{"id":11075,"date":"2017-09-20T16:10:56","date_gmt":"2017-09-20T19:10:56","guid":{"rendered":"http:\/\/julianacunha.com\/blog\/?p=11075"},"modified":"2026-10-23T18:21:21","modified_gmt":"2026-10-23T21:21:21","slug":"sua-unica-area-de-jurisdicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/sua-unica-area-de-jurisdicao\/","title":{"rendered":"Sua \u00fanica \u00e1rea de jurisdi\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Se voc\u00ea \u00e9 usu\u00e1ria do Pinterest, deve ter percebido que o mundo (ao menos em sua esfera &#8220;inspiracional&#8221;) agora se divide entre Kim Kardashians e basic bitches com espa\u00e7o limitado para qualquer nuance entre as duas coisas. Parece que a moda \u2014 assim como todo o resto \u2014 est\u00e1 se encaminhando para dois extremos: ou o b\u00e1sico do b\u00e1sico, pelamordedeus perceba como sou b\u00e1sica e n\u00e3o me importo com nada, ou passei duas horas contornando a cara e tive que expulsar meu marido do apartamento pra montar um arm\u00e1rio\u00a0na sala.<\/p>\n<p>Nada contra nenhuma das posturas, cada uma faz o que quer, seu corpo suas regras e mais e mais ele caminha mesmo para ser sua \u00fanica \u00e1rea de jurisdi\u00e7\u00e3o. Num contexto em que nem o presidente escolhemos, \u00e9 bom concentrar no tipo certo de arroz. Talvez, no entanto, seja interessante se perguntar o porqu\u00ea\u00a0desses extremos e o que cada um deles significa no pequeno esquema das coisas. De um lado, a tend\u00eancia Kim Kardashian parece ser uma rea\u00e7\u00e3o a anos de discurso de &#8220;beleza natural&#8221;, de um &#8220;sem esfor\u00e7o&#8221; que na verdade demanda tanto ou mais esfor\u00e7o do que qualquer outro estilo, essa coisa de querer parecer que nascemos perfeitas, que foi de deus, fazer o qu\u00ea. Talvez assumir o esfor\u00e7o, enfatizar\u00a0o esfor\u00e7o, seja uma postura digamos que mais honesta e empoderada do que o antigo fiz nada n\u00e3o (ainda que a gente n\u00e3o deva nenhuma honestidade ao mundo na forma de um\u00a0relat\u00f3rio do que fizemos na nossa pr\u00f3pria cara).<\/p>\n<p>As maquiagens gritam que foram maquiadas, as sobrancelhas se ufanam de uma simetria imposs\u00edvel, os corpos atestam todas as horas na academia \u2014 diferentemente do antigo corpo magro e sem m\u00fasculos que, ao menos para uma parcela limitada e por um tempo limitado, podia ser obtido <em>apenas<\/em> com gen\u00e9tica e com um n\u00e3o fazer (basicamente, n\u00e3o comer). Agora, n\u00e3o fazer n\u00e3o \u00e9 o bastante, abrir m\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o bastante e \u00e9 preciso <em>fazer<\/em> muito para ter aquele corpo. N\u00e3o \u00e9 uma beleza est\u00e1tica, tanto no sentido de parada no tempo quanto de im\u00f3vel em si. \u00c9\u00a0uma correria potencialmente eterna. \u00c9 um corpo mais forte, menos infantilizado, menos vulner\u00e1vel, mais caro, mais trabalhoso e mais fact\u00edvel de ser mantido numa idade acima dos quinze anos (s\u00f3 que menos poss\u00edvel de ser atingido sem uma quantidade de tempo e dinheiro cada vez mais expressiva. N\u00e3o d\u00e1 para saber se ele \u00e9 mais ou menos <em>democr\u00e1tico<\/em>, isso nem se coloca. Aceitaremos os trint\u00f5es e at\u00e9 os quarent\u00f5es e cinquent\u00f5es mais aguerridos elevando para isso o pre\u00e7o da brincadeira).