{"id":11010,"date":"2017-05-02T20:52:14","date_gmt":"2017-05-02T23:52:14","guid":{"rendered":"http:\/\/julianacunha.com\/blog\/?p=11010"},"modified":"2026-10-23T18:21:42","modified_gmt":"2026-10-23T21:21:42","slug":"mostra-que-tu-e-intenso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/mostra-que-tu-e-intenso\/","title":{"rendered":"Mostra que tu \u00e9 intenso"},"content":{"rendered":"<p>[Este \u00e9 um texto confuso, detalhista, muito longo, meio moralista e possivelmente cheio de erros sobre <i>Aquarius,<\/i> com coisas que venho pensando sobre o filme desde que ele foi lan\u00e7ado. Tive muitas ajudas ao longo do tempo, palpites, corre\u00e7\u00f5es e basicamente tudo que se aproveita do conjunto abaixo me foi soprado por amigos \u00a0e colegas de quem enchi o saco falando disso, como ali\u00e1s \u00e9 comum que aconte\u00e7a em textos que escrevo, sobretudo naqueles que falam de filmes. \u201cMas ando e penso sempre com mais de um, por isso ningu\u00e9m v\u00ea minha sacola\u201d \u00e9 algo que sempre me ocorre escrevendo. O texto nasceu de uma apresenta\u00e7\u00e3o que fiz do filme no meu grupo de pesquisa, chamado Formas Sociais e Culturais Contempor\u00e2neas. L\u00e1 tive muita ajuda de coment\u00e1rios de colegas. N\u00e3o vou citar os nomes porque nunca cito, porque sempre fa\u00e7o um uso muito livre do que me sopram e porque meio que ningu\u00e9m concordou plenamente com o que fiz das ajudas, de modo que a confus\u00e3o final \u00e9 mais minha mesmo. Eu gosto de algumas passagens e acho que o texto pode ser \u00fatil considerando que as coisas que li sobre esse filme foram muito desatentas, muito curtas ou apenas ruins. Esse texto pelo menos \u00e9 bastante atento, longo e eu acho que no fim \u00e9 bom, embora provavelmente errado. No m\u00ednimo, meu hiperfoco poder\u00e1 ser aproveitado por outras pessoas que queiram escrever sobre o filme. Recentemente, eu fiz uma fala sobre <i>Aquarius<\/i> em uma jornada na USP, mas ali era outro texto, bem mais curto, mais coletivo, com outro t\u00edtulo e com mais chances de acerto tamb\u00e9m].<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><b>*<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em um dos \u00faltimos predinhos baixos da orla de Boa Viagem, a jornalista Clara se entrincheira contra a construtora que, ap\u00f3s ter comprado os apartamentos de todos os seus vizinhos, a pressiona para que venda o seu. Em seu segundo longa de fic\u00e7\u00e3o, o roteirista e diretor pernambucano Kleber Mendon\u00e7a Filho retorna a uma Recife moldada pela especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria e pelo esgar\u00e7amento social em um filme que retoma temas e paisagens de <i>O Som ao Redor<\/i> (2013) com diferen\u00e7as narrativas e de conte\u00fado cruciais.<\/p>\n<p>Lan\u00e7ado em 2016, <i>Aquarius<\/i> teve uma recep\u00e7\u00e3o bastante calorosa e muito ligada a circunst\u00e2ncias da pol\u00edtica nacional \u00e0 \u00e9poca. Antes de estreia do longa em circuito comercial, uma performance da equipe em Cannes, segurando cartazes que denunciavam um golpe em andamento no pa\u00eds, sugestionou o olhar do p\u00fablico para ler aquele filme como uma obra progressista.<\/p>\n<p>Esse fen\u00f4meno extra filme acabou preparando a recep\u00e7\u00e3o, algo que foi refor\u00e7ado por declara\u00e7\u00f5es e pol\u00eamicas posteriores do diretor, e boa parte da cr\u00edtica e dos coment\u00e1rios a respeito da obra giraram em torno de seu suposto progressismo e contradi\u00e7\u00f5es, identificados sobretudo na protagonista, o elemento-chave para essa interpreta\u00e7\u00e3o. Talvez a leitura mais recorrente tenha sido a de que o filme encenava o embate entre uma mulher cheia de idiossincrasias, mas que no fim encarnava o ide\u00e1rio progressista contempor\u00e2neo, e representantes de uma elite tacanha para quem o \u00fanico valor era o c\u00e1lculo econ\u00f4mico puro e simples.<\/p>\n<p>Longe de amea\u00e7ar a identifica\u00e7\u00e3o, as contradi\u00e7\u00f5es de Clara, quase que universalmente percebidas pela audi\u00eancia, foram vistas como algo positivo no sentido de tornar aquela figura complexa, veross\u00edmil e relacion\u00e1vel. O p\u00fablico parece ter diagnosticado que aquela mulher mandona, por\u00e9m forte; rentista, por\u00e9m simp\u00e1tica aos pobres, era uma ramifica\u00e7\u00e3o poss\u00edvel de nossas elites e uma esp\u00e9cie de o que tem para hoje em termos de reserva moral.<\/p>\n<p>Essa identifica\u00e7\u00e3o se deu por dois motivos: um relacionado \u00e0 estrutura narrativa do filme, o outro \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da personagem em si. De um lado, a obra, de estrutura dram\u00e1tica, diferentemente de <i>O Som ao Redor<\/i>, trabalha com uma oposi\u00e7\u00e3o simples que valoriza a figura da protagonista enquanto caricaturiza e vilaniza seu oponente principal, os Bonfim, bem como os oponentes eventuais (a jornalista do mp3, a cunhada que pede autoriza\u00e7\u00e3o do marido para ir ao bar, a filha que s\u00f3 pensa em dinheiro, a mulher que compra livro por metro).<\/p>\n<p>Os muitos momentos de ridiculariza\u00e7\u00e3o do oponente favorecem uma rela\u00e7\u00e3o de identifica\u00e7\u00e3o com o lugar que Clara ocupa na oposi\u00e7\u00e3o, nessa contenda entre dois setores de elite. A oposi\u00e7\u00e3o \u00e9 entre Clara Vs. construtora, indiv\u00edduo Vs. empresa, elite intelectualizada Vs. elite ignorante, e, no plano da constru\u00e7\u00e3o da narrativa, personagem redonda Vs. personagens planos, sempre confrontados de um modo que, quando n\u00e3o \u00e9 propriamente caricato, \u00e9 no m\u00ednimo simplificador.<\/p>\n<p>De outro lado, a constru\u00e7\u00e3o da personagem ressalta como ela se filia a boa parte das pautas progressistas do dia \u2014 a recusa ao ass\u00e9dio na cena em que o funcion\u00e1rio da construtora ensaia uma cantada, o culto ao corpo, a emancipa\u00e7\u00e3o feminina, o desejo feminino assumido, o protagonismo individual, a simpatia pelos pobres, a aceita\u00e7\u00e3o da homossexualidade do filho. Tudo isso parece falar diretamente ao cora\u00e7\u00e3o da audi\u00eancia, que contabiliza as contradi\u00e7\u00f5es de Clara antes com al\u00edvio e empatia do que com cr\u00edtica e distanciamento.<\/p>\n<p>Embora o impulso de buscar em <i>Aquarius<\/i> um elemento progressista tenha se devido a quest\u00f5es externas \u00e0 obra, existe algo no filme que permite essa leitura. Acontece que essa leitura, apesar de permitida, n\u00e3o resiste a uma an\u00e1lise mais detida. Isto \u00e9: o p\u00fablico, convidado por declara\u00e7\u00f5es da equipe, vai ao filme buscando uma obra progressista. Ao se deparar com o longa, d\u00e1 de cara com uma protagonista constru\u00edda narrativamente como hero\u00edna e que apresenta diversas credenciais tidas hoje como progressistas, ligadas a pautas comportamentais e a uma determinada est\u00e9tica e consumo cultural. Essas credenciais, somadas ao estatuto de hero\u00edna conferido pela estrutura, matizam as contradi\u00e7\u00f5es e os momentos de descolamento da personagem empreendidos pelo pr\u00f3prio filme, resultando em uma obra que, se n\u00e3o traz uma hero\u00edna tout court, inegavelmente traz uma hero\u00edna.<\/p>\n<p>Se o filme convida, permite, mas n\u00e3o resiste a uma leitura progressista, sua an\u00e1lise pode revelar algo a respeito do ide\u00e1rio progressista atual para certas camadas da elite brasileira. No que consiste esse ide\u00e1rio e o que ele diz da situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica atual na vis\u00e3o com ou sem distanciamento de Kleber Mendon\u00e7a Filho me parece um questionamento v\u00e1lido a partir do qual podemos construir uma leitura.<\/p>\n<p>O enredo de <i>Aquarius<\/i> gira em torno de Clara, uma jornalista e cr\u00edtica musical aposentada que vive no apartamento onde passou quase toda a vida, de frente para a praia de Boa Viagem, \u00e1rea nobre de Recife. Seu Edif\u00edcio Aquarius \u00e9 o \u00fanico da vizinhan\u00e7a que sobreviveu a uma onda de moderniza\u00e7\u00e3o que p\u00f4s abaixo constru\u00e7\u00f5es dos anos 1950 e 1960 em favor de espig\u00f5es espelhados. O conflito central do filme reside no fato de que uma construtora comprou todos os demais apartamentos do edif\u00edcio e agora pressiona para que Clara venda o seu.<\/p>\n<p>Assim como <i>O Som ao Redor<\/i>, <i>Aquarius<\/i> \u00e9 dividido em tr\u00eas cap\u00edtulos e introduzido por uma s\u00e9rie de fotos antigas. Ambos os recursos quebram a ilus\u00e3o dram\u00e1tica, lembrando o espectador de que ele est\u00e1 assistindo a uma encena\u00e7\u00e3o montada. As fotos t\u00eam ainda o prop\u00f3sito de dar ao filme uma dimens\u00e3o hist\u00f3rica, como se enunciassem que a trama ali apresentada precisa ser vista dentro de um determinado contexto e \u00e0 luz de acontecimentos pr\u00e9vios.<\/p>\n<p>Mas enquanto <i>O Som ao Redor<\/i> apresentava fotos de trabalhadores rurais e de sua luta, <i>Aquarius<\/i> se inicia com uma s\u00e9rie de fotos familiares e da paisagem de Boa Viagem nas d\u00e9cadas de 1950 a 1970. As fotos mostram como a regi\u00e3o foi se verticalizando nesse per\u00edodo e relaciona esse processo a imagens de uma certa sociabilidade e configura\u00e7\u00e3o familiar da classe m\u00e9dia local.