{"id":11138,"date":"2020-11-21T06:54:32","date_gmt":"2020-11-21T08:54:32","guid":{"rendered":"http:\/\/julianacunha.com\/blog\/?p=11138"},"modified":"2026-10-23T18:20:52","modified_gmt":"2026-10-23T21:20:52","slug":"como-fisgar-um-homem-sem-poupanca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/como-fisgar-um-homem-sem-poupanca\/","title":{"rendered":"Um homem sem poupan\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>(\u00e0s vezes Deus protege os incautos. O texto abaixo foi escrito em 2013, perto da publica\u00e7\u00e3o do romance <em>Div\u00f3rcio<\/em>, de Ricardo L\u00edsias. Acabei apagando do blog em um dos meus acessos de &#8220;est\u00e1 tudo ruim&#8221;, mas recentemente decidi que gostava dele. Reencontrei por acaso, em um e-mail enviado a uma amiga. N\u00e3o sei se era a vers\u00e3o final, mas Deus tem outras prioridades).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 a hist\u00f3ria de uma jornalista que se casa com um escritor. A jornalista \u00e9 ambiciosa, bonita, manipuladora. Uma pessoa que negocia com o mundo \u2014 isso quando precisa negociar; em geral, ela e o mundo est\u00e3o na mesma p\u00e1gina. O escritor \u00e9 o oposto disso, mas eles se casam. N\u00e3o \u00e9 um namoro que desemboca em casamento: \u00e9 um casamento que se materializa mais ou menos do nada, embora nenhum dos personagens pare\u00e7a dado a atos impensados. Poucos meses depois, o escritor encontra o di\u00e1rio da jornalista e descobre que ela n\u00e3o est\u00e1 contente. Descobre, na verdade, que ela o despreza. Ele surta, h\u00e1 um div\u00f3rcio. O livro traz o escritor \u00e0s voltas com sua separa\u00e7\u00e3o, tentando se recuperar. O pilar dessa recupera\u00e7\u00e3o \u00e9 a desconstru\u00e7\u00e3o da imagem da mulher. Como tantos ex, ele precisa odi\u00e1-la. O problema n\u00e3o pode estar nele, n\u00e3o pode estar no amor, tem que estar no objeto.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O enredo de<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\"> Div\u00f3rcio<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, de Ricardo L\u00edsias, \u00e9 sem d\u00favida interessante. A trama se d\u00e1 entre esses dois personagens que vivem da escrita. Uma vive de reportar a verdade, mas \u00e9 <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">uma mentira<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. O outro vive de vender mentiras, mas \u00e9<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\"> verdadeiro<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. Entre eles, um di\u00e1rio, esse relato que pressup\u00f5e a aus\u00eancia de leitor e de apuro, uma escrita bruta, honesta, desinteressada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A ideia de privacidade e da aus\u00eancia de um leitor \u2014 uma figura frequentemente incorporada ficcionalmente na literatura moderna \u2014 refor\u00e7a a credibilidade do relato, uma vez que ningu\u00e9m precisa manipular um leitor que n\u00e3o existe. \u00c9 interessante pensar nessa personagem, nessa mulher que se constitui apenas atrav\u00e9s de mem\u00f3rias deturpadas e de um di\u00e1rio; um di\u00e1rio usado como prova contra si mesma.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O uso de di\u00e1rios e outros documentos era um artif\u00edcio que transmitia verossimilhan\u00e7a ou at\u00e9 um lastro de verdade para as narrativas do s\u00e9culo 18. \u00c9 frequente que os livros dessa \u00e9poca insiram o aparecimento de um di\u00e1rio, carta ou documento como estrat\u00e9gia para dar ao leitor a possibilidade de testemunhar de forma mais direta a experi\u00eancia de um indiv\u00edduo que passou por aquilo e usa a autoridade de quem viveu os fatos para revelar seu sentido. A ideia da \u201cevid\u00eancia\u201d e da experi\u00eancia individual como garantia de sentido era forte naquela \u00e9poca. \u00c9 