{"id":127,"date":"2014-10-26T13:16:27","date_gmt":"2014-10-26T15:16:27","guid":{"rendered":"http:\/\/julianacunha.com\/nonada\/?p=127"},"modified":"2026-10-23T18:25:37","modified_gmt":"2026-10-23T21:25:37","slug":"fora-das-urnas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/fora-das-urnas\/","title":{"rendered":"Fora das urnas"},"content":{"rendered":"<p>Alguns dos racioc\u00ednios mais obtusos que ouvi durante esse processo eleitoral estavam relacionados \u00e0 forma como as pessoas se comportam na internet durante as elei\u00e7\u00f5es. De listas estilo BuzzFeed com regras de conduta a consultores de etiqueta do Twitter, muitos pareciam concordar que fazer campanha em redes sociais n\u00e3o adianta. Um site de not\u00edcias falsas fez uma manchete dizendo: \u201cConvencidos por amigos, eleitores de Dilma votar\u00e3o em A\u00e9cio e de A\u00e9cio, em Dilma\u201d. Outro site fez um meme com os dizeres: \u201cMudei meu voto por conta do seu text\u00e3o de Facebook, disse ningu\u00e9m\u201d. Partid\u00e1rios da *vida real* insistiam para que \u201csa\u00edssemos das redes sociais\u201d e f\u00f4ssemos influenciar \u201cpessoas de verdade\u201d, essa entidade c\u00f3smica que vaga pelas ruas, toma sorvetes e faz compras.<\/p>\n<p>H\u00e1 alguns problemas conceituais por tr\u00e1s dessa l\u00f3gica de que a milit\u00e2ncia virtual \u00e9 inconveniente e ineficaz. O primeiro \u00e9 a divis\u00e3o r\u00edgida entre mundo virtual e f\u00edsico, como se a internet j\u00e1 n\u00e3o tivesse vazado, como se n\u00e3o fosse a conex\u00e3o mais estreita com o real para boa parte de n\u00f3s, inclusive para aqueles que vagam por ruas, tomam sorvetes e fazem compras. Diz isso quem perdeu o bonde do Zeitgeist e n\u00e3o percebe que \u2014 em 2014, em um grande centro urbano brasileiro \u2014 a internet \u00e9 o lugar onde voc\u00ea influencia o voto de mais gente, exceto, talvez, pelo seu local de estudo e trabalho.<\/p>\n<p>O segundo problema \u00e9 a cren\u00e7a de que devemos ser <a href=\"http:\/\/dinamicadebruto.wordpress.com\/category\/os-adequadinhos\/\" target=\"_blank\">adequadinhos<\/a>, devemos levar a vida de modo a causar o m\u00ednimo de dist\u00farbio e desconforto para os demais, devemos erguer a exist\u00eancia em torno do nobre objetivo de evitar atrito. A etiqueta, essa tentativa de pasteuriza\u00e7\u00e3o de qualquer atividade humana, diz que \u00e9 deselegante ser a pessoa que defende demais um candidato. Idealmente, se anule. Se n\u00e3o for poss\u00edvel, coloque suas posi\u00e7\u00f5es de modo discreto e paumolecente.<\/p>\n<p>O terceiro problema est\u00e1 na ideia de que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel influenciar os amigos pois cada um tem sua opini\u00e3o e ningu\u00e9m vai mudar por conta do seu \u201ctext\u00e3o de Facebook\u201d. Gosto desse termo que come\u00e7aram a usar, \u201ctext\u00e3o de Facebook\u201d. O advento da timeline \u00e9 uma das poucas coisas legais do Facebook porque estimulou pessoas que jamais pensaram em ter um blog a escreverem mais longamente e compartilharem suas an\u00e1lises. O termo, no entanto, deixa claro que isso \u00e9 uma subvers\u00e3o dos prop\u00f3sitos dessa rede social, feita para divulga\u00e7\u00e3o de fotos e relatos concisos sobre como anda o seu umbigo. Se ouvir a opini\u00e3o de seus conhecidos sobre os candidatos n\u00e3o te influencia, ent\u00e3o eu n\u00e3o sei o que mais te influenciaria. Ver transeuntes com adesivos no peito? Assistir propagandas eleitorais em que candidatos seguram as m\u00e3os de velhinhas em casebres? Ficar parado no tr\u00e2nsito por conta