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas cap\u00edtulos que se seguem s\u00e3o \u201cO cabelo de Clara\u201d, ambientado em uma festa familiar em 1980, pouco depois de o v\u00e9u da anistia recair sobre torturadores e torturados e o regime militar come\u00e7ar seu processo de afrouxamento; \u201cO amor de Clara\u201d, ambientado no presente da narrativa, nos tempos atuais, apresentando o conflito central da hist\u00f3ria; e \u201cO c\u00e2ncer de Clara\u201d, tamb\u00e9m ambientado em tempos atuais, com o desfecho do conflito entre a protagonista e a construtora.<\/p>\n<p>O primeiro cap\u00edtulo se passa em 1980, na festa de setenta anos de uma parente da protagonista chamada tia L\u00facia. N\u00e3o se trata de um flashback, mas de uma cena ambientada naquele ano. Nela, vemos um grupo de jovens em um carro, fazendo manobras na areia da praia. Eles riem, fumam maconha e escutam a uma m\u00fasica nova do Queen que Clara apresenta ao grupo. Ali est\u00e3o seu irm\u00e3o Antonio, sua futura cunhada F\u00e1tima e duas crian\u00e7as. Fica subentendido que F\u00e1tima, que est\u00e1 come\u00e7ando um namoro com Antonio, j\u00e1 era amiga de Clara, o que colocaria o casal em uma esp\u00e9cie de zona de influ\u00eancia da protagonista.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a cena na praia, o grupo retorna ao Edif\u00edcio Aquarius, cuja fachada, a essa altura rosa, vemos pela primeira vez. No apartamento que parece pertencer a Clara e a seu marido Adalberto est\u00e1 acontecendo uma festa em homenagem a tia L\u00facia. N\u00e3o fica certo se o apartamento \u00e9 do casal ou se \u00e0quela altura pertencia a tia L\u00facia. Entendo que pertencia ao casal porque posteriormente Clara dir\u00e1 que os filhos foram criados ali, e eles j\u00e1 aparecem relativamente crescidos nessa cena, e porque o casal tem uma postura de anfitri\u00e3o, enquanto tia L\u00facia se encontra no sof\u00e1, em uma posi\u00e7\u00e3o de visitante. O apartamento ser de tia L\u00facia, no entanto, traria uma informa\u00e7\u00e3o interessante: esse seria o \u00fanico apartamento de Clara que n\u00e3o teria vindo de uma heran\u00e7a do marido, o que talvez refor\u00e7asse seu apego ao im\u00f3vel.<\/p>\n<p>O clima da festa \u00e9 afetuoso e aconchegante, assim como o apartamento, que se encontra apinhado de parentes e amigos. H\u00e1 um piano na sala, m\u00f3veis de madeira, samambaias. Na hora do parab\u00e9ns, o que se ouve \u00e9 o \u201cFeliz anivers\u00e1rio\u201d das Can\u00e7\u00f5es de Cordialidade de Heitor Villa-Lobos e Manuel Bandeira, que uma mo\u00e7a toca ao piano e todos em volta sabem de cor. Alguns detalhes da decora\u00e7\u00e3o indicam um gosto por artesanato local, outros, um certo refinamento de elite intelectual. Entre os convidados, uma senhora usa uma camiseta das Comunidades Eclesiais de Base, ligadas \u00e0 Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o. Na porta da cozinha, uma senhora negra de cabelos grisalhos veste uma camiseta com a gola esgar\u00e7ada, possivelmente herdada dos patr\u00f5es, com os dizeres \u201cIV encontro de leitura, Recife PE, apoio Livro 7\u201d. Livro 7, no caso, era uma livraria tradicional de Recife, frequentada por intelectuais. Na cozinha, outra empregada fuma, de len\u00e7o na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Quando Clara chega em casa, Adalberto diz que eles demoraram muito e que algumas pessoas j\u00e1 est\u00e3o querendo ir embora. Clara vai at\u00e9 a garagem convocar as crian\u00e7as para o parab\u00e9ns. H\u00e1 uma permeabilidade entre os espa\u00e7os privados e coletivos do pr\u00e9dio. A festa de tia L\u00facia escorre pelas \u00e1reas comuns, invadindo escadas, entrada, estacionamento. Clara circula como uma duquesa em seus dom\u00ednios. Ao descer as escadas, um casal de adolescentes para de se beijar para lhe dar passagem. Ela passa e em seguida diz \u201ccontinuem\u201d, como se coubesse a ela autorizar a perman\u00eancia deles, ou o namoro. N\u00e3o d\u00e1 para saber se s\u00e3o convidados dela, amigos, parentes, vizinhos, se est\u00e3o ou n\u00e3o est\u00e3o na festa. Ao passar pela portaria, Clara d\u00e1 um prato de comida ao porteiro e diz para ele subir em algum momento. Na garagem, aqui convertida em playground, chama por \u201cFernando, Fernando, Lu\u00eds Fernando e J\u00falia\u201d \u2014 <i>isso<\/i> \u00e9 que \u00e9 pertencer a uma gera\u00e7\u00e3o, a um grupo social \u2014 e algumas das crian\u00e7as ali presentes se encaminham de volta para casa.<\/p>\n<p>Antes dos parab\u00e9ns, duas crian\u00e7as da fam\u00edlia leem um texto, presumivelmente escrito pela pr\u00f3pria Clara, enaltecendo a figura de tia L\u00facia e relembrando sua hist\u00f3ria. Ficamos sabendo que tia L\u00facia foi uma das primeiras mulheres a ingressarem na faculdade de Direito de Pernambuco, que foi estudar em S\u00e3o Paulo, mas que retornou ao estado, que foi perseguida pela ditadura e que militou por causas sociais. O discurso termina dizendo: \u201cA vida de tia L\u00facia daria um filme, um livro, uma m\u00fasica\u201d, criando uma converg\u00eancia entre a trajet\u00f3ria da tia e os valores da sobrinha.<\/p>\n<p>Enquanto escuta a homenagem, tia L\u00facia observa um gaveteiro de madeira que se encontra na sala do apartamento e se transporta para lembran\u00e7as de um tempo em que aquele gaveteiro, visto em flashback numa casa, servia para que ela se apoiasse durante o sexo com seu companheiro. O m\u00f3vel atua aqui de modo semelhante \u00e0 m\u00e1quina de lavar de <i>O Som ao Redor<\/i> (que por sua vez faz refer\u00eancia ao curta<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=cnGURbbtTlc\"> <i>Eletrodom\u00e9stica<\/i><\/a>, de 2005). Enquanto l\u00e1 Bia traduzia seu fetiche por eletrodom\u00e9sticos e pelo aumento do poder de compra da classe m\u00e9dia que eles representavam se masturbando com o tremelicar da m\u00e1quina de lavar, aqui o gozo de tia L\u00facia est\u00e1 em notar a ironia de que o m\u00f3vel que ela usava para se apoiar durante o sexo com o amante hoje esteja na sala da sobrinha, cercado de parentes, como s\u00edmbolo de tradi\u00e7\u00e3o. A diferen\u00e7a significativa \u00e9 que o objeto de tia L\u00facia \u00e9 est\u00e1tico, enquanto o de Bia \u00e9 uma mercadoria que se autonomizou, que anda pela cozinha, que come a pr\u00f3pria dona.<\/p>\n<p>Quando as crian\u00e7as terminam seu discurso, tia L\u00facia brinca que elas pularam a revolu\u00e7\u00e3o sexual e pede um brinde a seu companheiro, tamb\u00e9m exclu\u00eddo da narrativa oficial de sua vida, feita ali pela fam\u00edlia. Sabemos ent\u00e3o que a tia \u00e9 vi\u00fava de um militante de esquerda com quem teve um longo relacionamento sem nunca ter se casado, uma vez que ele j\u00e1 era casado. Mas o que sobra no filme da milit\u00e2ncia de tia L\u00facia, de seus feitos, de seu companheiro, da revolu\u00e7\u00e3o sexual? Um gaveteiro incorporado como s\u00edmbolo de tradi\u00e7\u00e3o, de continuidade, de heran\u00e7a familiar. Isso e umas lembran\u00e7as er\u00f3ticas.<\/p>\n<p>Essa tia \u00e9 posta como o modelo de Clara, mas j\u00e1 aqui fica delimitado de que modo e para que fins sua hist\u00f3ria ser\u00e1 mobilizada: como heran\u00e7a afetiva, familiar, como relic\u00e1rio. Como um exemplo pessoal de supera\u00e7\u00f5es vistas como pessoais. Recortada de sua luta coletiva, a tia vira estrela individual de uma milit\u00e2ncia legada a pano de fundo de suas conquistas.<\/p>\n<p>Depois do brinde ao companheiro de tia L\u00facia, Adalberto toma a palavra para falar sobre as dificuldades que a fam\u00edlia enfrentou naquele ano. Diz que 1979 n\u00e3o foi um ano f\u00e1cil para eles nem para o pa\u00eds. Por que aquele ano n\u00e3o foi f\u00e1cil para o pa\u00eds n\u00e3o \u00e9 dito, mas ele fala sobre as dificuldades enfrentadas por conta do c\u00e2ncer de Clara. \u00c9 assim que entendemos que \u201co cabelo de Clara\u201d a que se referia o t\u00edtulo do cap\u00edtulo n\u00e3o era uma refer\u00eancia \u00e0quele \u201ccabelinho Elis Regina\u201d que o marido achava sexy, mas sim ao c\u00e2ncer da personagem. O cabelo curto que poderia ser um s\u00edmbolo de transgress\u00e3o, de moda ou de modernidade, era um s\u00edmbolo de doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Posteriormente, em cenas da maturidade de Clara, veremos que esse cabelinho que o marido achava sexy \u00e9 tudo que ela n\u00e3o quer. O cabelo de Clara ser\u00e1 ent\u00e3o longo e preto e uma de suas principais atividades em cena ser\u00e1 amarr\u00e1-lo, desamarr\u00e1-lo, afof\u00e1-lo. O corpo de Clara trar\u00e1 tanto a marca do c\u00e2ncer \u2014 o seio mutilado, as cicatrizes que lembram caminhos de cupim \u2014 quando a da supera\u00e7\u00e3o do c\u00e2ncer \u2014 o cabelo notavelmente longo e escuro, em contraste com os cabelos das amigas, todos aloirados e acima do ombro, e com seu pr\u00f3prio \u201ccabelinho Elis Regina\u201d do p\u00f3s-tratamento.<\/p>\n<p>Em um filme onde a trilha sonora ganha destaque e onde quase todas as can\u00e7\u00f5es s\u00e3o da d\u00e9cada de 1970, n\u00e3o parece gratuito que a \u00fanica refer\u00eancia a uma cantora do gosto da esquerda tradicional da \u00e9poca surja como um modelo capilar indesejado. Em que pese as desaven\u00e7as entre Elis e a milit\u00e2ncia esquerdista por ela ter cantado na abertura da Olimp\u00edada do Ex\u00e9rcito, em 1972, um ano antes dessa cena a cantora havia lan\u00e7ado \u201cO b\u00eabado e o equilibrista\u201d, m\u00fasica considerada o hino da Anistia.