{"id":11058,"date":"2017-08-27T19:31:03","date_gmt":"2017-08-27T22:31:03","guid":{"rendered":"http:\/\/julianacunha.com\/blog\/?p=11058"},"modified":"2026-10-23T18:21:28","modified_gmt":"2026-10-23T21:21:28","slug":"por-que-nos-desentendemos-por-mensagem-de-texto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/por-que-nos-desentendemos-por-mensagem-de-texto\/","title":{"rendered":"Por que nos desentendemos por mensagem de texto?"},"content":{"rendered":"<p>Minha pergunta de pesquisa \u00e9: por que nos desentendemos por mensagem de texto? \u00c9 \u00f3bvio que, dada a centralidade dessa forma de comunica\u00e7\u00e3o, todo mundo aqui j\u00e1 se perguntou isso, mas as respostas parecem girar em torno da dificuldade de ler e transmitir tom de voz e express\u00f5es faciais, algo que tentamos reverter a base de emoticons e exclama\u00e7\u00f5es mais abundantes do que v\u00edrgulas. Essa resposta me parece insuficiente e, francamente, abobada, por isso queria ajuda para pensar em algo mais aprumado.<\/p>\n<p>A primeira ressalva l\u00f3gica em que penso \u00e9: nos desentendemos, e agora isso se d\u00e1 por mensagem de texto. Trata-se de uma coincid\u00eancia que talvez n\u00e3o implique causalidade. Nos desentendemos, agora isso costuma acontecer por mensagem de texto porque essa \u00e9 a forma de comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o f\u00e1tica mais frequente que usamos, \u00e0s vezes at\u00e9 com pessoas pr\u00f3ximas. Porque conversamos demais por esse meio e porque costumamos criar ou abordar problemas atrav\u00e9s dele, as chances de nos desentendemos assim crescem. Como a conversa pessoal passou a ser usada como resolvedora de conflitos j\u00e1 postos pelo texto, a disposi\u00e7\u00e3o das pessoas ao conversarem ao vivo sobre o mesmo problema \u00e9 outra, o cuidado \u00e9 outro, o que leva \u00e0 impress\u00e3o de que ao vivo funciona quando talvez fosse mais justo pensar que com cuidado funciona, com boa vontade funciona, ou que resolver problemas \u00e9 menos dif\u00edcil do que nunca criar problemas.<\/p>\n<p>Mas vamos supor que n\u00e3o seja apenas uma coincid\u00eancia, que a mensagem de fato aumente a frequ\u00eancia e a gravidade dos desentendimentos. Ainda assim me parece haver respostas mais completas do que tom de voz e express\u00f5es faciais. Ao falar em tom de voz e express\u00f5es faciais, estamos falando o que, exatamente? Que o texto \u00e9 intrinsecamente, irremediavelmente deficit\u00e1rio em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 linguagem oral? Que com os \u00e1udios do WhatsApp ou, sei l\u00e1, se passarmos a gravar videozinhos no qual faremos todas as express\u00f5es e gestos, a quest\u00e3o ser\u00e1 resolvida?<\/p>\n<p>Poder\u00edamos dizer que a quest\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o sabemos ler e escrever t\u00e3o bem quanto sabemos ouvir e falar, o que parece l\u00f3gico se pensarmos no conjunto da popula\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o corresponde \u00e0 m\u00e9dia das pessoas do meu meio, basicamente alfabetizadas no IRC, ICQ, UOL, MSN e, posteriormente, nas redes sociais, al\u00e9m de serem leitoras de livro ao menos razo\u00e1veis. Aprendemos estrat\u00e9gias de leitura e de escrita mais sofisticadas do que a m\u00e9dia dos nossos pais porque esses foram desde cedo instrumentos poderosos de sociabilidade. Termos aprendido essas estrat\u00e9gias, todo e cada um de n\u00f3s estar fluente demais em artimanhas elementares de como construir um texto engra\u00e7adinho, perspicazinho, emocionantezinho, talvez contribua para o nosso bode crescente em rela\u00e7\u00e3o a amigos que postam demais e suas f\u00f3rmulas f\u00e1ceis de chamar aten\u00e7\u00e3o com textos que parecem berrar o efeito que pretendem causar. As palavras, como todas as outras coisas, sofrem desgaste.