{"id":11161,"date":"2022-04-20T21:14:55","date_gmt":"2022-04-21T00:14:55","guid":{"rendered":"http:\/\/julianacunha.com\/blog\/?p=11161"},"modified":"2026-10-23T18:20:22","modified_gmt":"2026-10-23T21:20:22","slug":"tapa-buracos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/tapa-buracos\/","title":{"rendered":"Tapa buracos"},"content":{"rendered":"<p>\u00c0s vezes eu digo \u201ctchau\u201d e o meu marido escuta \u201ceu te amo\u201d, por isso responde \u201ceu tamb\u00e9m\u201d, em vez de me dar um \u201ctchau\u201d de volta.<\/p>\n<p>Mas quando outras pessoas dizem \u201ctchau\u201d, ele nunca confunde com \u201ceu te amo\u201d.<\/p>\n<p>Sabe por que isso acontece?<\/p>\n<p>Porque boa parte do nosso entendimento \u00e9 constru\u00edda por INFER\u00caNCIA.<\/p>\n<p>Em uma conversa, a gente n\u00e3o realmente escuta todos os fonemas que as pessoas pronunciam. Em uma leitura, n\u00e3o realmente lemos (nem muito menos entendemos) todas as palavras do texto. Sobretudo nas leituras\/escutas mais apressadas, a gente s\u00f3 tenta pegar o m\u00ednimo poss\u00edvel e resolve o restante com infer\u00eancias.<\/p>\n<p>Inferir nada mais \u00e9 do que completar lacunas de um texto.<\/p>\n<p>Isso vale tanto para lacunas deixadas propositadamente pelo autor quanto por lacunas criadas por falta de clareza do texto, por desconhecimento do leitor ou por algum erro na transmiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Se a gente n\u00e3o consegue entender direito um peda\u00e7o de uma fala, a gente vai l\u00e1 e infere o que teria sido dito.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 feito o tempo todo, n\u00e3o s\u00f3 com palavras.<\/p>\n<p>Estou t\u00e3o acostumada \u00e0s pessoas serem simp\u00e1ticas com o meu cachorro que quando ele vai cumprimentar algu\u00e9m e a pessoa faz um gesto defensivo ou de rejei\u00e7\u00e3o, eu demoro uns bons segundos para entender que aquilo n\u00e3o foi um carinho.<\/p>\n<p>Sabe por que isso acontece?<\/p>\n<p>Porque boa parte das nossas infer\u00eancias s\u00e3o feitas por EXPECTATIVA.<\/p>\n<p>Meu marido j\u00e1 espera que eu diga \u201ceu te amo\u201d pra ele, por isso tem mais chances de ouvir qualquer coisa saindo da minha boca e escutar \u201ceu te amo\u201d.<\/p>\n<p>Eu j\u00e1 espero que as pessoas sejam massa com o meu cachorro, por isso tendo a interpretar qualquer gesto em dire\u00e7\u00e3o a ele como sendo amig\u00e1vel.<\/p>\n<p>Quando n\u00e3o \u00e9 o caso, minha cabe\u00e7a d\u00e1 um tilt moment\u00e2neo at\u00e9 se ajustar a essa nova realidade.<\/p>\n<p>Nos dois casos que citei, as infer\u00eancias s\u00e3o perfeitamente l\u00f3gicas porque a expectativa do receptor da mensagem est\u00e1 baseada na FREQU\u00caNCIA.<\/p>\n<p>Como \u00e9 frequente que eu diga \u201ceu te amo\u201d pro J\u00falio, o c\u00e9rebro dele escuta uma palavra mal pronunciada qualquer e decodifica como \u201ceu te amo\u201d. Como \u00e9 frequente que as pessoas sejam fofas com o Palito, o meu c\u00e9rebro pega um empurr\u00e3ozinho qualquer que um desalmado deu nele e enxerga como um carinho.<\/p>\n<p>No primeiro exemplo que eu usei (tchau\/eu te amo), a infer\u00eancia ocorreu por um problema na transmiss\u00e3o da mensagem.<\/p>\n<p>O J\u00falio n\u00e3o conseguiu escutar o que eu realmente disse e tentou inferir o que teria sido pelo contexto + expectativas em rela\u00e7\u00e3o ao emissor.