<\/p>\n<p>Todos os outros artistas do per\u00edodo que aparecem em trilha sonora dieg\u00e9tica ou extradieg\u00e9tica s\u00e3o figuras alheias ou de algum modo questionadas pela esquerda tradicional da \u00e9poca, sendo Roberto Carlos um cantor simplesmente de direita.<\/p>\n<p>O gosto musical ecl\u00e9tico da personagem, formado em um momento em que as tens\u00f5es culturais que opunham m\u00fasica engajada, Tropic\u00e1lia e Jovem Guarda ainda n\u00e3o haviam se atenuado, a pinta nas cores de um perfil esclarecido, fora das oposi\u00e7\u00f5es singelas. A \u00fanica can\u00e7\u00e3o usada como trilha extradieg\u00e9tica \u00e9 de Taiguara, um cantor que tem justamente uma trajet\u00f3ria de dilui\u00e7\u00e3o, que era um cantor de can\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e foi se tornando um cantor rom\u00e2ntico.<\/p>\n<p>As \u00fanicas m\u00fasicas do filme que s\u00e3o posteriores \u00e0 d\u00e9cada de 1980 surgem como trilha dieg\u00e9tica posta por outros personagens que n\u00e3o a protagonista. A rela\u00e7\u00e3o de Clara com essas m\u00fasicas \u00e9 ora de apre\u00e7o, da m\u00fasica como algo que possibilita um v\u00ednculo com pessoas de fora de seu meio, como quando toca Reginaldo Rossi em um bar, em uma m\u00fasica que valoriza Pernambuco como a capitania mais espoliada, ora de desprezo, como quando uma m\u00fasica rebaixada invade seu momento sublime ao som de Villa-Lobos.<\/p>\n<p>Uma cena que localiza bastante o gosto musical de Clara \u00e9 aquela em que, sozinha, ela dan\u00e7a ao som de \u201cO Quintal do Vizinho\u201d, de Roberto Carlos, m\u00fasica lan\u00e7ada em 1975, quando militares de linha dura descontentes com o governo Geisel come\u00e7am a promover ataques clandestinos a militantes de esquerda. Os vizinhos sumindo, Roberto Carlos sonhando em invadir seus quintais para plantar flores. Essa discrep\u00e2ncia reveladora entre o conte\u00fado da m\u00fasica e seu ano de produ\u00e7\u00e3o pode estar adormecida para uma recep\u00e7\u00e3o atual, mas para uma mulher de sessenta anos sobrinha de uma perseguida pol\u00edtica \u00e9 esperado que estivesse evidente.<\/p>\n<p>De volta \u00e0 festa de tia L\u00facia, o discurso de Adalberto sobre a doen\u00e7a da mulher \u00e9 apaixonado e desprovido de qualquer rancor. At\u00e9 os parentes que se ausentaram no tratamento s\u00e3o lembrados com carinho e compreens\u00e3o. N\u00e3o d\u00e1 para saber se a pr\u00f3pria Clara se sente confort\u00e1vel com aquele discurso, mas n\u00e3o h\u00e1 conflito e todos cantam parab\u00e9ns para tia L\u00facia. Ou para Clara, cujo drama pessoal termina por eclipsar a hist\u00f3ria da tia.<\/p>\n<p>Se o primeiro cap\u00edtulo se chama \u201cO cabelo de Clara\u201d, mas era sobre o c\u00e2ncer, o segundo cap\u00edtulo, \u201cO amor de Clara\u201d, sugere uma rela\u00e7\u00e3o afetiva que, no entanto, desloca-se para o bem im\u00f3vel. Nele somos introduzidos ao conflito central do filme: a venda do apartamento no Edif\u00edcio Aquarius.<\/p>\n<p>Em uma tomada semelhante \u00e0quela em que Clara e os amigos retornam da praia para a festa de tia L\u00facia, vemos os homens da construtora atravessarem a rua e se aproximarem do Aquarius, onde Clara, j\u00e1 uma senhora, dorme na rede. O dono da empresa, Seu Geraldo, o neto Diego e uma esp\u00e9cie de capataz misturado com faz-tudo batem \u00e0 porta da protagonista para falar sobre a nova proposta, dessa vez mais generosa, que pretendem fazer por seu apartamento. Fica evidente que aquela \u00e9 apenas a mais recente de uma s\u00e9rie de abordagens semelhantes e tanto Seu Geraldo quanto Diego e Clara assumem um tom da mais falsa civilidade.<\/p>\n<p>Clara \u00e9 did\u00e1tica e orgulhosa. Sua voz traz uma mal disfar\u00e7ada impaci\u00eancia e senso de superioridade. Sua fala \u00e9 professoral, infantiliza os interlocutores. Seus gestos \u2014 como em todo o filme, inclusive nas cenas em que se encontra sozinha \u2014 s\u00e3o teatrais, de uma dignidade calculada e ostensiva. \u00c9 uma pessoa que concentra na imagem, em sua presen\u00e7a f\u00edsica, muito de seu poder. Nesse sentido, a escala\u00e7\u00e3o de Sonia Braga e a mobiliza\u00e7\u00e3o ir\u00f4nica do star system que essa escolha representa n\u00e3o poderiam ser mais felizes.<\/p>\n<p>J\u00e1 a falsa civilidade de Diego pende para um ethos de jovem empreendedor que se formou no mercado americano e que busca embalar antigas pr\u00e1ticas de elite pernambucana em uma roupagem moderna. Nessa roupagem, intimida\u00e7\u00e3o atende pelo nome de determina\u00e7\u00e3o, de \u201csangue nos olhos\u201d. Quando Clara o acusa de ser passivo-agressivo \u2014 termo emprestado dos americanos, mas que Diego, que \u201cestudou business\u201d, desconhece \u2014, isso traduz uma l\u00f3gica do marketing, da domina\u00e7\u00e3o do outro enquanto faz de conta que \u00e9 ele quem est\u00e1 dando as cartas, da imposi\u00e7\u00e3o que se traveste de negocia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Junto com a nova proposta financeira, Diego traz a boa not\u00edcia de que o projeto, o pr\u00e9dio que eles pretendem erguer ali depois que Clara vender seu apartamento, mudou de nome. Antes ia se chamar Atlantic Plaza Residence. Agora, Novo Aquarius. \u201cPara preservar a mem\u00f3ria da edifica\u00e7\u00e3o que havia aqui\u201d. Diego acredita que um nome seja o suficiente para preservar a mem\u00f3ria. J\u00e1 Clara acredita que a presen\u00e7a f\u00edsica de um Aquarius esvaziado, sua concretude, o fato de que o pr\u00e9dio ainda est\u00e1 l\u00e1, seja suficiente.<\/p>\n<p>O Edif\u00edcio Aquarius representa um dos \u00faltimos remanescentes em Recife da arquitetura residencial coletiva que, em meados do s\u00e9culo 20, ergueu edif\u00edcios multifamiliares voltados para fam\u00edlias que habitavam as \u00e1reas urbanas. Eram caracter\u00edsticas desses edif\u00edcios a repeti\u00e7\u00e3o id\u00eantica de apartamentos tipo e as dimens\u00f5es padronizadas. Embora estivessem longe de ser habita\u00e7\u00f5es populares, tampouco eram de elite: indicavam uma arquitetura direcionada a usu\u00e1rios desconhecidos, gen\u00e9ricos, homogeneizados. No momento em que Seu Geraldo bate \u00e0 porta de Clara, o Aquarius j\u00e1 n\u00e3o significa nada disso.<\/p>\n<p>Vendo o apartamento da porta, Diego elogia a decora\u00e7\u00e3o e nota como a propriet\u00e1ria mudou a planta original do apartamento \u2014 ou seja, j\u00e1 n\u00e3o se trata de algo padronizado, mas tampouco se trata do esp\u00edrito de improviso que faz com que as casas dos pobres acompanhem o crescimento da fam\u00edlia. Trata-se de uma personaliza\u00e7\u00e3o, customiza\u00e7\u00e3o, de deixar o apartamento mais condizente n\u00e3o exatamente com suas necessidades, mas com sua personalidade.<\/p>\n<p>&#8220;What kind of dining room set defines me as a person?&#8221;, se pergunta o narrador de <i>Fight Club <\/i>(1999) naquela \u00f3tima passagem, a melhor do filme, em que reflete sobre seu pr\u00f3prio consumismo. \u00c9 o tipo de pergunta que o sujeito tem que se fazer repetidas vezes para montar um apartamento como o de Clara. Quero ter um p\u00f4ster do Kubrick na sala, mas vamos de <i>Barry Lyndon<\/i> (1975) porque <i>Laranja Mec\u00e2nica<\/i> (1971) seria clich\u00ea demais.<\/p>\n<p>Com esse coment\u00e1rio acerca da est\u00e9tica da casa, Diego tenta inform\u00e1-la de que reconhece suas refer\u00eancias, de que a entende. \u00c9 o mesmo tipo de comunh\u00e3o que ele tenta estabelecer quando diz que \u201ca gente tamb\u00e9m prefere\u201d Novo Aquarius a Atlantic Plaza Residence. Quer dizer, se eles tamb\u00e9m preferem Novo Aquarius, quem prefere Atlantic Plaza Residence? Um consumidor pressuposto do novo pr\u00e9dio, que Clara identifica como inferior a ela, algo com que Diego concorda ou pelo menos finge concordar nessa cena. Um consumidor cujo poder aquisitivo est\u00e1 dissociado de um lastro cultural. Um consumidor que, em suma, <i>n\u00e3o sabe consumir<\/i>, em oposi\u00e7\u00e3o a Clara, que pratica um consumir sem parecer que consome. O Edif\u00edcio Aquarius n\u00e3o \u00e9 uma mercadoria, \u00e9 um \u201cestilo de vida\u201d que o dinheiro n\u00e3o compra. Ou, melhor colocando, que <i>s\u00f3<\/i> o dinheiro n\u00e3o compra.<\/p>\n<p>Nesse mesmo di\u00e1logo, somos informados de que a pr\u00f3pria Clara tamb\u00e9m deseja ampliar seus dom\u00ednios no Aquarius: ela quer comprar o apartamento de cima, provavelmente para anex\u00e1-lo ao seu. Quer dizer, ela pretende ter s\u00f3 para si um espa\u00e7o que corresponde ao dobro daquele que dividiu com o marido e com os filhos.<\/p>\n<p>No momento em que Seu Geraldo bate \u00e0 porta de Clara, o Aquarius \u00e9 um edif\u00edcio unifamiliar, n\u00e3o multifamiliar. \u00c9 ocupado por uma \u00fanica fam\u00edlia que por sua vez \u00e9 unipessoal, composta por uma s\u00f3 pessoa. Clara \u00e9 efetivamente a dona do pr\u00e9dio. Se quando tinha vizinhos ela j\u00e1 circulava como dona, agora ela \u00e9 efetivamente a dona. Essa posse do pr\u00e9dio \u00e9 constantemente reiterada. Surge quando um salva-vidas chama um bote para a frente do Aquarius e seu colega imediatamente sabe que \u00e9 para a prote\u00e7\u00e3o de Dona Clara. Surge quando ela pinta a fachada do pr\u00e9dio sozinha e sem consultar ningu\u00e9m. Quando invade os outros apartamentos sem nenhum respaldo legal. Mais adiante seremos informados de que Clara possui outros cinco apartamentos. Outros cinco apartamentos n\u00e3o parece ser muito mais do que o pr\u00f3prio Edif\u00edcio Aquarius possui. Encastelada ali, sozinha num pr\u00e9dio vazio, Clara \u00e9 quase uma alegoria da distor\u00e7\u00e3o do rentismo imobili\u00e1rio.