{"id":11219,"date":"2023-07-04T22:45:51","date_gmt":"2023-07-05T01:45:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/?p=11219"},"modified":"2026-10-24T00:38:32","modified_gmt":"2026-10-24T03:38:32","slug":"perigo-na-esquina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/perigo-na-esquina\/","title":{"rendered":"Perigo na esquina"},"content":{"rendered":"\n<p>A Volkswagen lan\u00e7ou uma propaganda em comemora\u00e7\u00e3o aos seus 70 anos no Brasil. O comercial consiste em um pastiche gerado por intelig\u00eancia artificial que coloca a cantora Elis Regina, morta h\u00e1 41 anos, ao lado de sua filha, Maria Rita.\u00a0<\/p>\n<p>No v\u00eddeo, m\u00e3e e filha cantam <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=gdgj1kYqiFI\">\u201cComo nossos pais\u201d<\/a>, um dos maiores sucessos da carreira de Elis. A ironia \u00e9 que todos os elementos da pe\u00e7a \u2014 sobretudo o fato de ela ser o elogio piegas de uma montadora de carros \u2014 v\u00e3o de encontro tanto \u00e0 mensagem da can\u00e7\u00e3o quanto \u00e0s posturas que a artista mantinha quando estava viva.\u00a0<\/p>\n<p class=\"jmpm-assine\">Obrigada por ler o J\u00e1 Matei Por Menos! Se quiser receber os pr\u00f3ximos posts, \u00e9 s\u00f3 deixar o e-mail aqui embaixo &lt;3 <a href=\"https:\/\/julianacunha.substack.com\/subscribe\">Assine a newsletter<\/a><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"VW 70 anos | Gera\u00e7\u00f5es | VW Brasil\" width=\"604\" height=\"340\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/aMl54-kqphE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Se algu\u00e9m quiser dignificar o filistinismo publicit\u00e1rio, pode dizer que se trata de uma m\u00fasica contrapont\u00edstica, como s\u00e3o chamadas as trilhas sonoras que entram em contradi\u00e7\u00e3o deliberada com aquilo que \u00e9 apresentado na cena de um filme. O mais prov\u00e1vel, no entanto, \u00e9 que nenhum dos envolvidos tenha entendido e\/ou se importado com o fato de que tudo naquela propaganda entra em choque com o trabalho, com a carreira e com a postura pol\u00edtica de Elis. Nem mesmo seus tr\u00eas herdeiros: os filhos Jo\u00e3o Marcello B\u00f4scoli, Pedro Mariano e Maria Rita, que autorizaram a pe\u00e7a e lucraram com ela.\u00a0<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m sabe o que Elis Regina estaria fazendo hoje, caso n\u00e3o tivesse morrido aos 36 anos, nem o que ela pensaria da vida. Mas, em 1979, Elis estava cantando de gra\u00e7a no Show de Maio: um evento para arrecadar dinheiro para o fundo de greve dos metal\u00fargicos do ABC. Antigamente, os mortos n\u00e3o reviam suas posi\u00e7\u00f5es, de modo que, antigamente, Elis passaria toda sua longa morte cantando a greve e os trabalhadores, e dificilmente teria tempo de cantar tamb\u00e9m as montadoras de carro.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Elis Regina e Jo\u00e3o Bosco | O Rancho Da Goiabada (Show De Maio, 1979)\" width=\"604\" height=\"340\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/RucnlVDnQwI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u00c9 preciso muita tecnologia para levantar os mortos de suas tumbas e convenc\u00ea-los a encenar sua pr\u00f3pria farsa. A AlmapBBDO, ag\u00eancia de publicidade respons\u00e1vel pela pe\u00e7a, explicou que a pe\u00e7a utilizou uma tecnologia de redes neurais artificiais conectada a uma dubl\u00ea. No momento da edi\u00e7\u00e3o, a atriz foi substitu\u00edda por sons e imagens gerados a partir de um banco de dados com v\u00eddeos da cantora morta.\u00a0<\/p>\n<p>Esteticamente, n\u00e3o ficou grande coisa, mas o circo chamou aten\u00e7\u00e3o por empregar uma tecnologia de ponta chamada de \u201credes advers\u00e1rias generativas\u201d (generative adversarial networks), mobilizando duas intelig\u00eancias artificiais de fam\u00edlias diferentes: uma para encaixar o som da dublagem (e que \u00e9 chamada de \u201cdeep dub\u201d) e outra para gerar as imagens (e que \u00e9 sintomaticamente batizada de \u201cdeep fake\u201d).<\/p>\n<p>\u00c9 doido como antes voc\u00ea podia herdar o LEGADO de um artista. Ou seja, o que aquela pessoa fez e deixou para a posteridade. Isso j\u00e1 era um conceito dif\u00edcil de defender, e dava aos herdeiros o poder de ressignificar a obra do artista de muitas formas, fazendo-a parecer maior e mais importante ou \u2014 mais frequentemente \u2014 apequenando-a.\u00a0<\/p>\n<p>Sempre teve herdeiro publicando coisas que o artista ativamente decidiu descartar, expondo o que ele passou a vida tentando superar, promovendo edi\u00e7\u00f5es question\u00e1veis, enriquecendo \u00e0s custas da vergonha alheia, reduzindo tudo a ca\u00e7a-n\u00edquel.\u00a0<\/p>\n<p>Agora \u00e9 mais grave porque j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 \u201cs\u00f3\u201d uma quest\u00e3o de selecionar, dispor e associar a obra do artista da forma que lhe parecer conveniente. Agora voc\u00ea pode efetivamente produzir coisas NOVAS. Pode herdar o ba\u00fa do Kafka e ainda ir socando coisas l\u00e1 dentro.\u00a0<\/p>\n<p>Agora at\u00e9 os mortos produzem: isto que \u00e9 a imensa sacanagem.\u00a0<\/p>\n<p>Na \u00e9poca em que o capitalismo amea\u00e7a prescindir do trabalho dos vivos, tudo o que a gente mais precisava era de um deepfake em que Elis Regina canta a novidade dos patr\u00f5es.\u00a0<\/p>\n<p class=\"jmpm-assine\">Obrigada por ler o J\u00e1 Matei Por Menos! Se quiser receber os pr\u00f3ximos posts, basta deixar seu e-mail aqui embaixo &lt;3 <a href=\"https:\/\/julianacunha.substack.com\/subscribe\">Assine a newsletter<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J&#225; n&#227;o &#233; preciso estar vivo para mudar de ideia<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[96],"tags":[],"class_list":["post-11219","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-newsletter"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11219","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11219"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11219\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11220,"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11219\/revisions\/11220"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11219"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11219"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11219"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}