<\/p>\n<p>Conclus\u00f5es parciais: as pessoas se desentendem; as pessoas se desentendem menos quando s\u00e3o mais cuidadosas; as pessoas sabem ler e escrever; a linguagem escrita tem suas pr\u00f3prias ferramentas e independe de gestual e de tom de voz; v\u00eddeos e \u00e1udios dificilmente resolver\u00e3o o problema.<\/p>\n<p>Hip\u00f3teses para estudos futuros:<\/p>\n<p>Talvez os problemas gerados pelas mensagens de texto estejam mais ligados \u00e0 falta de controle das condi\u00e7\u00f5es de recep\u00e7\u00e3o da mensagem e a uma tend\u00eancia a presumir que a outra pessoa ler\u00e1 nossa mensagem em condi\u00e7\u00f5es neutras ou similares \u00e0s nossas. Voc\u00ea escreve uma mensagem levemente b\u00eabado no banheiro de uma festa e d\u00e1 de barato o quanto o ambiente influencia seu modo de sentir e de se expressar naquele momento, assim como d\u00e1 de barato que a outra pessoa estar\u00e1 em um estado mental neutro ou semelhante, e n\u00e3o imersa em um outro problema, no meio de uma situa\u00e7\u00e3o desagrad\u00e1vel, de uma conversa mais interessante do que a sua etc.<\/p>\n<p>Se pessoalmente tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel estar dessintonizado emocionalmente, ao menos existe um ambiente comum e a possibilidade de avaliar o terreno antes de iniciar a intera\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m \u00e9 mais f\u00e1cil se desapegar de expectativas e roteiros previamente estabelecidos e se deixar convencer pelo outro quando os turnos de fala n\u00e3o demoram minutos, horas inteiras usadas para solidificar posi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>(no caso de desentendimentos entre casais, talvez seja justo acrescentar que pessoalmente n\u00e3o estamos t\u00e3o dispostos a interpretar mal algu\u00e9m em quem pretendemos ter autoriza\u00e7\u00e3o para tocar dali a dois minutos).<\/p>\n<p>Escritores tentam criar e controlar minimamente as condi\u00e7\u00f5es de recep\u00e7\u00e3o de seus textos. Tentam selecionar se o leitor ideal estar\u00e1 com tempo ou apressado, se vai devorar, degustar ou ruminar o texto. O fazem atrav\u00e9s da extens\u00e3o, do meio onde publicam, do t\u00edtulo apagado ou chamativo, da escolha entre uma linguagem transparente ou opaca, de uma narrativa que empurre o leitor num carrinho de m\u00e3o e saia em disparada ou que exija que ele caminhe com suas pr\u00f3prias pernas por um terreno movedi\u00e7o. N\u00f3s tamb\u00e9m tentamos controlar essas condi\u00e7\u00f5es, sobretudo atrav\u00e9s da escolha entre ferramentas (e-mail pressup\u00f5e leitura e resposta mais lentas, WhatsApp pressup\u00f5e di\u00e1logo etc.), mas trata-se de um controle pequeno e para o qual nos vemos com menos recursos.<\/p>\n<p>Tem a m\u00e1xima de Montaigne de que metade da palavra \u00e9 de quem l\u00ea, uma propor\u00e7\u00e3o que tende a diminuir com o di\u00e1logo pessoal, onde aquele que fala tem um poder maior de se fazer entender, pois sente imediatamente as rea\u00e7\u00f5es de seu interlocutor. No caso do texto escrito, da mensagem de texto, h\u00e1 uma s\u00e9rie de circunst\u00e2ncias que escapam ao poder do enunciador (algo que os americanos chamam de set and setting). Se a pessoa l\u00ea sua mensagem no metr\u00f4, preocupada com algo do trabalho, ou se l\u00ea \u00e0 noite, no meio das cobertas, s\u00e3o leituras e interpreta\u00e7\u00f5es e at\u00e9 textos completamente distintos. Para quem pensa que at\u00e9 a literatura pode ser apenas um modo de leitura, e n\u00e3o algo que esteja necessariamente no texto, isso deve fazer sentido.