<\/p>\n<p>\u00c9 um corpo mais rent\u00e1vel. A magreza fraca vendia os produtos a ela associados e talvez uns diet\u00e9ticos, mas seu campo de explora\u00e7\u00e3o ficava restrito quando a l\u00f3gica era justamente o se deixar definhar. Esse corpo tamb\u00e9m era mais claramente inacess\u00edvel, era um tem ou n\u00e3o tem. O corpo atl\u00e9tico amplia a acessibilidade real e ilus\u00f3ria ao padr\u00e3o, p\u00f5e uma cenoura diante das pessoas mais velhas (e, portanto, com mais dinheiro) e exponencia a quantidade de produtos e procedimentos que podem ser vendidos para sua pr\u00f3pria manuten\u00e7\u00e3o. Assim, ele passa a ser um elemento de distin\u00e7\u00e3o em si. Ter esse corpo j\u00e1 indica tanto tempo livre, tanto consumo que ele quase prescinde de marcadores vestuais de distin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se o corpo padr\u00e3o de antes lucrava sobretudo com a frustra\u00e7\u00e3o de n\u00e3o se poder obter-lo, o novo padr\u00e3o lucra justamente com o fato de que para um n\u00famero mais expressivo de pessoas \u00e9 sim poss\u00edvel obter aquele corpo, ainda que mediante muitos sacrif\u00edcios (que, longe de desestimular, valorizam sua obten\u00e7\u00e3o e ajudam a organizar a vida do sujeito). Esse corpo &#8220;poss\u00edvel&#8221; \u00e9 mais condizente com outros discursos contempor\u00e2neos como o do empreendedorismo, do esfor\u00e7o e tamb\u00e9m o da sa\u00fade e autoestima.<\/p>\n<p>At\u00e9 as cirurgias pl\u00e1sticas j\u00e1 n\u00e3o gostariam de n\u00e3o terem existido. Entre perfeito e natural (no sentido de fact\u00edvel), mais e mais escolhemos o perfeito. A maior parte dos procedimentos que as pessoas ainda percebem como desastrosos envolve botox e preenchimento. Acontece que esses procedimentos s\u00e3o tempor\u00e1rios. Basta n\u00e3o refazer e num prazo entre seis meses a um ano o rosto volta a ser exatamente como era. Na verdade, n\u00e3o precisa nem esperar tudo isso: caso a pessoa n\u00e3o fique satisfeita, \u00e9 poss\u00edvel injetar uma enzima que digere a subst\u00e2ncia e tudo volta ao normal no mesmo dia.<\/p>\n<p>Isso significa que as pessoas que andam por a\u00ed exibindo rostos que a maior parte de n\u00f3s ainda identifica como bizarros na verdade est\u00e3o muito satisfeitas com o resultado. Voc\u00ea pode dizer que n\u00e3o ficou do seu agrado, mas chamar de mal sucedido parece autorit\u00e1rio (quando n\u00e3o soa a uma ojeriza mal disfar\u00e7ada a mulheres que n\u00e3o &#8220;aceitam a velhice&#8221;). Os dentes clareados e ajustados na r\u00e9gua que antes pareciam bizarros hoje n\u00e3o s\u00e3o dignos de nota. Os corpos ultra malhados que na minha adolesc\u00eancia soavam at\u00e9 abjetos hoje s\u00e3o mainstream na firma (ou nos sonhos da firma). O mesmo deve acontecer com os preenchimentos. O natural muda, os par\u00e2metros do que \u00e9 um rosto normal e do que \u00e9 exagero mudam. Como tend\u00eancia atual, eles t\u00eam se ampliado. Isso, claro, ao menos no meu espectro de consumo cultural. Hoje em dia, assistir a qualquer filme que n\u00e3o seja brasileiro ou americano me d\u00e1 a estranha sensa\u00e7\u00e3o de que os atores parecem gente.<\/p>\n<p>Faz uns meses que a piau\u00ed publicou um texto contra a cultura da academia e dos exerc\u00edcios modernos que achei bastante interessante, embora muito feito contra o fen\u00f4meno, e n\u00e3o exatamente na tentativa de entend\u00ea-lo. \u00c9 justo e o texto n\u00e3o engana: se chama<em><a href=\"http:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/abaixo-a-academia\/\" target=\"_blank\"> Abaixo a academia<\/a>. S<\/em>\u00f3 me fez pensar em outras coisas.