dessa cren\u00e7a que surgem os pilares do jornalismo moderno: a ideia de que o indiv\u00edduo que \u201cfoi ao local\u201d pode nos dizer \u201co que de fato aconteceu\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o parece coincid\u00eancia que a personagem jornalista seja justamente a v\u00edtima dessa investiga\u00e7\u00e3o, desse relato direto que \u00e9 subvertido no <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Div\u00f3rcio <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">por um narrador extremamente manipulador que apresenta trechos cortados e editados do suposto di\u00e1rio de outrem para refor\u00e7ar uma tese que ele j\u00e1 traz pronta desde a primeira p\u00e1gina: a velha tese de que a mulher \u00e9 uma oportunista dissimulada que se aproveita da nobreza de sentimentos e da paix\u00e3o cega de um homem bom.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Acontece que o recurso do di\u00e1rio \u00e9 usado em uma \u00e9poca em que esses elementos j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam o peso que tinham no s\u00e9culo 18. A cren\u00e7a na prova, na rep\u00f3rter que vai a Cannes, que entrevista Brad Pitt e por isso pode falar com propriedade, est\u00e1 datada. Quando esses artif\u00edcios surgem em um romance de 2011, eles aparecem em uma chave invariavelmente rebaixada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A forma de salvar <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Div\u00f3rcio<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> da vala da pura maledic\u00eancia de ex-marido \u00e9 fazendo um gesto interpretativo vigoroso \u2014 alguns diriam for\u00e7ado \u2014 no sentido de ler o protagonista Ricardo como um Bentinho e supor que uma outra inst\u00e2ncia narrativa (o autor impl\u00edcito) aponta para suas limita\u00e7\u00f5es. Essa \u00e9 a leitura que busquei fazer. Se concordo com ela, honestamente, n\u00e3o sei dizer.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os defeitos atribu\u00eddos ao narrador tanto por ele mesmo quanto pelos fragmentos do di\u00e1rio n\u00e3o colocam em xeque sua autoimagem. Pelo contr\u00e1rio, s\u00e3o defeitos que corroboram com a constru\u00e7\u00e3o de escritor comprometido com seu of\u00edcio, culto, viril, pessoa simples, despretensiosa, boa, leal e desapegada que ele parece fazer de si mesmo e que tenta vender ao leitor. Entre os defeitos listados no livro est\u00e1 andar demais, ler demais, n\u00e3o ter vivido, n\u00e3o ter um apartamento, nunca ter feito uma poupan\u00e7a, n\u00e3o ter um carro, n\u00e3o saber dirigir, comportar-se em restaurantes chiques como se estivesse no restaurante da esquina. Esse \u00faltimo \u201cdefeito\u201d \u00e9 interessante pois sintetiza a ideia de que Ricardo \u00e9 um sujeito homog\u00eaneo, uno, igual a si mesmo, de uma cara s\u00f3. N\u00e3o h\u00e1 nele uma cis\u00e3o entre pessoa p\u00fablica e privada, n\u00e3o h\u00e1 nele uma capacidade (ou disponibilidade) de negociar com o meio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">J\u00e1 os defeitos atribu\u00eddos \u00e0 personagem feminina tanto pelo narrador quanto por seu pr\u00f3prio di\u00e1rio destroem a imagem p\u00fablica que ela t\u00e3o cuidadosamente procura construir. A imagem de jornalista s\u00e9ria, inteligente, competente, segura, simp\u00e1tica, bem relacionada, viajada e sensual que ela busca passar \u00e9 inconcili\u00e1vel com a mulher arrogante, arrivista, filisteia, desesperada e cruel que surge no di\u00e1rio e nas acusa\u00e7\u00f5es do narrador. O pr\u00f3prio ato de escrever um di\u00e1rio em pleno 2011, sendo ela uma pessoa que vive da escrita, mostra que a personagem reconhece e problematiza a cis\u00e3o entre seu eu interior \u2014 com sentimentos nem sempre edificantes \u2014 e a face que ela apresenta publicamente. Manter um di\u00e1rio \u00e9 