<\/p>\n<p>Outra hip\u00f3tese, essa um pouco mais fraca: hiperleitura. As palavras ganham mais peso por escrito porque foram grafadas, podem ser lidas v\u00e1rias vezes, soam mais pesadas. Essa \u00e9 um pouco mais fraca porque, dado o volume em que escrevemos, acho que relemos cada vez menos. N\u00e3o \u00e9 como na \u00e9poca do IRC com internet discada e m\u00e3e que n\u00e3o era s\u00f3cia da Telebahia em que nos especializ\u00e1vamos em hiperleitura neur\u00f3tica ao reler logs de conversas por uma semana antes de iniciar a pr\u00f3xima intera\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea j\u00e1 viu um adolescente de hoje no WhatsApp? A quantidade de mensagens, grupos e conversas a dois que eles administram o tempo todo e ao mesmo tempo? A falta de barreiras financeiras, t\u00e9cnicas e sociais que limitem o falat\u00f3rio descontrolado? Mas isso \u00e9 uma outra quest\u00e3o porque se trata de uma gente esquisita que vai destruir o mundo de uma tacada. No momento estou mais interessada em saber por que n\u00f3s, gente limpa e ordeira, n\u00e3o conseguimos nos entender.<\/p>\n<p>Por fim, em uma guinada contradit\u00f3ria e imprevista que aprendi em s\u00e9ries televisivas, tem a quest\u00e3o do tom de voz e das express\u00f5es faciais. Mas n\u00e3o \u00e9 que tenhamos dificuldade em ler ou transmitir por escrito as mesmas informa\u00e7\u00f5es que esses marcadores da intera\u00e7\u00e3o face a face transmitem. \u00c9 que de algum modo esses marcadores n\u00e3o s\u00e3o apenas informa\u00e7\u00f5es que decodificamos racionalmente, mas ferramentas poderosas de quebra da nossa bolha autocentrada. Pessoalmente, tendemos a querer agradar e a fazer pequenos ajustes e modula\u00e7\u00f5es instant\u00e2neas nas nossas falas para atingir esse prop\u00f3sito. Isso n\u00e3o apenas n\u00e3o \u00e9 ruim como \u00e9 a coisa mais civilizada do mundo. Por mensagem de texto, nos expressamos bem at\u00e9 demais justamente porque s\u00e3o retirados filtros importantes do contato com o outro. O interlocutor se virtualiza virando menos gente e mais proje\u00e7\u00e3o. Pessoalmente, o outro n\u00e3o \u00e9 um avatar irritantemente incapaz de aderir ao seu roteiro, \u00e9 um term\u00f4metro de como suas ideias soam fora da sua cabe\u00e7a (mal).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Minha pergunta de pesquisa \u00e9: por que nos desentendemos por mensagem de texto? \u00c9 \u00f3bvio que, dada a centralidade dessa forma de comunica\u00e7\u00e3o, todo mundo aqui j\u00e1 se perguntou isso, mas as respostas parecem girar em torno da dificuldade de ler e transmitir tom de voz e express\u00f5es faciais, algo que tentamos reverter a base [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-11058","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11058","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11058"}],"version-history":[{"count":13,"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11058\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11071,"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11058\/revisions\/11071"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11058"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11058"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11058"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}