<\/p>\n<p>Clara recusa a proposta dos Bonfim sem conferir o valor que est\u00e3o oferecendo e refor\u00e7a sua posi\u00e7\u00e3o de que o apartamento n\u00e3o est\u00e1 \u00e0 venda, colocando-se como algu\u00e9m que n\u00e3o se deixa guiar pelo dinheiro, o que contribui para a constru\u00e7\u00e3o da imagem de resist\u00eancia aos interesses estritamente financeiros da construtora.<\/p>\n<p>Sua resist\u00eancia ao ass\u00e9dio da construtora n\u00e3o \u00e9, no entanto, uma resist\u00eancia pol\u00edtica, de classe ou a uma forma de ocupa\u00e7\u00e3o da cidade. Um detalhe ir\u00f4nico nesse sentido \u00e9 a SUV 4X4 de vidro fum\u00ea que ela mant\u00e9m na garagem mesmo sendo uma solteira em \u00e1rea urbana: um s\u00edmbolo bastante eloquente de uma pessoa que est\u00e1 pouco a\u00ed para essa conversa de ocupa\u00e7\u00e3o da cidade.<\/p>\n<p>Trata-se de uma resist\u00eancia puramente est\u00e9tica e sentimental, de defender o meu predinho simp\u00e1tico contra um edif\u00edcio feio e moderno, meu Aquarius contra o Atlantic Plaza Residence deles, trata-se de defender o apartamento onde criei meus filhos, meu passado, minha hist\u00f3ria pessoal e familiar. Embora leg\u00edtima, essa resist\u00eancia individual contra uma construtora est\u00e1 longe de ser her\u00f3ica, como o filme talvez a coloque. Trata-se de um embate entre ricos e ainda mais ricos. Entre trabalho morto (renda vinda de alugu\u00e9is) e dinheiro em movimento (construtora). Os conflitos centrais do filme s\u00e3o todos no andar de cima.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de um processo de gentrifica\u00e7\u00e3o uma vez que a construtora est\u00e1 disposta a pagar caro pelo im\u00f3vel e o empreendimento que pretende construir visa \u00e0 mesma classe do antigo Aquarius. N\u00e3o se trata de uma resist\u00eancia ao processo de verticaliza\u00e7\u00e3o das orlas das capitais nordestinas, que sombreia as praias e reduz a incid\u00eancia de vento para o resto da cidade (algo nunca mencionado no filme, mas que poderia ser um argumento coletivo pela perman\u00eancia do pr\u00e9dio). Tampouco se trata de uma resist\u00eancia moral uma vez que os m\u00e9todos de defesa de Clara s\u00e3o a chantagem (jur\u00eddica e de opini\u00e3o p\u00fablica) e a amea\u00e7a.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nenhuma men\u00e7\u00e3o a tentativas de luta coletiva, nem que seja uma alian\u00e7a entre vizinhos. Aparentemente, Clara nunca tentou se juntar aos antigos vizinhos de pr\u00e9dio ou do bairro para lutar pelo Aquarius. A situa\u00e7\u00e3o ali configurada surge como uma somat\u00f3ria de decis\u00f5es individuais de cada vizinho pela venda de seu pr\u00f3prio apartamento e pela decis\u00e3o igualmente individual de Clara pela n\u00e3o venda do seu. A revolta da protagonista \u00e9 que sua decis\u00e3o individual e propriet\u00e1ria seja desrespeitada.<\/p>\n<p>Os argumentos da personagem para sua resist\u00eancia s\u00e3o sempre pessoais (em di\u00e1logo com os filhos) e est\u00e9ticos (em di\u00e1logo com a construtora). N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel enxergar nessa personagem mais do que uma propriet\u00e1ria em teimosia. Essa teimosia confundida com resist\u00eancia \u00e9 posta em contraste com a verdadeira resist\u00eancia, essa chamada de teimosia: a favela Bras\u00edlia Teimosa, onde mora a empregada de Clara, Ladjane.<\/p>\n<p>Ladjane funciona como uma esp\u00e9cie de espelho cr\u00edtico da patroa. Em casa, as duas est\u00e3o sempre se assustando com a presen\u00e7a uma da outra. Na cena em que vai ao anivers\u00e1rio de Ladjane com o sobrinho e sua namorada carioca, Clara assume ares de guia tur\u00edstica para falar da oposi\u00e7\u00e3o entre as praias de Pina, onde ela mora, e Bras\u00edlia Teimosa, onde mora Ladjane. \u201cPara c\u00e1 fica Pina, o lado <i>considerado rico<\/i>. Para l\u00e1, Bras\u00edlia Teimosa\u201d, diz, como se ela pr\u00f3pria n\u00e3o conseguisse ver a diferen\u00e7a entre os lados, como se pairasse acima da divis\u00e3o de classes. Tanto nessa cena quanto naquela em que vai a um bar de pov\u00e3o com as amigas, Clara encarna esse esp\u00edrito meio Regina Cas\u00e9, high-low, vou \u00e0 quebrada e a Paris. Como se esse tipo de tr\u00e2nsito e mistura descompromissada n\u00e3o estivesse dispon\u00edvel apenas aos de cima, n\u00e3o servisse apenas para que os de cima se diferenciassem entre eles. Quando os pobres empreendem esse tr\u00e2nsito, o resultado \u00e9 tens\u00e3o, como na cena do ha-ha.<\/p>\n<p>Ao chegarmos \u00e0 festa de Ladjane, encontramos amigas de Clara que s\u00e3o patroas de amigas de Ladjane. Dois grupos de mulheres conectados por rela\u00e7\u00f5es de afeto e trabalho constru\u00eddas a partir de indica\u00e7\u00f5es, aprova\u00e7\u00f5es, conviv\u00eancia. Na mesma festa, Clara e a amiga que lhe indicou um garoto de programa conversam sobre os servi\u00e7os do rapaz, apenas mais um que compartilham.<\/p>\n<p>Esse compartilhamento, no entanto, n\u00e3o se d\u00e1 sem conflitos. A cena \u00e9 estranha. Primeiro, Clara aparece por tr\u00eas vezes, em cortes r\u00e1pidos e confusos, dizendo que quer falar com a amiga, que se encontra um pouco distante na festa. Quando elas finalmente conversam sobre o assunto, a amiga est\u00e1 de \u00f3culos escuros, uma prote\u00e7\u00e3o contra a leitura de sua express\u00e3o. Ela diz que queria que Clara ficasse com o garoto, mas que agora est\u00e1 com ci\u00fames. H\u00e1 uma discrep\u00e2ncia entre o jeito casual com que isso \u00e9 dito (\u00e9 quase pressuposto da contrata\u00e7\u00e3o de um garoto de programa que ele ser\u00e1 compartilhado) e sua express\u00e3o de desagrado. Parece mais do que ci\u00fames: ela encara Clara com uma carranca horr\u00edvel e pergunta o que achou. Clara, por sua vez, parece entender a guinada de tom. O que era um di\u00e1logo entre amigas, entre consumidoras, assume um ar de desafio. A amiga quer saber se ela gostou, quer que confesse que a garantia de seu gozo foi seu dinheiro. Ela responde que sim de modo blas\u00e9 e superior, sem aquela empolga\u00e7\u00e3o com que convocou a conversa. Essa avalia\u00e7\u00e3o moderada contrasta com as cenas do encontro que surgem em sua mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o de recorrer \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o recoloca Clara no rol de consumidores. Por ser considerada um produto com avaria pelo parceiro que escolhe na festa, ela se faz consumidora, que \u00e9 tudo que ela n\u00e3o quer ser. Ao contr\u00e1rio do carinha do bar, o garoto de programa n\u00e3o se abala com a falta do seio. Esse peito n\u00e3o, esse peito sim. Sua casa \u00e9 muito bonita, voc\u00ea \u00e9 muito bonita. Tudo muito simples e respeitoso, posto que um respeito do consumo.<\/p>\n<p>O dinheiro \u00e9 o equivalente geral que achata diferen\u00e7as e corr\u00f3i a individualidade. Seu ant\u00eddoto \u00e9 dado pela pr\u00f3pria sociedade burguesa: o cultivo das experi\u00eancias pessoais como marca de distin\u00e7\u00e3o. Clara tenta levar uma vida baseada nas experi\u00eancias que trava com a m\u00fasica, com o apartamento, com o sobrinho, com o bombeiro que a distingue dos demais. Sua moral consiste em n\u00e3o se deixar sujar pelo dinheiro. O sexo comprado, no entanto, lan\u00e7a luz sobre as outras rela\u00e7\u00f5es da personagem, sobre seu car\u00e1ter de consumidora e aquilo em que se assenta sua figura elevada: o dinheiro. Ela o evita, n\u00e3o fala dele, s\u00e3o sempre os outros que lhe jogam na cara as bases materiais de sua superioridade, que surge como um modo de vida, como experi\u00eancia pessoal, como marca da subjetividade, de tudo que o poder homogeneizador do dinheiro nega. Ao consumir o garoto de programa, Clara se rebaixa ao n\u00edvel da amiga, se deixa violar pela vulgaridade. A esse amor viabilizado pelo dinheiro op\u00f5e-se o amor de tia L\u00facia, que apresenta uma possibilidade de subjetiva\u00e7\u00e3o por meio da rela\u00e7\u00e3o interpessoal.<\/p>\n<p>&#8220;Eu quero que voc\u00ea v\u00e1 embora&#8221;, diz ela ao rapaz, que mal se apresentou. &#8220;O qu\u00ea?&#8221;, ele pergunta. &#8220;Eu quero que voc\u00ea me coma e v\u00e1 embora&#8221;, reformula Clara. Pagando, obedece-se, mas a lembran\u00e7a fica e assume a forma de um novo pesadelo de invas\u00e3o. Na \u00faltima cena do flashback de Clara, a vemos encostando a porta e deitando no sof\u00e1 da sala depois que o rapaz vai embora. Mais tarde, em outra cena, a imagem retorna. Ela apenas encosta a porta, mas n\u00e3o a tranca. Quando adormece, um homem invade o apartamento. N\u00e3o d\u00e1 para saber se a cena de fato aconteceu ou se \u00e9 um pesadelo, mas a imagem reverbera a cena dos assaltantes pulando o muro em <i>O Som ao Redor<\/i>. \u00c9 a imagem de um temor constante, talvez um pouco desejado.<\/p>\n<p>Assim como faz com o disco com uma not\u00edcia de jornal recortada, assim como se fazia antigamente com os carros, tratando-os como membros da fam\u00edlia, Clara insiste em uma especificidade dos objetos. Hoje at\u00e9 se tira foto posando com o carro, como lembra a noiva do sobrinho, mas n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa. O carro agora \u00e9 ostenta\u00e7\u00e3o pura e simples, n\u00e3o um membro da fam\u00edlia. \u00c9 um carro, n\u00e3o o carro.