reconhecer que n\u00e3o somos quem vendemos ser. Em uma \u00e9poca em que at\u00e9 os blogs estilo di\u00e1rio publicado deram lugar \u00e0 vers\u00e3o mais pasteurizada de n\u00f3s mesmos exposta no Facebook, manter um di\u00e1rio verdadeiramente privado \u00e9 quase um ato de rebeldia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sua ex-mulher sabe que \u00e9 mais de uma enquanto Ricardo defende ser um s\u00f3. Sob essa perspectiva, o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Div\u00f3rcio<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> de que trata o t\u00edtulo pode se referir n\u00e3o apenas ao fim do casamento dos protagonistas mas tamb\u00e9m a essa separa\u00e7\u00e3o radical entre os dois lados da personagem feminina, partes inconcili\u00e1veis de uma mesma pessoa, e ao choque de expectativas que o narrador tem ao descobrir esse eu privado por meio do di\u00e1rio. Por ser uno, Ricardo n\u00e3o consegue compreender a multiplicidade da mulher. Por ser coerente at\u00e9 em seus defeitos, n\u00e3o consegue compreender suas incongru\u00eancias.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O leitor tem pouco acesso ao que Ricardo pensava de sua mulher antes da leitura do di\u00e1rio. Mesmo nas cenas que ele recorda momentos anteriores \u00e0 leitura, a mulher que surge ali \u00e9 indubitavelmente a mesma do di\u00e1rio, com os mesmos defeitos mal disfar\u00e7ados em uma capa de civilidade t\u00e3o fina que o leitor duvida da intelig\u00eancia do narrador por n\u00e3o ter notado antes \u2014 ou de sua parcialidade. Incapaz de juntar os vest\u00edgios da \u201cpessoa para quem ele disse sim\u201d, o que ele faz \u00e9 rememorar cenas do passado assegurando-se de que a mulher do di\u00e1rio j\u00e1 estava ali o tempo inteiro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ricardo acusa a ex-mulher de ser de algum modo oportunista, de ter se casado por interesse, embora o pr\u00f3prio narrador reconhe\u00e7a que \u00e9 ela quem tem dois apartamentos e pode pagar o restaurante da Torre Eiffel, enquanto ele \u00e9 um homem sem poupan\u00e7a. O enredo do casamento por interesse \u00e9 exposto em seu rid\u00edculo em um contexto de relativa equidade de g\u00eanero e valoriza\u00e7\u00e3o do trabalho. Por ser um homem sem posses, Ricardo est\u00e1 convencido de que o casamento visava um interesse em seu capital simb\u00f3lico como escritor relativamente bem sucedido e como intelectual. O narrador busca mostrar o quanto ele possui cultura e por isso \u00e9 diferente dos demais consumidores e trabalhadores. Acontece que a forma como isso \u00e9 posto termina por igualar essas experi\u00eancias. A mala cheia de livros que ele traz de Buenos Aires n\u00e3o parece menos vulgar que a mala cheia de alfajores de um turista convencional. Na cena em que o protagonista tem uma overdose, a recita\u00e7\u00e3o de um ros\u00e1rio em latim por um de seus amigos \u00e9 posta em equival\u00eancia direta \u00e0 mostra do corpete empreendida por outra amiga, indicando que no fim das contas saber latim e mostrar o corpete t\u00eam exatamente a mesma finalidade para aqueles personagens:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201c\u00c9ramos quatro excelentes alunos. O L\u00e9o come\u00e7ou a recitar um ros\u00e1rio de ora\u00e7\u00f5es em latim e a [X] mostrou que estava de corpete. Os dois casais se formaram.