de uma passeata? Acredito em todas essas velhas t\u00e1ticas da campanha pol\u00edtica, mas n\u00e3o vejo nada mais pessoal, profundo e eficiente do que entrar em contato com a opini\u00e3o de gente que voc\u00ea de fato conhece e respeita (ao menos o suficiente para manter na sua lista) e debater com essas pessoas. N\u00e3o se trata de convencer \u2014 Saramago chama aten\u00e7\u00e3o para o fato de que \u201cconvencer \u00e9 uma falta de respeito, uma tentativa de coloniza\u00e7\u00e3o do outro\u201d \u2014, mas de influenciar. No primeiro turno, votei em Luciana Genro amplamente influenciada por text\u00f5es de Facebook de um amigo. No segundo turno, quase votei nulo por conta de text\u00f5es de outra amiga (quando a urna me encarou nesta manh\u00e3 de domingo, no entanto, bateu uma consci\u00eancia de classe pequeno burguesa e os dedos, quase sozinhos, votaram no 13).<\/p>\n<p>A ideia de que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel influenciar o outro est\u00e1 ligada ao quarto problema conceitual: o de que o voto \u00e9 decidido no v\u00e1cuo. Para essa concep\u00e7\u00e3o, o eleitor ideal \u00e9 aquele que senta em uma tarde de domingo, analisa friamente as propostas de cada partido, faz um teste virtual que lhe diz qual o candidato mais alinhado \u00e0s suas ideias, l\u00ea um relat\u00f3rio sobre desvios de conduta de cada indiv\u00edduo e define sua irrevog\u00e1vel posi\u00e7\u00e3o. Esse eleitor ideal n\u00e3o se relaciona afetivamente com partidos, candidatos, com o notici\u00e1rio e com os demais eleitores. Ele \u00e9 senhor de seu voto, um sujeito sem hist\u00f3ria que chega de Marte \u00e0s v\u00e9speras da elei\u00e7\u00e3o e faz escolhas baseadas em fatos.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m observou no Twitter que durante as manifesta\u00e7\u00f5es de junho do ano passado, o que mais se ouvia de gente pacata e ordeira era que \u201co nosso protesto faremos nas urnas\u201d. Durante as manifesta\u00e7\u00f5es anti-Copa, a mesma ladainha, \u201co nosso protesto faremos nas urnas\u201d. Agora, nas elei\u00e7\u00f5es, o coment\u00e1rio dessas mesmas pessoas era de que n\u00e3o aguentavam mais gente chata falando de elei\u00e7\u00e3o. Rs. A pessoa, no caso, observou isso como um movimento contradit\u00f3rio. Eu vejo como uma radicaliza\u00e7\u00e3o do quanto determinados tipos encerram nossa encena\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica \u00e0 urna enquanto objeto f\u00edsico. Para eles, nada de adesivos, panfletos, tr\u00e2nsito parado, nada de text\u00e3o no Facebook. Democracia se faz com assepsia. E urnas, que curiosamente me lembram da morte.<\/p>\n<p>PS: Sobre passeatas como forma de convencimento, o <a href=\"http:\/\/alexandresoaressilva.wordpress.com\/\" target=\"_blank\">Alexandre Soares Silva<\/a> tinha um texto maravilhoso dizendo que n\u00e3o entendia a passeata como argumento. N\u00e3o encontrei, ele tamb\u00e9m n\u00e3o encontrou, mas era algo como: &#8220;<span class=\"null\">N\u00e3o compreendo a caminhada como forma de argumento. &#8216;Voc\u00ea n\u00e3o pensa como eu penso? Mas p\u00f4, eu t\u00f4 andando!'&#8221;. <\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alguns dos racioc\u00ednios mais obtusos que ouvi durante esse processo eleitoral estavam relacionados \u00e0 forma como as pessoas se comportam na internet durante as elei\u00e7\u00f5es. De listas estilo BuzzFeed com regras de conduta a consultores de etiqueta do Twitter, muitos pareciam concordar que fazer campanha em redes sociais n\u00e3o adianta. 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