<\/p>\n<p>Enquanto sua pr\u00f3pria filha defende o equivalente geral e enxerga o apartamento nesses termos, Clara insiste na especificidade <i>daquele<\/i> apartamento. Acontece que, ao fazer a defesa da especificidade daquele apartamento, Clara recorre ao fato de que ela tem outros cinco apartamentos e que pode ajudar \u201cqualquer um dos filhos a qualquer momento\u201d. O que garante que a especificidade do apartamento do Edif\u00edcio Aquarius possa ser preservada \u00e9 o fato de que ela est\u00e1 alicer\u00e7ada em outros cinco apartamentos, esses sim inespec\u00edficos, resumidos a equivalente geral.<\/p>\n<p>Clara diz que pode ajudar qualquer um dos filhos a qualquer momento, mas Ana Paula diz que est\u00e1 sem dinheiro e que a m\u00e3e mais do que ningu\u00e9m sabe disso. O que se segue a isso n\u00e3o \u00e9 um oferecimento concreto de ajuda. Em outra cena, Clara diz que Ladjane pode contar com ela para tudo, mas n\u00e3o parece tentar ajudar no dilema central da empregada, que \u00e9 a impunidade do assassinato de seu filho.<\/p>\n<p>Assim como em <i>O Som ao Redor,<\/i> faz \u201co certo\u201d quem pode. O pedestal moral de onde os mais ricos falam \u00e9 calcado em dinheiro. A pr\u00f3pria moral, a pr\u00f3pria quest\u00e3o de \u201cfazer o que \u00e9 certo\u201d (aqui completamente confundida com fazer o que eu quero) surge como uma forma de ostenta\u00e7\u00e3o. No filme anterior, os vizinhos se re\u00fanem para planejar a demiss\u00e3o por justa causa de um porteiro que trabalha no pr\u00e9dio h\u00e1 d\u00e9cadas. A \u00fanica pessoa contr\u00e1ria a essa ideia \u00e9 Jo\u00e3o, que \u00e9 mais rico do que os demais, que \u00e9 neto do dono da rua, n\u00e3o somente um sujeito de classe m\u00e9dia que possui o im\u00f3vel onde mora.<\/p>\n<p>No ensaio &#8220;Dinheiro, Mem\u00f3ria, Beleza&#8221;, Roberto Schwarz fala sobre como os \u00fanicos personagens de <i>O Pai Goriot,<\/i> de Balzac, que conseguem manter algum tipo de autonomia s\u00e3o a viscondessa de Beaus\u00e9ant e o criminoso Vautrin. Ela por ser muito rica desde sempre e poder se dar ao luxo de permanecer alheia aos jogos implicados na busca por dinheiro. Ele, por ser um fora da lei. Em <i>Aquarius<\/i>, a resist\u00eancia de Clara traz um orgulho de n\u00e3o precisar do dinheiro que a construtora tem a oferecer, um luxo do qual seus pr\u00f3prios vizinhos n\u00e3o puderam dispor. Quando os filhos querem discutir a quest\u00e3o da venda do apartamento, ela diz que \u201cprimeiro que \u00e9 uma loucura a gente estar aqui falando em dinheiro\u201d.<\/p>\n<p>Na cena da visita da prole, a filha Ana Paula assume, como ela mesma diz, o papel de vil\u00e3 ao dizer que acha que \u00e9 muito dinheiro por <i>aquele<\/i> apartamento e que a m\u00e3e deveria vend\u00ea-lo. Os dois filhos homens s\u00e3o menos enf\u00e1ticos, mas ao fundo e discretamente, um deles diz que \u00e9 pouco dinheiro. Ou seja, ele tamb\u00e9m enxerga o apartamento em termos do que ele pode render em equivalente geral, apenas considera que podem conseguir uma oferta melhor, que a teimosia da m\u00e3e pode ser capitalizada.<\/p>\n<p>A recusa de Ana Paula em enxergar especificidades no Aquarius \u00e9 tanta que em dado momento a m\u00e3e pinta o pr\u00e9dio inteiro \u2014 ele era azul, passa a ser branco \u2014 e ela sequer repara. Esse lapso de aten\u00e7\u00e3o espelha a atitude de Diego, que confessa que quando vai ali sequer enxerga o pr\u00e9dio, s\u00f3 consegue ver o terreno e os pedreiros trabalhando no novo edif\u00edcio \u2014 um jeito quase sutil de dizer que s\u00f3 enxerga o dinheiro que aquilo vai render.<\/p>\n<p>Em determinado momento da briga, Clara diz \u00e0 filha que \u201ca vi\u00fava de seu pai sou eu e voc\u00ea vai ter que aceitar isso\u201d. Para al\u00e9m de implica\u00e7\u00f5es edipianas, a imagem desse pai \u00e9 a de um marido perfeito, que ocupa tanto o lugar do provedor (\u00e9 dele, afinal, que v\u00eam os cinco apartamentos de que Clara se vangloria) quanto do zelador e do compreensivo. Na \u00fanica cena em que ele aparece, o vemos cuidando sozinho de uma festa dedicada \u00e0 tia dela, enquanto ela passeia com os amigos. Depois, fazendo um discurso apaixonado sobre sua recupera\u00e7\u00e3o. Atrav\u00e9s das acusa\u00e7\u00f5es da filha, sabemos que Clara se ausentou (de modo acordado ou n\u00e3o) por dois anos, deixando os tr\u00eas filhos a cargo do pai, que aparentemente recebeu a mulher de volta depois dessa temporada. Nesse per\u00edodo, Ana Paula acusa Clara de ter meramente enviado cart\u00f5es-postais \u00e0 fam\u00edlia. A especifica\u00e7\u00e3o do cart\u00e3o-postal \u00e9 interessante: faz pensar em uma vida de turismo ao passo que constitui uma forma de correspond\u00eancia padronizada, feita para escrevermos pouco e sempre as mesmas coisas. A viagem, uma das formas mais consagradas de subjetiva\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do consumo de experi\u00eancias, \u00e9 posta em seu car\u00e1ter uniformizante.<\/p>\n<p>Esse marido aparentemente t\u00e3o bom e t\u00e3o \u00fatil, que cuidou dela no c\u00e2ncer, possibilitou que ela tivesse uma vida de liberdade, que viajasse, que se dedicasse a uma carreira pouco rent\u00e1vel, tudo isso sem abrir m\u00e3o dos tr\u00eas filhos e seis apartamentos, n\u00e3o \u00e9 alvo de nenhuma cena de saudade por parte da protagonista. N\u00e3o h\u00e1 fotos dele pela casa, ele n\u00e3o \u00e9 comentado na cena em que a fam\u00edlia repassa os \u00e1lbuns (pelo contr\u00e1rio, \u00e9 ostensivamente n\u00e3o comentado: ao olhar uma foto do marido em primeiro plano, Clara se volta para uma empregada de quem n\u00e3o consegue recordar o nome, ao fundo) e a cena da visita ao cemit\u00e9rio parece uma cena de rancor, algo que se nota pela l\u00e1pide suja e faltando letras e pelas flores murchas que ela deposita sem ler o que havia escrito ao morto. A \u00fanica men\u00e7\u00e3o a Adalberto se d\u00e1 pela filha e relativiza a posi\u00e7\u00e3o de Clara como mulher forte e independente.<\/p>\n<p>A for\u00e7a de Clara se acentua pela viuvez, pela sa\u00edda de cena desse marido, deixando apenas seu legado. A imagem desse pai provedor e zelador contrasta com a aus\u00eancia do marido de sua filha. Talvez parte do rancor de Ana Paula em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00e3e se explique pela atitude dessa m\u00e3e altiva que n\u00e3o quer nem saber o valor que est\u00e3o oferecendo pelo apartamento enquanto a pr\u00f3pria filha precisa de dinheiro. Mas talvez outra parte se d\u00ea pela compara\u00e7\u00e3o entre o apoio que cada uma recebeu do pai de seus filhos e pela condi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o herdeira que lhe \u00e9 imposta.<\/p>\n<p>Separada, Ana Paula diz estar com pouco dinheiro. Em outro di\u00e1logo, diz que o pai de Pedro n\u00e3o participa da rotina do menino e que n\u00e3o deve nem reparar que ela trocou de bab\u00e1 \u2014 a bab\u00e1 surge como mercadoria inespec\u00edfica tanto para Ana Paula quanto para o marido, postura oposta \u00e0 de Clara, que acha que a filha demitiu \u201ca bab\u00e1 perfeita\u201d.<\/p>\n<p>Quem media a paz entre m\u00e3e e filha \u00e9 um dos irm\u00e3os de Ana Paula, que vai at\u00e9 ela e mostra o livro da m\u00e3e sobre Villa-Lobos. Na dedicat\u00f3ria lemos: \u201cPara Martin, Ana Paula e Rodrigo, pelas horas de lazer que lhes foram roubadas\u201d. O papel de Clara como m\u00e3e \u00e9 propiciar lazer aos filhos? \u00c9 isso que eles perdem com sua aus\u00eancia? De algum modo, o filho parece entender que o legado da m\u00e3e \u00e9 seu patrim\u00f4nio cultural, da\u00ed usar o livro e a culpa materna expressa na dedicat\u00f3ria como elemento conciliador.<\/p>\n<p>Essa quest\u00e3o da maternidade terceirizada surge no in\u00edcio dessa mesma cena, quando Ana Paula expressa certo desconforto ao olhar para a cunhada amamentando o filho mais novo. Na cena, Clara entrega o beb\u00ea \u00e0 nora. A c\u00e2mera foca outras duas crian\u00e7as, filhos de seu filho, brincando no ch\u00e3o. Em seguida, h\u00e1 um close em Clara dizendo \u00e0 nora: \u201cT\u00e3o bom ter voc\u00eas aqui\u201d. A c\u00e2mera fecha em Ana Paula sorrindo e olhando na dire\u00e7\u00e3o da cunhada. H\u00e1 ent\u00e3o um close na cunhada, que se prepara para amamentar o filho. A mo\u00e7a passa toda a cena com parte dos seios \u00e0 mostra, um indicativo de maternidade e fartura. Clara ent\u00e3o diz: \u201cEstava com saudades, sabia&#8230;\u201d, e o close volta para Ana Paula, que desvia o olhar. Muito sutilmente, ela muda de express\u00e3o, engole seco e a c\u00e2mera acompanha seu olhar em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 bab\u00e1, que est\u00e1 cuidando de seu filho.