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por tr\u00e1s da pompa de intelectual desprendido, Ricardo \u00e9 um homem que viaja para destinos comerciais como Paris, Nova Iorque e Buenos Aires e que consome essas cidades ao modo de um turista qualquer; que mora em bairros de elite e come em suas padarias; que frequenta festas da intelligentsia paulistana e faz social como todo escritor que reconhece a utilidade dessas redes de relacionamento e que, por fim, escolhe se casar com uma rep\u00f3rter de cultura de um jornal importante, com uma mulher que entrevista Brad Pitt. Se \u00e9 bastante veross\u00edmil no contexto do romance que a personagem feminina tenha se casado visando e fetichizando o capital cultural de seu marido, parece igualmente verdadeiro que Ricardo tenha se casado buscando esse mesmo capital simb\u00f3lico e social. E n\u00e3o atrapalha o fato de ela ainda por cima ter dois apartamentos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Desejar \u00e9 uma coisa dif\u00edcil, nem sempre a gente tem condi\u00e7\u00f5es de bancar o pr\u00f3prio desejo. Uma das formas de realizar um desejo sem ter que banc\u00e1-lo \u00e9 terceirizar o desejo, ou imagin\u00e1-lo como uma imposi\u00e7\u00e3o externa. Ricardo terceiriza seu desejo de pertencimento para a mulher. Nada mais \u00fatil a um escritor desprendido do que uma mulher ambiciosa. Ele \u00e9 uma dessas pessoas que est\u00e3o sempre fazendo as coisas pelas outras. Aquele tipo que casa com festa, mora em bairros caros e vai ao restaurante da Torre Eiffel, mas sempre \u201carrastado\u201d. Ele \u00e9 melhor do que a vida que leva.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O enredo do casamento por interesse se complica no caso da obra de Ricardo L\u00edsias pois tratamos aqui de uma mulher que se encontra em posi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica superior \u00e0 de seu alvo matrimonial e em situa\u00e7\u00e3o social semelhante \u00e0 dele. Mas Ricardo \u00e9 do tipo de homem que se considera portador de um tesouro m\u00edstico, que ele elabora vagamente como sendo seu capital cultural e seu falo. Para esse tipo de homem parece perfeitamente plaus\u00edvel que uma mulher com dois apartamentos se case por interesse com um homem sem poupan\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em alguns trechos do di\u00e1rio, a mulher parece inconformada com a situa\u00e7\u00e3o financeira de Ricardo: com sua falta de bens, com o fato de ele n\u00e3o poder pagar por determinados consumos que, na cabe\u00e7a dela, constituem a vida adulta e o casamento em si. Essas insatisfa\u00e7\u00f5es n\u00e3o parecem de ordem pr\u00e1tica, e, sim, fruto de uma cren\u00e7a mais profunda de que ter um homem que atenda a certos requisitos financeiros faz parte do pacote casamento. Ela escreve, por exemplo: \u201cFui eu que paguei o restaurante da Torre Eiffel e tamb\u00e9m o Alain Ducasse. Eu posso dizer que isso \u00e9 casamento?\u201d Em outros trechos, no entanto, ela se coloca como uma mulher extremamente independente e orgulhosa de seus feitos financeiros e profissionais. N\u00e3o se trata de uma mulher que queira casar com um homem rico para obter mais conforto ou distin\u00e7\u00e3o material, e sim de uma mulher que parece enxergar na pobreza uma diminui\u00e7\u00e3o do homem em si e que busca um casamento em que os pap\u00e9is de g\u00eanero sejam mantidos ao menos como encena\u00e7\u00e3o. Em suma, trata-se de uma mulher independente, mas que quer que o marido pague a conta do restaurante da Torre Eiffel, esse s\u00edmbolo f\u00e1lico em forma de ponto tur\u00edstico.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em dado momento, a protagonista afirma que casou com um escritor em busca de aventura, mas que Ricardo acorda todos os dias no mesmo hor\u00e1rio. O casamento com Ricardo era uma maneira de conciliar desejos contradit\u00f3rios. Se a pr\u00f3pria ideia de casamento traz uma no\u00e7\u00e3o enfadonha de seguran\u00e7a e estabilidade, o plano de casar <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">com um artista<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> vem para balancear a caretice e dar um pouco de a\u00e7\u00e3o. Ricardo, no entanto, frustra ambos os prop\u00f3sitos: n\u00e3o \u00e9 um homem do tipo provedor sequer em pequenos atos simb\u00f3licos como pagar uma conta de restaurante, tampouco traz aventura. \u00c9 um personagem que poderia trabalhar muito bem os conflitos do homem moderno, perdido em seus novos pap\u00e9is, tentando estabelecer uma forma de ser masculino que esteja menos associada ao ato de prover.