{"id":11125,"date":"2019-12-11T16:50:02","date_gmt":"2019-12-11T18:50:02","guid":{"rendered":"http:\/\/julianacunha.com\/blog\/?p=11125"},"modified":"2026-10-23T18:20:57","modified_gmt":"2026-10-23T21:20:57","slug":"fantasma-sai-de-cena","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/fantasma-sai-de-cena\/","title":{"rendered":"Fantasma sai de cena"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">Talvez <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Hist\u00f3ria de um casamento <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">(Noah Baumbach, 2019) seja um filme sobre proje\u00e7\u00e3o, e talvez a mais importante delas seja aquela que o casal faz nos advogados \u2014 mas tamb\u00e9m na m\u00e3e, no filho, um no outro. \u00c9 o desenlace de um casamento perfeito entre um egoc\u00eantrico e uma passivo-agressiva, nenhum deles propriamente m\u00e1 pessoa, por\u00e9m ambos muito empenhados em terceirizar a agressividade. \u00c9 uma hist\u00f3ria cheia de cenas de reconhecimento e estranhamento na qual o casal vai pouco a pouco trocando de papel. N\u00e3o \u00e0 toa, o marco temporal do div\u00f3rcio s\u00e3o duas festas de Halloween.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O filme come\u00e7a com sequ\u00eancias nas quais cada um deles descreve o outro com o detalhamento afetuoso de quem parece se gostar. No entanto, est\u00e3o na sala de um mediador de div\u00f3rcio e a mulher se recusa a ler o que escreveu sobre o marido. Se cada um lesse seu papel, talvez n\u00e3o houvesse div\u00f3rcio \u2014 exceto que \u00e0quela altura a separa\u00e7\u00e3o j\u00e1 ocorreu, e os motivos est\u00e3o fora daquelas cartas auto romanceada. O objetivo do mediador \u00e9 que as pessoas lembrem por que se casaram, para come\u00e7o de conversa. Ele acredita que, em posse dessa lembran\u00e7a, ser\u00e3o capazes de passar por aquilo sem passar por cima um do outro. O problema \u00e9 que, em um div\u00f3rcio com filho no qual cada parte deseja morar em um estado diferente, um est\u00e1 literalmente no caminho do outro, obstaculizando esse desejo. O casal quer se enxergar como racional e civilizado, como o tipo de gente que respeita o ex mesmo na separa\u00e7\u00e3o, mas como resolver um impasse desses sem perder o penteado?\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No come\u00e7o do filme, Nicole \u00e9 uma pessoa que n\u00e3o consegue bancar os pr\u00f3prios desejos. Ela est\u00e1 sempre triangulando e projetando. Dorme com o filho porque <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">ele<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> est\u00e1 passando por uma transi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o ela. Larga Hollywood pelo teatro e Los Angeles por Nova Iorque para satisfazer o desejo do marido, n\u00e3o o seu pr\u00f3prio (de ser uma atriz respeitada, de se afastar da m\u00e3e, de ficar com ele). Combina de n\u00e3o envolver advogados e descumpre o acordo primeiro porque a irm\u00e3<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\"> a fez<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> visitar v\u00e1rios escrit\u00f3rios, depois, porque uma produtora que mal conhece insiste que procure Nora, a advogada dela. Divide a terapeuta com a m\u00e3e, embora pare\u00e7a reprovar a ideia. Desmarca o Halloween coletivo com o ex em cima da hora e p\u00f5e a culpa na irm\u00e3 e no cunhado. A pr\u00f3pria vilaniza\u00e7\u00e3o do marido, embora n\u00e3o seja de todo descabida \u2014 quando \u00e9? \u2014, parece antes uma forma de justificar o fato de que ela passou a querer outras coisas, e essas outras coisas n\u00e3o est\u00e3o dispon\u00edveis ali (em Nova Iorque, naquele relacionamento). Ela quer o espa\u00e7o que a Costa Oeste oferece. Oferece, no caso, para ela.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O papel da advogada \u00e9 autorizar Nicole a assumir o pr\u00f3prio desejo. Primeiro, o desejo de morar em Los Angeles. Depois, o desejo de odiar o marido. Em seguida, o desejo de que o filho seja \u201cnosso de verdade, mas ao mesmo tempo s\u00f3 meu\u201d. O processo se completa na cena do tribunal, quando as duas vestem basicamente a mesma roupa e mant\u00e9m a mesma pose. Diante do juiz, os advogados expressam a agressividade que o casal gosta de imaginar que esteja fora deles. Eles representam seus clientes. Atrav\u00e9s deles, os clientes podem dizer \u201ceu quero tudo\u201d, enquanto de suas pr\u00f3prias bocas o que sai \u00e9 \u201cfique com o que quiser\u201d (no fim, \u00e9 engra\u00e7ado como o sujeito que mais dizia isso se ressente porque a ex levou o sof\u00e1 que originalmente j\u00e1 era dela).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As duas cenas de m\u00fasica \u2014 nas quais Nicole canta \u201cYou Could Drive a Person Crazy\u201d e Charlie \u201cBeing Alive\u201d \u2014 s\u00e3o a incurs\u00e3o mais did\u00e1tica do filme, embora de fato sejam boas. Charlie canta que quer algu\u00e9m que sente em sua cadeira, e acaba encontrando. Em grande parte, o que Nicole quer \u00e9 assumir a posi\u00e7\u00e3o do marido: ser diretora, dirigir o casal, dirigir a casa, liderar um pouco. Mas naquela rela\u00e7\u00e3o s\u00f3 havia uma cadeira de diretor. Aos poucos, Nicole vai repartindo o lugar do marido entre ela mesma e o filho.