<\/p>\n<p>A cena da visita da prole trata da quest\u00e3o da heran\u00e7a, da passagem geracional, da continuidade. Clara pede aos filhos que a visitem mais. \u201cEstou aqui, estou viva\u201d. Assim como o pr\u00e9dio, que est\u00e1, mas n\u00e3o est\u00e1, ela tamb\u00e9m sente que est\u00e1, mas n\u00e3o est\u00e1 para os filhos. Ela est\u00e1, mas s\u00f3 \u00e9 vista como problema, como fonte de dinheiro ou de ajuda com o neto. Em contraste, temos o filho atropelado de Ladjane, que n\u00e3o est\u00e1, mas sempre est\u00e1, sempre \u00e9 inserido pela m\u00e3e em eventos e conversas, causando desconforto geral. Enquanto as fotos de Clara representam nostalgia, as fotos do filho de Ladjane s\u00e3o pura presentifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Clara est\u00e1 constantemente apontando para o passado sem no entanto ser capaz de perceber que algo se rompeu. Uma cena bastante indicativa disso \u00e9 aquela em que o filho de um ex-vizinho vem cobr\u00e1-la a respeito da venda do apartamento dizendo que, se ela for pensar bem, est\u00e1 sendo bastante ego\u00edsta em n\u00e3o vender o apartamento, impedindo assim que os ex-vizinhos recebam uma determinada quantia que aparentemente ficou pendente com a construtora, acertada para depois da constru\u00e7\u00e3o do novo pr\u00e9dio. Clara n\u00e3o tenta justificar sua postura presente. Em vez disso, lembra o rapaz \u2014 que ela sequer tinha reconhecido \u2014 de que o viu menino, brincando com os filhos dela. Em tom amea\u00e7ador, o vizinho esclarece que ela pode t\u00ea-lo conhecido crian\u00e7a, mas que n\u00e3o o conhece adulto. Quer dizer, ele esclarece que saber do passado n\u00e3o implica entender onde as coisas desembocaram e que mem\u00f3rias compartilhadas, nostalgia, j\u00e1 n\u00e3o remendam o tecido social.<\/p>\n<p>Essa postura da protagonista \u00e9 oposta \u00e0 de Diego, que desmerece o passado como categoria explicativa ou que traga consequ\u00eancias presentes. Isso surge, por exemplo, na forma como ele acredita que, embora seja neto do dono da construtora, esteja ali cheio de \u201csangue nos olhos\u201d, galgando espa\u00e7o em seu primeiro projeto. Surge ainda na cena final, quando ele minimiza o poder das provas que Clara traz consigo dizendo que aquilo aconteceu quando ele \u201cnem tinha nascido\u201d.<\/p>\n<p>Enquanto Clara se enxerga como a pessoa que viu os filhos dos vizinhos crescerem, ainda que n\u00e3o os reconhe\u00e7a nem saiba se est\u00e3o vivos ou mortos, os vizinhos, segundo uma fala de Diego, se referem a ela como &#8220;essa tal de Dona Clara&#8221; que emperra a constru\u00e7\u00e3o do novo pr\u00e9dio e do dinheiro que eles t\u00eam a ganhar com isso. \u00c9 gen\u00e9rica, digna de men\u00e7\u00e3o apenas pelo inc\u00f4modo causado, \u00fanica coisa que os faz saber se est\u00e1 viva ou morta.<\/p>\n<p>A continuidade de Clara n\u00e3o ser\u00e1 garantida por aqueles filhos indiferentes, mas pelo sobrinho Tom\u00e1s e por sua namorada J\u00falia. \u00c9 com ele que parece haver um v\u00ednculo afetivo forte, exposto at\u00e9 com mau gosto na cena da praia, quando Clara diz \u00e0 namorada do sobrinho que acha que Tom\u00e1s \u00e9 seu filho, fruto de uma rela\u00e7\u00e3o incestuosa com o irm\u00e3o. E \u00e9 com J\u00falia que Clara estabelece uma passagem de bast\u00e3o, sobretudo quando a mo\u00e7a toca \u201cPai e m\u00e3e\u201d, de Gilberto Gil, para ela, numa puxada de saco feita sob medida. S\u00e3o o sobrinho e sua namorada que veem valor nos objetos, signos, repert\u00f3rio, estilo de vida de Clara e que acabam constituindo uma esp\u00e9cie de fam\u00edlia eleita, de herdeiros culturais contra os n\u00e3o herdeiros, como sua filha, colocada como uma esp\u00e9cie de herdeira do c\u00e1lculo tacanho.<\/p>\n<p>Essa passagem matrilinear de L\u00facia para Clara e de Clara para J\u00falia sela o processo de arrefecimento de uma esquerda que hoje se apresenta puramente como um conjunto de escolhas est\u00e9ticas superficiais e de vincula\u00e7\u00f5es a pautas comportamentais. Uma apar\u00eancia de esquerda, ou uma esquerda da apar\u00eancia. \u00c9 por isso que quando olha uma fotografia de tia L\u00facia, Clara diz \u201cessa quebraram a forma\u201d. Quebraram porque n\u00e3o teve continuidade, aquela esquerda representada no filme por tia L\u00facia n\u00e3o segue em Clara, nem em J\u00falia. O que sobra nelas \u00e9 a forma da revolu\u00e7\u00e3o sexual, dos costumes, mais do que da luta pol\u00edtica. O que se tem da\u00ed pra frente s\u00e3o personagens identificadas hoje como de esquerda por seus vestidos floridinhos e pulseiras compradas do hippie de Copa (J\u00falia), por essas roupas meio Gilda Midani, meio Sonia Maria Pinto (Clara), por fumarem maconha, por gostarem de m\u00fasica brasileira, por uma postura vagamente feminista. Em suma, por coisa alguma.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe uma \u00fanica opini\u00e3o ou postura de Clara ao longo de todo o filme que possa ser tachada como de esquerda, e ainda assim a personagem foi lida pela recep\u00e7\u00e3o imediata do filme como uma figura de esquerda. Nisso a recep\u00e7\u00e3o pode ter sido influenciada pela postura pessoal do diretor, ou pela manifesta\u00e7\u00e3o da equipe do longa no Festival de Cannes, mas acreditamos que mesmo sem o eco desses acontecimentos extr\u00ednsecos \u00e0 obra uma figura como Clara tende hoje a ser interpretada como de esquerda, ou de uma certa esquerda, de modo autom\u00e1tico, sem nenhuma necessidade de que aja ou fale como algu\u00e9m de esquerda, apenas por seus gostos culturais e vincula\u00e7\u00e3o a determinadas pautas comportamentais que hoje conduzem ou substituem a pauta pol\u00edtica propriamente dita, como a toler\u00e2ncia com o filho gay, a aceita\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio corpo, a afirma\u00e7\u00e3o da sexualidade mesmo sendo uma sexagen\u00e1ria sem um dos seios, um tom de simpatia inconsequente pelos pobres, embora na pr\u00e1tica seja grosseira com os pobres e n\u00e3o fa\u00e7a nada por eles.<\/p>\n<p>Nesse sentido, n\u00e3o \u00e9 pouco que as primeiras semanas de exibi\u00e7\u00e3o do filme tenham sido marcadas por gritos de \u201cFora, Temer\u201d dentro do cinema. O que significa esse \u201cFora, Temer\u201d em uma exibi\u00e7\u00e3o de <i>Aquarius<\/i>, gritado naquele momento pol\u00edtico? Aquilo era pior do que missa pra convertido. Parecia que esse grito que poderia ser politizado tinha sido convertido em uma esp\u00e9cie de \u201cToca Raul\u201d. Uma coisa que o sujeito pode gritar sem ter nenhuma expectativa ou mesmo vontade de que toquem Raul. N\u00e3o se tratava de um ato pol\u00edtico com consequ\u00eancias, mas de um grito de identifica\u00e7\u00e3o de grupo, de uma camiseta de banda do discurso.<\/p>\n<p>Na pr\u00f3pria fam\u00edlia de Clara existe uma divis\u00e3o por gostos est\u00e9ticos. \u00c9 como se dentro da pr\u00f3pria fam\u00edlia houvesse uma ala Aquarius e uma ala Atlantic Plaza Residence. Clara e o sobrinho Tom\u00e1s, por exemplo, seriam da ala Aquarius. J\u00e1 o sobrinho que vai casar e sua noiva, que aparecem escolhendo fotos de inf\u00e2ncia para o casamento, s\u00e3o da ala Atlantic Plaza Residence. Em Salvador, chamar\u00edamos essa divis\u00e3o de alternas X pessoas normais.<\/p>\n<p>O grupo das pessoas normais \u2014 todo aquele que n\u00e3o \u00e9 alterna \u2014 sequer tem um nome, sequer \u00e9 ironizado. Eles s\u00e3o realmente As Pessoas Normais, t\u00e3o normais que n\u00e3o devem receber uma pecha. N\u00e3o s\u00e3o coxinhas, como em S\u00e3o Paulo, n\u00e3o s\u00e3o pass\u00edveis de ironia. S\u00e3o normais e ponto. J\u00e1 alterna \u00e9 um guarda-chuva gen\u00e9rico que, em uma sociedade pouco diversificada como a das capitais nordestinas e de suas diminutas classes m\u00e9dias, abriga de jogadores de RPG at\u00e9 hippies, passando por hipsters, metaleiros, emos, professores universit\u00e1rios que d\u00e3o aula de chinelo, esquisitos de modo geral e abarcando uma mulher feito Clara.<\/p>\n<p>Essa divis\u00e3o sem conflitos e dentro da mesma fam\u00edlia, dentro do grupo de amigas de Clara, mostra que \u00e9 um racha puramente est\u00e9tico o que divide aqueles ricos. N\u00e3o tem nenhuma diferen\u00e7a fundamental entre aqueles personagens.<\/p>\n<p>A cena da passagem de fotos de fam\u00edlia \u00e9 quando Clara fica intrigada com a imagem de uma antiga empregada que parecia ser \u00f3tima funcion\u00e1ria, mas que depois \u201cprovou ser uma grande filha da puta\u201d ao roubar joias da fam\u00edlia, outro s\u00edmbolo de heran\u00e7a, de passado. Clara diz que se n\u00e3o conseguir lembrar o nome da empregada, n\u00e3o vai dormir. \u00c9 uma fala que parece mostrar o quanto ela individualiza a mo\u00e7a, por\u00e9m ela lembra o nome da pessoa e n\u00e3o dorme do mesmo jeito. A emprega ladra lhe aparece em pesadelos como tipo social, como uma esp\u00e9cie de bicho-pap\u00e3o dos adultos dessa classe.<\/p>\n<p>Tanto no \u00e1lbum de fotos quanto nas cenas do pesadelo de Clara com a empregada, a imagem \u00e9 pouco n\u00edtida, a mulher aparece quase como um borr\u00e3o negro de olhos e avental brancos. \u00c9 poss\u00edvel que o diretor esteja fazendo ali uma<a href=\"http:\/\/www.cjc-online.ca\/index.php\/journal\/article\/view\/2196\"> refer\u00eancia<\/a> ao modo como os filmes anal\u00f3gicos at\u00e9 a d\u00e9cada de 1970 n\u00e3o haviam sido feitos para retratar peles mais escuras. Somente nessa d\u00e9cada e por press\u00e3o de fabricantes de m\u00f3veis e de chocolates \u00e9 que as pel\u00edculas passaram a retratar cores escuras de modo mais nuan\u00e7ado. O resultado dessa quest\u00e3o<i> t\u00e9cnica<\/i> foram gera\u00e7\u00f5es de negros que se viram apagados de seus pr\u00f3prios registros. Aquele registro que deveria garantir a preserva\u00e7\u00e3o de sua mem\u00f3ria agiu como mais um fator de apagamento. Esse apagamento s\u00f3 \u00e9 tecnicamente vencido por uma necessidade de se diferenciar produtos, e se prolonga subjetivamente na incapacidade da patroa de lembrar o nome da empregada.