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Me parece importante pensar na influ\u00eancia do editor nesse livro. Na segunda parte do romance, a reviravolta ficcionalizante empreendida pelo narrador cheira a encomenda de editor comprada pelo autor apenas para evitar cr\u00edticas (e processos). A m\u00e3o do editor entra mais incontestavelmente (e de modo desastrado, na minha opini\u00e3o), na contracapa do livro, onde se l\u00ea: \u201cCasado h\u00e1 quatro meses, o narrador de<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\"> Div\u00f3rcio<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> encontra acidentalmente o di\u00e1rio da esposa\u201d. Ora, se o di\u00e1rio foi encontrado <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">acidentalmente<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> ou de prop\u00f3sito me parece ser um dos problemas centrais do romance. Ter um narrador que n\u00e3o consegue admitir nenhum ato de vilania, nem mesmo o gesto de invadir a privacidade da mulher para pegar o di\u00e1rio e que conta uma hist\u00f3ria tortuosa para explicar como chegou ao di\u00e1rio \u00e9 a pista primordial de sua n\u00e3o confiabilidade. Fica dif\u00edcil lidar com um livro cuja quest\u00e3o central \u00e9 a parcialidade do narrador se n\u00e3o podemos contar sequer com a imparcialidade da orelha do livro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ricardo \u00e9 um personagem t\u00e3o incapaz de reconhecer responsabilidades que, diante do fato de que pegou o di\u00e1rio de uma outra pessoa e invadiu sua privacidade, pensa o seguinte: \u201cQue tipo de pessoa deixa no caminho do homem com quem se casou h\u00e1 quatro meses um di\u00e1rio com esse conte\u00fado? Repeti a pergunta v\u00e1rias vezes. Com quem me casei?\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O que chamo de reviravolta ficcionalizante na segunda metade do livro \u00e9 a s\u00fabita defesa (dentro do romance) de que o material que temos em m\u00e3os \u00e9 um material ficcional sendo que at\u00e9 ent\u00e3o o romance trabalhava com uma identifica\u00e7\u00e3o completa entre personagem e autor, com a aus\u00eancia de um filtro de fic\u00e7\u00e3o. Ou seja, havia um pacto autobiogr\u00e1fico na primeira metade que \u00e9 subitamente quebrado na segunda parte. Isso poderia ser interessante, se n\u00e3o fosse mal feito nem soasse a arremedo legalista. O livro muda de projeto e essa mudan\u00e7a \u00e9 mal arranjada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para piorar, tem toda aquela hist\u00f3ria de corrida meio Murakami brasileiro que n\u00e3o acho bem realizada. Cheira a autoajuda. A supera\u00e7\u00e3o da dor ps\u00edquica sendo materializada na supera\u00e7\u00e3o f\u00edsica do atleta \u00e9 muito clich\u00ea. A imagem das \u201cpernas fortes\u201d simbolizando a capacidade de andar com as pr\u00f3prias pernas \u00e9 bamba.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por fim, gostaria de falar sobre a conta dentro do di\u00e1rio, imagem que considero a mais forte e bem-sucedida do livro. Ricardo encontra o di\u00e1rio e entra no campo da pequenez num dia em que precisa pagar uma conta que se encontra justamente entre as p\u00e1ginas do di\u00e1rio. A conta no di\u00e1rio rebaixa a personagem feminina, mostra que ela est\u00e1 no reino do comezinho, do dia de semana, das contas a pagar. Um mundo onde o nosso Ricardo s\u00f3 d\u00e1 as caras para fazer antropologia.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(\u00e0s vezes Deus protege os incautos. 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