<\/p>\n<p>O autor fala de como a contagem (de calorias, medidas, pesos, quil\u00f4metros) \u00e9 uma das caracter\u00edsticas que mais diferenciam o exerc\u00edcio contempor\u00e2neo que fazemos numa academia de gin\u00e1stica das pr\u00e1ticas esportivas e do tipo de exerc\u00edcio a que nos entreg\u00e1vamos em outros tempos. Me parece acertado: a medi\u00e7\u00e3o e o produtivismo escaparam do trabalho. Agora queremos medir por quantas horas exatamente dormimos e, mais do que isso, o quanto nos mexemos, quantas vezes levantamos para ir ao banheiro, quantas horas desse sono se passaram no est\u00e1gio ideal. Um relacionamento qualquer pode ser avaliado\u00a0em frequ\u00eancia (de sexo, de brigas, de sa\u00eddas, de horas juntos ou de horas &#8220;de qualidade&#8221;, de quantidade de presentes ou de quantas vezes o outro conferiu o pr\u00f3prio celular).<\/p>\n<p>A segunda coisa de que ele fala sobre a l\u00f3gica contempor\u00e2nea do exerc\u00edcio \u00e9 que estamos tentando nos preservar. Que a percep\u00e7\u00e3o atual parece ser da vida enquanto gasto desse material chamado corpo. Ouvir m\u00fasica alta me tira a audi\u00e7\u00e3o. Um jantar muito gostoso e umas drogas no fim de semana desgastam meus sentidos, minha sa\u00fade. Estamos, no fim, mesquinhamente nos economizando.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 tanto assim. A corrida me gasta os joelhos. A obsess\u00e3o da prote\u00edna vai me deixar uma velha dura e com doen\u00e7a renal. Mas, para al\u00e9m disso, me parece que quem est\u00e1 se economizando e se administrando hoje n\u00e3o est\u00e1 fazendo isso em lugar de se entregar a prazeres ou a aventuras intensas. Talvez a quest\u00e3o fundamental seja que esses prazeres e aventuras pare\u00e7am indispon\u00edveis ou esvaziados, incapazes de gerar o que pressup\u00f5e-se que gerariam, o que geravam antes. A alternativa \u00e0 disciplina do corpo n\u00e3o parece ser o sexo desenfreado, as drogas, os jantares nababescos, as brigas de rua, mas o sof\u00e1 com seriados e um pote de algo feito para enjoar em uma colher, mas que comeremos at\u00e9 o fim porque orna com o personagem. \u00c9 correr parado numa esteira ou sentar parado no sof\u00e1. Quando a oposi\u00e7\u00e3o \u00e9 posta nesses termos, parece antes uma oposi\u00e7\u00e3o entre angustiados e deprimidos do que entre mesquinhos auto economizadores e o resto de n\u00f3s (porque quem fala assim sempre se coloca no outro grupo, \u00e9 claro).<\/p>\n<p>Talvez quem se resguarda esteja, na verdade, se incubando. Se eu me guardar por tempo o bastante, talvez eu viva outras coisas e n\u00e3o essas, e possa me gastar em outras coisas e n\u00e3o nessas. Feito um Dirceu na pris\u00e3o, para fazer uma analogia\u00a0que s\u00f3 vale para quem estiver com um outro Dirceu e com uma outra pris\u00e3o na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>De modo geral e nesse caso espec\u00edfico, eu acho que a gente deposita sofrimentos pr\u00e9vios nas formas dispon\u00edveis. O sofrimento da mortalidade \u00e9 posto no anseio da beleza. Que n\u00e3o \u00e9 sequer uma beleza, mas uma vitalidade, uma rigidez ou um apagamento dos tra\u00e7os mais consagrados\u00a0de velhice. Isso e a quest\u00e3o do espa\u00e7o de jurisdi\u00e7\u00e3o, que mais e mais se restringe literalmente ao meu corpo. \u00c9 nele que eu mando e em nada mais. Ele, que inevitavelmente me far\u00e1 doente e fraca, que inevitavelmente me deixar\u00e1 na m\u00e3o, ainda assim parece ser a coisa mais concreta e sob controle que tenho. Se isso n\u00e3o te desespera, bem, voc\u00ea \u00e9 forte.<\/p>\n<p>E precisa ser. O corpo forte parece atestar sua independ\u00eancia e o quanto seu dono \u00e9 capaz de se virar sozinho, de prover por si. N\u00e3o parece coincid\u00eancia que esse corpo seja o avatar escolhido para uma fase do jogo que tende ao cada um por si, em que as teias de prote\u00e7\u00e3o e solidariedade parecem fr\u00e1geis e cheiram elas pr\u00f3prias a derrota.