<\/p>\n<p>Posteriormente, em seus pesadelos, \u00e9 essa mesma empregada quem vai apontar para Clara que a cicatriz do c\u00e2ncer se abriu e que ela est\u00e1 sangrando. \u201cA senhora est\u00e1 sangrando\u201d, diz a mo\u00e7a, sentada na cama da patroa, lhe roubando um colar de p\u00e9rolas, com todo o respeito. Na vig\u00edlia, a cena se espelha na revela\u00e7\u00e3o, por parte dos ex-funcion\u00e1rios da construtora, de que cupins esgar\u00e7am a estrutura do pr\u00e9dio.<\/p>\n<p>A mesma cena das fotos traz uma passagem interessante em que o sobrinho de Clara usa o celular para fotografar uma foto de inf\u00e2ncia dele. Em seguida, ele clareia a pr\u00f3pria pele, usando um programa de edi\u00e7\u00e3o do celular. O rapaz, como vemos na cena, \u00e9 branco, mas em sua inf\u00e2ncia bronzeada n\u00e3o parece branco o suficiente para ele pr\u00f3prio, que faz a corre\u00e7\u00e3o digital do problema.<\/p>\n<p>Essa quest\u00e3o racial que n\u00e3o se limita a uma dicotomia entre negros inegavelmente negros e brancos inegavelmente brancos aparece tamb\u00e9m no coment\u00e1rio racista de Diego em rela\u00e7\u00e3o a Clara, quando ele diz que uma pessoa como ela, de pele mais escura, deve ter batalhado muito para chegar onde chegou. Esse coment\u00e1rio \u00e9 bastante revelador do lugar do mesti\u00e7o claro e socialmente branqueado na sociedade brasileira. Embora Clara seja branca o suficiente para gozar de todos os privil\u00e9gios de que goza ao longo do filme, n\u00e3o ser exatamente branca \u00e9 um dado que eventualmente pode ser mobilizado contra ela. O mesmo coment\u00e1rio mostra a assimila\u00e7\u00e3o parcial de Diego dos valores americanos que ele tanto valoriza. Estudou business, \u00e9 do tipo focado, mas suas opini\u00f5es sobre ra\u00e7a, trabalho e ascens\u00e3o social s\u00e3o plenamente locais.<\/p>\n<p>Nessa cena das fotos tamb\u00e9m vale notar como Clara \u00e9 a guardi\u00e3 da mem\u00f3ria familiar. Mesmo as fotos do sobrinho e da cunhada gr\u00e1vida se encontram na casa dela, \u00e9 l\u00e1 que eles v\u00e3o buscar registros para o casamento, e n\u00e3o na casa dos pais do rapaz. Tamb\u00e9m conv\u00e9m notar como Clara desfruta o momento como uma experi\u00eancia prazerosa enquanto a noiva do sobrinho tem uma vis\u00e3o utilit\u00e1ria da coisa e encerra a sess\u00e3o assim que obt\u00e9m imagens o suficiente.<\/p>\n<p>Diante da persist\u00eancia de Clara, a construtora assume uma postura progressivamente agressiva. As armas usadas por eles s\u00e3o espelhamentos de coisas que apareciam em outra chave l\u00e1 na festa de tia L\u00facia. O que na festa era revolu\u00e7\u00e3o sexual, no ataque da construtora surge como pornografia, na suruba organizada pelo capataz da construtora para chocar Clara \u2014 n\u00e3o apenas n\u00e3o choca como a excita e motiva que contrate um garoto de programa, com quem transa dispensando o lubrificante (fica a\u00ed o grande res\u00edduo da revolu\u00e7\u00e3o pulada de tia L\u00facia). O que era religi\u00e3o engajada na camiseta das Comunidades Eclesiais de Base surge na liga\u00e7\u00e3o utilitarista de Diego com a igreja evang\u00e9lica (e com os Illuminatis, como vemos em uma cena que pode atestar mais a paranoia de Clara, algo meio <i>O Beb\u00ea de Rosemary<\/i>, do que qualquer outra coisa). A arma final consiste em infestar os apartamentos fechados com cupins de demoli\u00e7\u00e3o para erodir as estruturas do pr\u00e9dio.<\/p>\n<p>Mas estejamos tranquilos que no meio disso tudo ainda h\u00e1 espa\u00e7o para um Estadinho. A figura do Estado aparece na amig\u00e1vel presen\u00e7a do salva-vidas. Nela reside um Estado provedor de servi\u00e7os e de prote\u00e7\u00e3o, seletivo, pessoal e que \u00e9 mobilizado para usufruto das elites, mesmo daquelas elites que em situa\u00e7\u00f5es normais fingem n\u00e3o se considerar merecedoras de tratamento privilegiado.<\/p>\n<p>A primeira apari\u00e7\u00e3o do salva-vidas se d\u00e1 na cena da terapia de riso. Nela, um grupo de pessoas de classe m\u00e9dia encontra-se deitado na areia, fazendo uma din\u00e2mica de grupo em que o riso \u00e9 ora for\u00e7ado, ora contido. Roberval, o salva-vidas, encontra-se junto a Clara. Quando um grupo de jovens negros se aproxima e se integra aos risonhos de maneira sarc\u00e1stica e levemente amea\u00e7adora (uma das muitas cenas de tens\u00e3o que n\u00e3o d\u00e3o em nada do filme), Roberval aparece dando um tapinha de \u201csegure sua onda\u201d no bra\u00e7o de um deles, que se posiciona junto a ele e a Clara.<\/p>\n<p>Na segunda apari\u00e7\u00e3o do salva-vidas, Clara decide dar um mergulho em um dia de mar revolto e \u00e9 tratada com pompa por Roberval, que chega a pedir que um bote fa\u00e7a sua prote\u00e7\u00e3o. Ela finge dispensar toda aquela preocupa\u00e7\u00e3o, ao que Roberval responde com rever\u00eancia, dizendo \u201cquem manda ser uma pessoa importante?\u201d. Clara ent\u00e3o abusa do privil\u00e9gio e pede que ele segure seus prendedores de cabelo enquanto ela mergulha. Quando Roberval assinala que n\u00e3o tem ningu\u00e9m na \u00e1gua naquele dia, que s\u00f3 ela quer entrar, isso refor\u00e7a a impress\u00e3o de uma mulher voluntariosa, que n\u00e3o admite que for\u00e7as externas atrapalhem seus planos mais comezinhos. Essa imagem do propriet\u00e1rio destemido diante dos tubar\u00f5es de Boa Viagem j\u00e1 tinha sido usada em <i>O Som ao Redor<\/i>, em uma cena semelhante (s\u00f3 que sem salva-vidas) protagonizada por Francisco.<\/p>\n<p>O salva-vidas age ainda como uma esp\u00e9cie de guarda-costas de Clara no momento em que o ex-vizinho vem confront\u00e1-la a respeito da venda do apartamento. Nesse mesmo dia, Roberval aponta para Clara as atividades de um traficante de classe m\u00e9dia que atua na regi\u00e3o. Clara pergunta se ele n\u00e3o faz nada, se n\u00e3o comunica \u00e0 pol\u00edcia, ao que ele responde que s\u00f3 observa. \u00c9 um Estado vigia-diurno, por assim dizer.<\/p>\n<p>Em outro di\u00e1logo, Clara pede o telefone de Roberval. Ele primeiro entende que ela precisa de servi\u00e7os dele, pergunta se ela quer um guarda-costas ou \u201calgo assim\u201d, outra cena que espelha o Francisco de <i>O Som ao Redor<\/i> em di\u00e1logo com um personagem do mesmo ator, Irandhir Santos. Em seguida, entende que ela quer, na verdade, marcar um encontro. S\u00e3o os dois usos, ambos f\u00edsicos, que Roberval entende que um homem como ele pode ter para uma mulher como aquela.<\/p>\n<p>Por fim, o salva-vidas e um colega do corpo de bombeiros s\u00e3o acionados por conta dos cupins nos apartamentos fechados. A entrada nos apartamentos se d\u00e1 de modo totalmente ilegal, mas com ajuda do Estado, de um corpo de bombeiros militar. Clara tem uma desconfian\u00e7a baseada em uma den\u00fancia de ex-funcion\u00e1rios da construtora. Isso \u00e9 o bastante para que os bombeiros arrombem as portas e invadam a propriedade alheia. Antes de fazerem isso, Roberval problematiza a situa\u00e7\u00e3o, diz que n\u00e3o podem entrar assim, sem um papel, uma autoriza\u00e7\u00e3o, mas basta que a advogada pessoal de Clara diga que \u201cse responsabiliza\u201d pela invas\u00e3o para que eles ajam sem maiores questionamentos. De certo modo, Roberval, um funcion\u00e1rio do governo, atua como um faz-tudo de Clara, como uma esp\u00e9cie de zelador de um condom\u00ednio sem funcion\u00e1rios.<\/p>\n<p>O Estado se manifesta ainda em outros breves momentos: aparece como o maior anunciante do jornal onde Clara trabalhava, no ca\u00f3tico arquivo onde ela e a advogada v\u00e3o buscar documentos para chantagear a construtora e, sob a forma de aus\u00eancia, surge no filho de Ladjane, cuja morte permanece impune, e no esgoto a c\u00e9u aberto que separa Pina de Bras\u00edlia Teimosa.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o encontrada por Clara para resolver seu impasse com a construtora se d\u00e1 por meio de chantagem e de rela\u00e7\u00f5es pessoais. Um amigo jornalista, editor do jornal onde ela trabalhava, fornece a Clara documentos que podem incriminar a empresa e que parecem vincul\u00e1-la a um esquema de favorecimento desde os governos militares. Esse mesmo amigo tem rela\u00e7\u00f5es pessoais com o neto do empreiteiro e depende dos an\u00fancios das construtoras, mas, por algum motivo, resolve beneficiar Clara, dando a pista sobre onde estariam esses documentos.<\/p>\n<p>O di\u00e1logo com o editor do jornal \u00e9 a cena em que Clara \u00e9 mais confrontada. Ela come\u00e7a a conversa se colocando acima do tipo de rela\u00e7\u00e3o \u201cbem brasileira, bem pernambucana\u201d que permite que a sobrinha do editor seja rep\u00f3rter no suplemento cultural, ou que Diego seja indiretamente aparentado com o editor. Mas o amigo logo rebate as cr\u00edticas mencionando um irm\u00e3o de Clara at\u00e9 ent\u00e3o apagado do filme e que seria pol\u00edtico, \u00e0s voltas com den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o. Ele tamb\u00e9m nota ironicamente como ela fica animada quando ele resolve estender essa mesma teia de rela\u00e7\u00f5es pessoais esquisitas em seu benef\u00edcio. A fun\u00e7\u00e3o dessa cena parece ser chacoalhar um pouco o pedestal moral da personagem. A elite representada por Clara pode ser um pouco mais esclarecida e menos corrupta do que aquela representada pelos Bonfim, mas est\u00e1 longe da assepsia republicana que afeta. A essa altura, a mobiliza\u00e7\u00e3o de temas ligados a empreiteiros, advogados, arrombamentos, inviolabilidade do lar, corrup\u00e7\u00e3o e imprensa fazem pensar na Lava Jato, mas essa \u00e9 uma associa\u00e7\u00e3o espinhosa da qual farei uma fuga organizada.