{"id":11004,"date":"2017-02-11T12:52:47","date_gmt":"2017-02-11T14:52:47","guid":{"rendered":"http:\/\/julianacunha.com\/blog\/?p=11004"},"modified":"2026-10-23T18:21:48","modified_gmt":"2026-10-23T21:21:48","slug":"foi-tudo-um-sonho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/foi-tudo-um-sonho\/","title":{"rendered":"Foi tudo um sonho"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 uma verdade universalmente conhecida na internet que propagadores de spoiler merecem uma morte lenta e saborosa, quem sabe cozidos em banho-maria no sangue da \u00faltima pessoa que ousou mudar de ideia.<\/p>\n<p>Dif\u00edcil pensar em uma coisa que traga mais consenso, mais senso de comunidade e uma revolta mais morninha e confort\u00e1vel do que a cren\u00e7a de que revelar partes importantes de uma trama \u2014 quer seja televisiva, liter\u00e1ria ou cinematogr\u00e1fica \u2014 consiste em uma esp\u00e9cie de crime contra o prazer de quem ainda n\u00e3o terminou aquela hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Quem dera fosse apenas o de quem ainda n\u00e3o terminou uma hist\u00f3ria que est\u00e1 se desenrolando aqui e agora. \u00c9 preciso preservar tamb\u00e9m o prazer de quem sequer come\u00e7ou, de quem n\u00e3o sabe se um dia vai come\u00e7ar, de quem n\u00e3o tem planos concretos, de quem declaradamente n\u00e3o vai. Aos poucos, ganha terreno a ideia de que cada vez mais aspectos de uma trama s\u00e3o importantes e, portanto, spoilers. Resenhas e at\u00e9 cr\u00edticas s\u00e3o reduzidas a sinopses alongadas que nada podem concluir ou revelar. Vai se formando a no\u00e7\u00e3o de que o direito \u00e0 surpresa deve ser mantido n\u00e3o apenas no campo da fic\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m do jornalismo, da vida em geral.<\/p>\n<p>Durante a Olimp\u00edada de 2016, por exemplo, quando os jogos eram transmitidos por grava\u00e7\u00f5es na tev\u00ea americana, ve\u00edculos como a NPR adotaram \u201calertas de spoiler\u201d para not\u00edcias. Ao abrir o site da NPR ou sua p\u00e1gina no Facebook, voc\u00ea veria chamadas que exclu\u00edam a informa\u00e7\u00e3o factual (quem ganhou, como foi o jogo) em respeito \u00e0queles que ainda n\u00e3o tinham visto a partida. Os an\u00fancios de spoiler foram comemorados por um p\u00fablico que sentia que esse sim era um ve\u00edculo que o respeitava. Foi um caso de\u00a0uma a\u00e7\u00e3o ca\u00e7a-cliques entendida como um favor ao leitor.<\/p>\n<p>Assistir a qualquer coisa\u00a0ao vivo tem um valor em si, uma camada de emo\u00e7\u00e3o que n\u00e3o pode ser reproduzida numa grava\u00e7\u00e3o, ainda que recente. Voc\u00ea e os atletas, o bairro e todo mundo est\u00e3o, sen\u00e3o no mesmo espa\u00e7o, ao menos no mesmo minuto, na mesma p\u00e1gina. \u00c9 uma comunh\u00e3o poss\u00edvel. Mas qual o sentido de n\u00e3o saber o resultado para preservar o prazer de uma grava\u00e7\u00e3o? Me parece um caso em que o fetiche do spoiler se sobrep\u00f4s a um fetiche \u00e0s vezes chamado de jornalismo.<\/p>\n<p>O caso da transmiss\u00e3o da Olimp\u00edada nos EUA foi um fen\u00f4meno interessante porque um \u00fanico canal detinha o direito de exibi\u00e7\u00e3o dos jogos no pa\u00eds. Esse canal decidiu exibir grava\u00e7\u00f5es para acomodar melhor as coisas em sua programa\u00e7\u00e3o (spoiler: para ganhar mais dinheiro). O efeito que se criou foi o de uma bolha. Ali dentro, naquele pequeno pa\u00eds que s\u00e3o os Estados Unidos, os jogos <em>aconteciam<\/em> em um hor\u00e1rio diferente. Eles efetivamente <em>aconteciam<\/em> em outro hor\u00e1rio. Eles s\u00f3 podiam acontecer em outro hor\u00e1rio porque os Estados Unidos s\u00e3o uma grande ilha. Fosse no Brasil, isso talvez n\u00e3o se repetiria. N\u00e3o se repetiria porque nosso interesse por not\u00edcias, pessoas e produtos estrangeiros \u00e9 outro. Porque somos mais perme\u00e1veis. Nos Estados Unidos, no entanto, a NBC conseguiu fazer os jogos acontecerem no hor\u00e1rio que bem entendia. Ela conseguiu ajustar o tempo c\u00e1 \u2014 pressionando para que as competi\u00e7\u00f5es de maior sucesso nos Estados Unidos fossem alocadas em hor\u00e1rios que n\u00e3o faziam sentido no pa\u00eds que sediava os jogos, para o p\u00fablico concreto desses jogos \u2014 e l\u00e1, transmitindo grava\u00e7\u00f5es protegidas por alertas de spoilers na imprensa nacional. Puf, eles mudaram o tempo dos jogos.