9 psic\u00f3logo e acha que gostar de Casablanca \u00e9 meio caminho andado para diagnosticar um neur\u00f3tico. 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