<\/p>\n<p>Munida de provas coletadas de um lado atrav\u00e9s de rela\u00e7\u00f5es pessoais, de outro pela invas\u00e3o ilegal de apartamentos alheios, Clara vai at\u00e9 a construtora e literalmente coloca o pau na mesa. Sabemos ent\u00e3o que \u201cO c\u00e2ncer de Clara\u201d a que o t\u00edtulo do cap\u00edtulo final se referia era o c\u00e2ncer que Clara decidiu dar \u00e0 construtora. O cupim cancer\u00edgeno que aparecia na cicatriz do seio e na parede do pr\u00e9dio agora sai livremente da manga de sua camisa imaculadamente branca.<\/p>\n<p>O fim aponta para uma vit\u00f3ria da protagonista, mas como ela mesma prenuncia, aquela vit\u00f3ria ser\u00e1 apenas uma dor de cabe\u00e7a na construtora. O gesto \u00e9 de c\u00e2ncer, o resultado \u00e9 dor de cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Ao passar pelos corredores da firma em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 sala onde encontrar\u00e1 Seu Geraldo, Clara olha diversas maquetes com projetos da construtora. Seu Edif\u00edcio Aquarius, centro de tanta aten\u00e7\u00e3o nossa e dela, \u00e9 apenas um entre tantos projetos. \u00c9 gen\u00e9rico, inespec\u00edfico. A essa altura, n\u00e3o sabemos se os cupins de demoli\u00e7\u00e3o j\u00e1 fizeram seu trabalho, mas a conquista m\u00e1xima que est\u00e1 posta ali \u00e9 que a construtora tenha de esper\u00e1-la morrer para ent\u00e3o negociar o apartamento com sua mais do que receptiva prole.<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria, se existir, ser\u00e1 puramente pessoal, fruto de conchavo entre membros da elite. Clara n\u00e3o usa a informa\u00e7\u00e3o que coletou para denunciar uma construtora ou uma teia de corrup\u00e7\u00e3o que remonta aos tempos da ditadura, mas sim para resolver seu problema individual. Narrativamente, quase todas as cenas do filme que parecem trazer uma tens\u00e3o terminam em nada. Isso n\u00e3o seria um indicativo de que tamb\u00e9m aquela cena final e cat\u00e1rtica daria em nada?<\/p>\n<p>\u00c9 preciso destacar, no entanto, que esse efeito de vit\u00f3ria moral da personagem \u00e9 criado pela estrutura formal do filme e diz respeito \u00e0 vis\u00e3o da obra. O diretor escolheu esse fim cat\u00e1rtico, escolheu a consagra\u00e7\u00e3o final da protagonista. No fim, interessa menos a efici\u00eancia dessa vit\u00f3ria do que o significado dessa escolha formal que d\u00e1 primazia para uma resist\u00eancia moral individual fundada ela mesma na riqueza acumulada contra o poder do capital empresarial mais explicitamente violento, corrupto etc.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil estabelecer se o filme faz ou n\u00e3o a cr\u00edtica da personagem, se a dire\u00e7\u00e3o est\u00e1 ou n\u00e3o colada ao ponto de vista da protagonista. Se h\u00e1 uma cr\u00edtica, ela \u00e9 d\u00fabia e sutil. Ao contr\u00e1rio de <i>O Som ao Redor<\/i>, onde a figura de Jo\u00e3o \u00e9 explicitamente posta em xeque e ningu\u00e9m sai do cinema admirando o personagem, Clara parece se salvar e se estabelecer no final como hero\u00edna, o que pode apontar tanto para um ganho de sutileza na narrativa de Kleber Mendon\u00e7a Filho quanto para sua limita\u00e7\u00e3o enquanto membro de uma elite predinho baixo em Boa Viagem.<\/p>\n<p>Em um<a href=\"http:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/fooquedeu\/\"> di\u00e1rio<\/a> de montagem de sua exposi\u00e7\u00e3o mais recente, Nuno Ramos diz que, ao finalizar uma obra, o artista d\u00e1 um beijo de Judas nela. Isso porque, ao continuar produzindo, o artista sempre estar\u00e1 pondo em risco o sentido e o valor de suas obras anteriores, falseando-as e relativizando-as. Nesse sentido, <i>Aquarius<\/i> pode ser um enorme beijo de Judas em <i>O Som ao Redor<\/i> uma vez que dilui, possivelmente deturpa, quest\u00f5es que naquela obra pareciam bastante contundentes.<\/p>\n<p>O filme tem momentos de distanciamento que parecem indicar que n\u00e3o h\u00e1 um desejo de identifica\u00e7\u00e3o completa com a figura de Clara, s\u00f3 que essa inten\u00e7\u00e3o \u00e9 bloqueada pelo fato de a obra ser constru\u00edda de maneira dram\u00e1tica no sentido de opor vil\u00e3o caricatural e hero\u00edna complexa. Essa oposi\u00e7\u00e3o simplificadora se sobrep\u00f5e ao intuito de criticar ou minar o car\u00e1ter heroico da hero\u00edna, e no fim a hist\u00f3ria termina com uma cena de consagra\u00e7\u00e3o, com um ato pessoal de vingan\u00e7a simb\u00f3lica.<\/p>\n<p>Inegavelmente, as contradi\u00e7\u00f5es de Clara est\u00e3o no filme. Isso, no entanto, est\u00e1 longe de garantir que a obra fa\u00e7a sua cr\u00edtica: pode ser apenas um mecanismo de complexifica\u00e7\u00e3o da personagem. A verdade \u00e9 que o filme parece um tanto cego aos limites que ele mesmo mostra.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 simples pensar para onde a obra aponta. Se em <i>O Som ao Redor<\/i> as fotos de movimentos rurais apresentadas na abertura culminam em vingan\u00e7a pessoal, nos fazendo refletir sobre tempos em que esses movimentos foram desmontados e em que a rixa parece substituir a luta coletiva (como disse o professor Paulo Arantes em uma exposi\u00e7\u00e3o oral sobre o longa ainda em 2013), onde desembocam aquelas fotos nost\u00e1lgicas de Boa Viagem que abrem <i>Aquarius<\/i>? Na resist\u00eancia individual de uma mulher forte.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 em disputa na encena\u00e7\u00e3o de Kleber Mendon\u00e7a Filho s\u00e3o dois modelos da elite, ambos desinteressados em mudan\u00e7a social, ambos tribut\u00e1rios da riqueza anterior \u2014 seja pelo rentismo, seja pelos grandes neg\u00f3cios \u2014, em um cen\u00e1rio p\u00f3s-derrota de qualquer esp\u00e9cie de projeto coletivo de pa\u00eds, confrontados em um enredo que, evocando as lutas pol\u00edticas derrotadas da d\u00e9cada de 1960 e 1970, as reduz a lembran\u00e7as afetivas, apresentando um descampado pol\u00edtico onde n\u00e3o h\u00e1 perspectivas de transforma\u00e7\u00e3o social \u00e0 vista.<\/p>\n<p>O que permanece desde o filme anterior \u00e9 que, diferentemente de um <i>Casa Grande<\/i> (2014) ou de um<a href=\"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/festa-em-piscina-vazia\/\"> <i>Que Horas Ela Volta?<\/i><\/a> (2015), esse diretor n\u00e3o est\u00e1 interessado em ruminar o que sobrou do lulismo, mas nessa terra arrasada, na figura\u00e7\u00e3o dessas elites sem projeto, agora num contexto de enfrentamento interno. Aqui temos o empres\u00e1rio que fez business nos Estados Unidos e que quer replicar um modelo empreendedor das grandes cidades litor\u00e2neas americanas, mas que tamb\u00e9m \u00e9 herdeiro dos grandes setores empresariais que se beneficiaram de uma moderniza\u00e7\u00e3o excludente do pa\u00eds. Essa figura representa uma elite racista, patriarcal (&#8220;se fosse minha m\u00e3e eu n\u00e3o deixaria morar aqui&#8221;), ultraconservadora, completamente mergulhada na corrup\u00e7\u00e3o e no favorecimento, sem nenhuma espinha dorsal para al\u00e9m do interesse econ\u00f4mico, inculta, ignorante, desrespeitosa. A esse modelo plenamente negativo se op\u00f5e uma figura que gera simpatia por ser menos pior, menos rica, menos indiferente, menos ignorante, mas que n\u00e3o aponta para sa\u00edda alguma, \u00e9 um resqu\u00edcio de elite intelectual que se encerra em si mesmo, perfumada com notas de um progressismo comportamental contempor\u00e2neo. Para fora disso est\u00e1 qualquer projeto de incorpora\u00e7\u00e3o dos pobres e de transforma\u00e7\u00e3o social, coisas t\u00e3o apagadas da pauta do dia que sua simples men\u00e7\u00e3o cheira a velharia do gaveteiro de tia L\u00facia.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma ambiguidade do diretor em lan\u00e7ar essa contenda em que a resist\u00eancia est\u00e1 fundada no poder individual de uma atitude progressista contempor\u00e2nea que se vincula aos pobres apenas em uma simpatia inconsequente e cujas aspira\u00e7\u00f5es de poder se encerram no pr\u00f3prio corpo de modo at\u00e9 bastante literal. Como no fim \u00e9 Clara quem ganha e \u00e9 sobre ela que a narrativa deposita sua simpatia, a identifica\u00e7\u00e3o acaba valorizando essa postura como atitude progressista sen\u00e3o desej\u00e1vel, ao menos poss\u00edvel para hoje.<\/p>\n<p>Em dado momento da briga, Ana Paula diz que a m\u00e3e parece crian\u00e7a. Clara imediatamente incorpora a cr\u00edtica e diz, em tom afetivo e autocondescendente, que ela de fato \u00e9 ao mesmo tempo velhinha e crian\u00e7a. Talvez seja uma boa imagem para falar dessa elite menos pior que \u00e9 t\u00e3o velhinha, t\u00e3o residual e sem futuro, e ao mesmo tempo t\u00e3o crian\u00e7a, t\u00e3o vinculada \u00e0s pautas laterais de hoje, t\u00e3o ing\u00eanua e confort\u00e1vel em sua pr\u00f3pria ingenuidade e cujo grande m\u00e9rito \u00e9 que poderia ser pior, o que j\u00e1 indica que mais dois passos e h\u00e1 de ser.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[Este \u00e9 um texto confuso, detalhista, muito longo, meio moralista e possivelmente cheio de erros sobre Aquarius, com coisas que venho pensando sobre o filme desde que ele foi lan\u00e7ado. 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