<br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Da\u00ed v\u00eam as cenas de estranhamento, que geralmente s\u00e3o de Nicole em rela\u00e7\u00e3o a ela mesma, ou de Charlie em rela\u00e7\u00e3o a Henry e Nicole. Desde quando ela sabe hackear um e-mail? Desde quando sabe que a locadora n\u00e3o podia instalar a cadeirinha? Se sabia dessa lei, talvez a coisa toda de ir para Los Angeles e s\u00f3 depois entrado com o div\u00f3rcio tenha sido mais premeditada do que parecia. Desde quando \u00e9 diretora? Desde quando \u00e9 vegetariana? Esse cabelo \u00e9 seu mesmo ou pintou? Desde quando o filho deixou de gostar de matem\u00e1tica? Desde quando quer ser ninja e n\u00e3o Frankenstein? Desde quando prefere sentar?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No fim, a protagonista \u00e9 Nicole, porque \u00e9 ela quem passa por uma transforma\u00e7\u00e3o. O processo do marido \u00e9 mais de lidar com a aceita\u00e7\u00e3o da derrota, com o fato de que ter\u00e1 de ceder o lugar. Aquilo que n\u00e3o cedeu para a mulher \u2014 Los Angeles, a secundariza\u00e7\u00e3o da carreira, a dire\u00e7\u00e3o \u2014 ter\u00e1 de ser cedido ao filho, o que causa uma mistura de ressentimento e admira\u00e7\u00e3o por parte da ex.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">H\u00e1 cenas interessantes de reconhecimento, de momentos em que os personagens ou reconhecem uns aos outros ou t\u00eam revela\u00e7\u00f5es acerca de sua pr\u00f3pria natureza. A mais legal \u00e9 aquela entre Charlie e a sogra, quando ele chega na casa dela e ainda tem a chave da porta, mas, ao entrar, a sogra j\u00e1 \u00e9 sogra de outro cara, e mant\u00e9m com esse cara a mesma rela\u00e7\u00e3o filial que mantinha com ele. Porque, no fim, o genro \u2014 qualquer genro \u2014 era apenas um dos meios de exercer uma rela\u00e7\u00e3o neur\u00f3tica e competitiva com as filhas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A cena dos peixes tamb\u00e9m \u00e9 perspicaz, quando Henry entra em um pr\u00e9dio de escrit\u00f3rios com o pai e reconhece primeiro o pr\u00e9dio, mas Charlie diz que todos eles se parecem. Depois, entram na sala do advogado que foram visitar e Henry reconhece os peixes, mas Charlie diz que \u201cmuitos peixes se parecem\u201d. Logo fica claro que o menino estava certo: ele j\u00e1 tinha ido ali porque a m\u00e3e consultou mais de uma d\u00fazia de advogados, provavelmente para deixar o pai sem boas op\u00e7\u00f5es. Os pr\u00e9dios se parecem, os peixes se parecem e as pessoas tamb\u00e9m podem ser bem parecidas em um processo de div\u00f3rcio.<\/span><\/p>\n<p>Quem autoriza Charlie a cogitar que a ex tenha deliberadamente atrapalhado sua escolha de advogado \u00e9 a recepcionista do escrit\u00f3rio. Antes disso, outro advogado (Bert) j\u00e1 havia chamado Nicole de vaca, assim como a advogada dela chamou Charlie de escroto. Os dois sempre rebate os xingamentos. Ele n\u00e3o \u00e9 assim, ela n\u00e3o faria isso. Assim como nas descri\u00e7\u00f5es romantizadas do come\u00e7o do filme, trata-se antes de uma romantiza\u00e7\u00e3o de si do que do outro. No entanto, coment\u00e1rios depreciativos mal disfar\u00e7ados abundam, especialmente na frente do filho. Bert diz que criminalistas v\u00eam pessoas ruins em seus melhores momentos, enquanto advogados de div\u00f3rcio v\u00eam pessoas boas em seu pior. Mas, como disse Nicole em seu mon\u00f3logo para Nora, &#8220;everything is like everything in a relationship&#8221;.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Se no primeiro encontro com Nora Nicole tinha dificuldade de sequer articular o que ela pr\u00f3pria queria e admirava a mulher de George Harrison por ao menos ser honesta consigo mesma e admitir que era apenas a esposa, na cena final ela surge n\u00e3o como a mulher ou mesmo como o pr\u00f3prio George Harrison, mas vestida de John Lennon no Halloween de sua consagra\u00e7\u00e3o. J\u00e1 Charlie passa de Homem Invis\u00edvel para ningu\u00e9m, por\u00e9m, com n\u00e3o se pode ser ningu\u00e9m, tome um len\u00e7ol emprestado e seja fantasma.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Talvez Hist\u00f3ria de um casamento (Noah Baumbach, 2019) seja um filme sobre proje\u00e7\u00e3o, e talvez a mais importante delas seja aquela que o casal faz nos advogados \u2014 mas tamb\u00e9m na m\u00e3e, no filho, um no outro. \u00c9 o desenlace de um casamento perfeito entre um egoc\u00eantrico e uma passivo-agressiva, nenhum deles propriamente m\u00e1 pessoa, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[92],"tags":[],"class_list":["post-11125","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-filmes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11125","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11125"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11125\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11132,"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11125\/revisions\/11132"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11125"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11125"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11125"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}