<\/p>\n<p>O fato de os homens estarem na academia em n\u00famero bastante proporcional ao de mulheres \u00e9 um bom indicativo de que a quest\u00e3o n\u00e3o se resume \u00e0 apar\u00eancia. Embora os homens tamb\u00e9m sejam cada vez mais cobrados pela apar\u00eancia, acho que essa cobran\u00e7a e o ganho social que eles adquirem ao cuidarem do corpo ainda n\u00e3o \u00e9 grande o bastante para justificar tantas horas investidas numa academia.<\/p>\n<p>Acho que a\u00ed entra mais explicitamente o prazer espec\u00edfico do exerc\u00edcio e o prazer de controlar algo. Talvez entre tamb\u00e9m a quest\u00e3o da sociabilidade. Surpreendentemente para quem abomina esse tipo de lugar, a academia \u00e9 um espa\u00e7o privilegiado de sociabilidade para muita gente, acho que at\u00e9 mais para os homens, que de repente podem ter mais dificuldade em simplesmente requisitar a companhia dos amigos.<\/p>\n<p>A l\u00f3gica dos exerc\u00edcios modernos \u00e9 a rapidez: \u00e9 preciso fazer tudo em curtos intervalos de tempo para que o m\u00fasculo fique contra\u00eddo e gere mais resultados. Essa rapidez tamb\u00e9m \u00e9 \u00fatil para fazer os exerc\u00edcios caberem na agenda das pessoas e, claro, para gerar maior fluxo de alunos e rentabilizar a academia.\u00a0Acontece que muita, muita gente, especialmente homens, passam horas in\u00fateis l\u00e1 dentro. Conversando. Paquerando. Se arrastando de um equipamento ao outro. Levando o coleguinha para se exercitar junto. Eu acho que o que eles buscam ali \u00e9 em grande parte sociabilidade.<\/p>\n<p>Recentemente, li umas coisas sobre &#8220;body neutrality&#8221;. Eu mesma j\u00e1 pensei algo que se aproxima desse conceito. N\u00e3o dever\u00edamos buscar amar nossos corpos, sermos as rainhas da autoestima (porque \u00e9 claro que isso \u00e9 sempre para mulheres), mas termos com nossos corpos uma rela\u00e7\u00e3o de neutralidade. Sou bonita, sou feia, gorda, magra, jovem ou velha, tanto faz. Meu corpo est\u00e1 em segundo plano e n\u00e3o me define. Exceto que eu fecho o Tumblr e o vejo definir como as pessoas me tratam, quais minhas chances no amor e at\u00e9 no trabalho. Desculpa, realidades, mas meu corpo me define e n\u00e3o posso ter uma rela\u00e7\u00e3o de neutralidade com algo t\u00e3o central no mundo em que vivo.<\/p>\n<p>Os homens ainda conseguem essa neutralidade. Os homens n\u00e3o se acham todos bonitos nem acham todos os outros homens bonitos e nem as mulheres acham todos eles bonitos. \u00c9 mais que a constata\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o se \u00e9 isso a\u00ed de bonito parece secund\u00e1ria em um mundo em que eles podem ser outras coisas. Esse mundo n\u00e3o est\u00e1 dispon\u00edvel para uma parcela consider\u00e1vel das mulheres e achar que constru\u00ed-lo seja uma quest\u00e3o de postura pessoal diante do espelho, francamente. O discurso da autoestima \u00e9 furado e levemente falso (tudo o que \u00e9 muito contra quest\u00f5es fundamentais do nosso sistema de pensamento soa [e <em>\u00e9<\/em>] meio falso) e ainda assim parece mais promissor do que fingir que o corpo pode ser neutralizado quando ele \u00e9 \u2014 numa repeti\u00e7\u00e3o que apenas finge coes\u00e3o \u2014 sua \u00fanica \u00e1rea de jurisdi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>*<span style=\"font-weight: 400;\">basic bitch n\u00e3o significa isso que eu falei, mas sempre achei que devia significar.\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se voc\u00ea \u00e9 usu\u00e1ria do Pinterest, deve ter percebido que o mundo (ao menos em sua esfera &#8220;inspiracional&#8221;) agora se divide entre Kim Kardashians e basic bitches com espa\u00e7o limitado para qualquer nuance entre as duas coisas. 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