<\/p>\n<p>O segundo exemplo que eu usei foi uma cena em que o meu cachorro faz festa para um desconhecido na rua e a pessoa empurra ele de leve, num gesto de irrita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse exemplo \u00e9 bem diferente do primeiro \u2014 e n\u00e3o s\u00f3 porque um se refere a palavras e o outro a gestos. No caso do cachorro, n\u00e3o h\u00e1 nenhum problema na transmiss\u00e3o da mensagem: eu enxerguei a cena perfeitamente. O problema est\u00e1 na minha decodifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Basicamente, o meu c\u00e9rebro interpretou a cena antes de analis\u00e1-la. Quando a an\u00e1lise finalmente foi feita e o c\u00e9rebro entendeu que ela n\u00e3o correspondia \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o inicial, a\u00ed ele deu um pequeno tilt.<\/p>\n<p>\u00c9 prov\u00e1vel que gestos de rejei\u00e7\u00e3o sejam bem mais frequentes do que eu imagino. Minha expectativa de que o Palito ser\u00e1 sempre bem recebido \u00e9 t\u00e3o grande que o meu c\u00e9rebro nem deve se dar ao trabalho de analisar cada gesto de cada estranho que interage com ele: na maioria das vezes, ele deve se contentar com a infer\u00eancia.<\/p>\n<p>Tanto no exemplo do tchau quanto no exemplo do cachorro, a gente precisa entender que a infer\u00eancia \u00e9 feita pelo RECEPTOR da mensagem.<\/p>\n<p>Uma coisa inferida N\u00c3O est\u00e1 no texto. Pelo menos n\u00e3o de forma expl\u00edcita e indubit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea me disser: \u201cJuliana, eu te odeio\u201d, eu n\u00e3o posso\u00a0<em>inferir<\/em>\u00a0que voc\u00ea me odeia. Neste caso, o seu \u00f3dio estaria expresso com todas as letras.<\/p>\n<p>Para que eu infira que voc\u00ea me odeia, voc\u00ea precisaria dizer algo diferente de \u201ceu te odeio\u201d, mas que eu pudesse interpretar como sendo equivalente a \u201ceu te odeio\u201d com base no contexto e na minha expectativa em rela\u00e7\u00e3o a voc\u00ea (uma expectativa que \u2014 se estiver tudo certo com o meu psicol\u00f3gico \u2014 vai ter a ver com as minhas experi\u00eancias pr\u00e9vias contigo e com a probabilidade de voc\u00ea dizer algo assim).<\/p>\n<p>A infer\u00eancia \u00e9 a base da leitura. Sem ela, mal d\u00e1 para ler qualquer coisa, qui\u00e7\u00e1 ler direito.<\/p>\n<p>Quando ensino aos meus alunos de primeiro ano como ler um texto acad\u00eamico, vejo que a primeira dificuldade deles \u00e9 a recusa em fazer infer\u00eancias.<\/p>\n<p>Eles querem ser leitores totais. Querem entender\u00a0<em>todo<\/em>\u00a0o texto. Querem ser uma esp\u00e9cie de Funes, o memorioso, e empreender uma leitura do texto que seja igual ao texto si.<\/p>\n<p>Mas a leitura do texto n\u00e3o pode ser o texto.<\/p>\n<p>Quanto mais repert\u00f3rio (e criatividade) a gente tem, mais complexas e abundantes s\u00e3o as nossas infer\u00eancias.<\/p>\n<p>Quanto mais experi\u00eancia acumulamos com o emissor e com o contexto de produ\u00e7\u00e3o de um texto, mais f\u00e1cil fica essa tarefa.<\/p>\n<p>Mas um leitor competente n\u00e3o \u00e9 um mero tapador de buracos.<\/p>\n<p>Para ler direito, a pessoa precisa ter sempre em mente que os buracos foram tapados.<\/p>\n<p>Por ela.<\/p>\n<p>Com diferentes materiais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0s vezes eu digo \u201ctchau\u201d e o meu marido escuta \u201ceu te amo\u201d, por isso responde \u201ceu tamb\u00e9m\u201d, em vez de me dar um \u201ctchau\u201d de volta. 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