<\/p>\n<p>Com um or\u00e7amento mais modesto, mas com grande convic\u00e7\u00e3o, os pequenos censores do spoiler tamb\u00e9m tentam mudar o tempo dos seriados, dos filmes, dos livros, criando o sonho de um presente eterno em que eu possa come\u00e7ar hoje a assistir uma s\u00e9rie amplamente vista e comentada em 2007 \u2014 digamos, <em>Mad Men<\/em> \u2014 sem saber o que aconteceu. No dia em que esse sonho se concretizar, eu estarei, dizem eles, sendo completamente respeitada no meu direito de consumidora tardia de produtos culturais descart\u00e1veis.<\/p>\n<p>Para que isso seja poss\u00edvel, as discuss\u00f5es p\u00fablicas sobre uma obra precisam ser abafadas. A \u00fanica gra\u00e7a que esses produtos comerciais que consumimos pode ter, a \u00fanica coisa que esses produtos que no melhor dos casos s\u00e3o dilui\u00e7\u00f5es infinitesimais de algo que um dia foi bom podem trazer, que \u00e9 a discuss\u00e3o coletiva, recebe a amarra do spoiler como um pacto de n\u00e3o agress\u00e3o entre consumidores passados e futuros. Qualquer discuss\u00e3o, an\u00e1lise, pondera\u00e7\u00e3o passa a ser calada em\u00a0um \u201cpor favor, vejam\u201d. De um poss\u00edvel analista, o p\u00fablico passa a ser um mero divulgador do que consome.<\/p>\n<p>A l\u00f3gica do spoiler estabelece que a frui\u00e7\u00e3o de uma obra estaria na surpresa individual com o rumo dos acontecimentos. Hist\u00f3ria boa seria aquela que me surpreendesse, que trouxesse um encaminhamento inesperado para os conflitos apresentados. Mas hist\u00f3ria boa, por outro lado, seria aquela veross\u00edmil, ent\u00e3o voc\u00ea precisa me surpreender, por\u00e9m sendo extremamente veross\u00edmil. No limite, s\u00e3o expectativas contradit\u00f3rias. Puxando demais a sardinha para a surpresa voc\u00ea vai parar na ilha de <em>Lost<\/em>, onde tudo pode acontecer, inclusive qualquer coisa.<\/p>\n<p>Isso porque se voc\u00ea me inseriu em um universo ficcional coerente, me apresentou os conflitos, me ambientou ali, \u00e9 poss\u00edvel que eu consiga prever resolu\u00e7\u00f5es veross\u00edmeis. Porque resolu\u00e7\u00f5es veross\u00edmeis seriam progress\u00f5es l\u00f3gicas. Um dos princ\u00edpios do drama burgu\u00eas \u00e9 justamente isso, a concatena\u00e7\u00e3o de acontecimentos: uma cena puxa a outra, como se houvesse ali um imperativo l\u00f3gico, e n\u00e3o uma m\u00e3o invis\u00edvel fazendo dos personagens o que bem entendesse.<\/p>\n<p>Na minha adolesc\u00eancia, filme bom, bom mesmo, era o que conseguia atar esses dois n\u00f3s. Surpreender sem nocautear a verossimilhan\u00e7a interna. Pense em <em>Efeito Borboleta<\/em>, ou em <em>O Sexto Sentido<\/em>. Eram roteiros <em>espertos<\/em>. Eram obras que voc\u00ea pode matar, enterrar e jogar a \u00faltima p\u00e1 de cal no segundo em que desvendar o mist\u00e9rio. Porque n\u00e3o tem mais nada ali. Os filmes s\u00e3o um grande nada com um <em>e a\u00ed sacou?<\/em>\u00a0no fim. A pessoa que disser que eu estraguei <em>O Sexto Sentido<\/em> ao contar o fim estar\u00e1 completamente correta. A pergunta \u00e9 se um filme que pode ser estragado com uma frase merece ser preservado.<\/p>\n<p>Mas no caso de obras (mesmo as rebaixadas, comerciais, dram\u00e1ticas e vazias) que tiverem um fiapo a mais do que <em>O Sexto Sentido<\/em>, qual seria o trauma? Burlar a ditadura do spoiler \u00e9 dizer que a frui\u00e7\u00e3o de uma obra pode estar em outra coisa que n\u00e3o seja o enredo b\u00e1sico, o argumento.<\/p>\n<p>Existem muitas formas de fruir uma obra que n\u00e3o incluem a surpresa do fim. Quando o p\u00fablico ia assistir a uma trag\u00e9dia grega, por exemplo, ele muitas vezes j\u00e1 conhecia a hist\u00f3ria de cabo a rabo, ou no m\u00ednimo sabia o b\u00e1sico, os fatos principais. Na pe\u00e7a <em>Agamenon<\/em>, de \u00c9squilo, por exemplo, Clitemnestra mata o marido, enquanto em outras vers\u00f5es \u00e9 o amante dela quem mata, ela \u00e9 apenas a c\u00famplice, ou a mandante. Seria, no entanto, inconceb\u00edvel sentar para assistir a uma vers\u00e3o de <em>Agamenon<\/em> em que o pr\u00f3prio Agamenon n\u00e3o morresse, mas sa\u00edsse de l\u00e1 sobre duas pernas berrando \u201cpor essa voc\u00eas n\u00e3o esperavam\u201d ou \u201cfoi tudo um sonho\u201d.<\/p>\n<p>Isso porque a gra\u00e7a de uma pe\u00e7a n\u00e3o estava na tens\u00e3o dram\u00e1tica, em n\u00e3o saber o que vai acontecer em seguida, e sim nas emo\u00e7\u00f5es suscitadas e no debate em torno da hist\u00f3ria. \u00c9 por isso que o \u201ccl\u00edmax\u201d da trag\u00e9dia, por assim dizer, que a libera\u00e7\u00e3o da tens\u00e3o dram\u00e1tica, acontecia muito antes do que o cl\u00edmax de um drama burgu\u00eas. Para o espectador do drama burgu\u00eas, o cl\u00edmax resolve todos os mist\u00e9rios da trama, fecha a conta e passa a r\u00e9gua.<\/p>\n<p>J\u00e1 na trag\u00e9dia grega, o \u00e1pice de tens\u00e3o era o momento em que os personagens se tornavam conscientes da natureza dos acontecimentos, que se reconheciam, que entendiam seu lugar no mundo. \u00c9dipo compreendia que o assassino que ele buscava era ele pr\u00f3prio. Nesse momento, o v\u00e9u da ironia dram\u00e1tica era subitamente retirado. Ou seja, o p\u00fablico deixava de saber mais do que os personagens (tem essa: nas pe\u00e7as gregas a ignor\u00e2ncia muitas vezes estava no personagem. Era ele quem ia se surpreender, n\u00e3o o p\u00fablico).<\/p>\n<p>Depois disso tinha: todo o resto. O embate de emo\u00e7\u00f5es que isso causava, o debate. Conte para o coleguinha que \u00c9dipo mata o pai e casa com a m\u00e3e e voc\u00ea ter\u00e1 retirado um total de nenhum prazer dele em assistir a <em>\u00c9dipo Tirano<\/em>. Mas se contar para o pr\u00f3prio \u00c9dipo quem s\u00e3o seu pai e sua m\u00e3e, capaz de n\u00e3o ter hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Concedo que dos festivais gregos para c\u00e1 alguma \u00e1gua j\u00e1 rolou, mas do drama burgu\u00eas para c\u00e1 in\u00fameras \u00e1guas rolaram, inclusive a do meu pranto. \u00c9 verdade que grande parte das obras que vemos e lemos hoje ainda \u00e9 dram\u00e1tica e, portanto, depende ou pelo menos se beneficia amplamente de um \u201cpela m\u00e3e do guarda\u201d. N\u00e3o estou dizendo aqui que quem reclama de spoiler n\u00e3o sabe consumir essas obras. Pelo contr\u00e1rio: \u00e9 justamente por entenderem a fragilidade do prazer trazido por essas obras que as pessoas se armam contra o spoiler.<\/p>\n<p>Mas vamos comer esse M&amp;M\u2019s de garfo e faca. Vamos colocar o guardanapo no colo. \u00c9 isso que fazemos ao nos recusarmos a fugir de spoilers em favor de uma discuss\u00e3o p\u00fablica sobre uma obra. Sobre obras que, bem ou mal, s\u00e3o o nosso repert\u00f3rio coletivo atual. Vamos observar as notas de carvalho dessa Coca-cola, vamos deixar o Dolly respirar e vamos esperar que, meus sais, algo melhor seja servido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 uma verdade universalmente conhecida na internet que propagadores de spoiler merecem uma morte lenta e saborosa, quem sabe cozidos em banho-maria no sangue da \u00faltima pessoa que ousou mudar de ideia. 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