{"id":163,"date":"2014-10-30T17:28:42","date_gmt":"2014-10-30T19:28:42","guid":{"rendered":"http:\/\/julianacunha.com\/nonada\/?p=163"},"modified":"2026-10-23T18:25:33","modified_gmt":"2026-10-23T21:25:33","slug":"quemescreveoseculo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/quemescreveoseculo\/","title":{"rendered":"Quem escreve o s\u00e9culo 21"},"content":{"rendered":"<p>Acaba de ser <a href=\"http:\/\/cultura.estadao.com.br\/noticias\/literatura,livro-apresenta-101-escritores-contemporaneos,1583406\" target=\"_blank\">lan\u00e7ado<\/a> no Brasil um livro resenhando 101 autores contempor\u00e2neos entre os quais apenas 14 s\u00e3o mulheres. Isso significa que para cada 6,2 homens, os quatro organizadores do livro \u2014 dois deles do sexo feminino \u2014 s\u00f3 conseguiram pensar em uma mulher que merecesse figurar na colet\u00e2nea. O livro recebe o t\u00edtulo de <a href=\"http:\/\/www.dublinense.com.br\/livros\/por-que-ler-os-contemporaneos\/\" target=\"_blank\"><em>Por que ler os contempor\u00e2neos \u2014 Autores que escrevem o s\u00e9culo 21<\/em><\/a>, ao que se constata que o s\u00e9culo 21 \u00e9 um seriado com poucas roteiristas mulheres.<\/p>\n<p>Em casos assim, as pessoas geralmente adotam uma posi\u00e7\u00e3o <em>deixa disso<\/em>. H\u00e1 o <em>deixa disso<\/em> negacionista, para o qual n\u00fameros como esses s\u00e3o apenas uma coincid\u00eancia e ningu\u00e9m pode fazer nada se esses homens (e aqueles, e aqueles outros) calharam de escrever melhor; e h\u00e1 o <em>deixa disso<\/em> esclarecido, que geralmente apela para a base e diz que \u00e9 tudo <em>um problema de base<\/em>, que n\u00fameros assim refletem uma realidade, que \u00e9 preciso combater a realidade, n\u00e3o os <em>sintomas<\/em>. Dentro dessa l\u00f3gica, mulheres n\u00e3o foram incentivadas a escrever, n\u00e3o tiveram chances, por isso hoje n\u00e3o temos tantas escritoras boas, mas pode aguardar que na pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o ser\u00e1 diferente. Para esta gera\u00e7\u00e3o resta, sei l\u00e1, fazer oficinas de escrita criativa para meninas de sete anos e resenhar os livros dos caras.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 que, n\u00e3o, nem todos os problemas est\u00e3o <em>na base<\/em>. Mulheres s\u00e3o maioria entre os estudantes universit\u00e1rios, mas n\u00e3o entre os professores. S\u00e3o maioria entre os leitores, mas n\u00e3o entre os escritores. Certos problemas residem justamente no topo. Al\u00e9m disso, h\u00e1 de se usar uma vis\u00e3o mais dial\u00e9tica: alguns problemas <em>de base<\/em> se acertam mais rapidamente quando ajustamos o topo.<\/p>\n<p>\u00c9 melanc\u00f3lico o dia em que voc\u00ea descobre que o c\u00e2none n\u00e3o \u00e9 definido por concurso p\u00fablico e que a m\u00e3o invis\u00edvel da fama liter\u00e1ria \u00e9 quase t\u00e3o desastrada quanto a da economia na hora de selecionar quem ser\u00e1 estudado, publicado e lido e quem servir\u00e1 de comida \u00e0s tra\u00e7as. Quest\u00f5es comezinhas como CEP, quem possui os direitos da obra, n\u00edvel de amabilidade dos herdeiros, quem levou uma vida fotog\u00eanica e o que o autor trazia entre as pernas s\u00e3o crit\u00e9rios de desempate que garantem que escritores talentosos de determinada configura\u00e7\u00e3o privilegiada levem a melhor contra seus pares menos hegem\u00f4nicos. Ignorar as vantagens de um grupo e tentar avaliar o que quer que seja como se n\u00e3o houvesse hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 isen\u00e7\u00e3o, \u00e9 reafirma\u00e7\u00e3o do status quo. Tem uma frase do Lotfallah Soliman, se n\u00e3o me engano, que diz \u201cn\u00e3o existe p\u00e1gina em branco, nunca existiu\u201d. Ao dizer que uma colet\u00e2nea assim deveria incluir mais mulheres n\u00e3o estou dizendo que escritores homens deveriam ser &#8220;prejudicados&#8221; para dar espa\u00e7o a escritoras medianas; que os editores deveriam &#8220;fazer de conta&#8221; que a produ\u00e7\u00e3o feminina \u00e9 t\u00e3o boa quanto a masculina. O que estou dizendo \u00e9 que me recuso a acreditar que tenhamos t\u00e3o poucas mulheres merecedoras de aparecer numa lista dessas. Para citar apenas alguns exemplos, acredito que escritoras como Veronica Stigger,\u00a0Valeria Luiselli e\u00a0Guadalupe Nettel n\u00e3o devam em nada a escritores como Marcelino Freire, Michael Chabon e Bernardo Carvalho. Mas eles figuram na lista. Elas, n\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu estava tendo essa discuss\u00e3o com uma mo\u00e7a no Twitter. Segundo ela, seria leviano da minha parte dizer que os organizadores exclu\u00edram mulheres. Eles n\u00e3o exclu\u00edram, esclareceu minha interlocutora, apenas n\u00e3o usaram g\u00eanero como crit\u00e9rio. Ela tamb\u00e9m me informou que v\u00e1rias das resenhistas do livro eram mulheres, o que eliminaria qualquer possibilidade de \u201cm\u00e1 vontade\u201d com o g\u00eanero feminino; ao que eu perguntei se a diagramadora e a revisora tamb\u00e9m eram mulheres porque estou segura de que um livro sobre escritores contempor\u00e2neos que contempla uma diagramadora mulher certamente n\u00e3o pode ser acusado de machismo.<\/p>\n<p>Quando voc\u00ea est\u00e1 discutindo com outra mulher e em dado momento ela diz &#8220;sou mulher&#8221;, como se voc\u00ea n\u00e3o estivesse vendo isso, como se voc\u00ea n\u00e3o tivesse um arcabou\u00e7o cultural que lhe assegura que sujeitos com aquela configura\u00e7\u00e3o sejam mulheres, note que o que ela est\u00e1 fazendo \u00e9 reiterando que, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, o sujeito que emite aquele discurso obviamente contr\u00e1rio aos interesses das mulheres \u00e9 uma mulher!<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de dizer que essas mulheres (ou negros, ou gays) sejam machistas (ou racistas, ou homof\u00f3bicos). N\u00e3o se pode exercer opress\u00e3o apenas com palavras, \u00e9 preciso falar de uma determinada posi\u00e7\u00e3o que elas n\u00e3o ocupam. O que elas est\u00e3o fazendo, no entanto, \u00e9 reproduzir o discurso de um outro g\u00eanero de modo t\u00e3o radical na tentativa de se afiliarem a esse g\u00eanero que em determinado momento precisam nos lembrar de que n\u00e3o pertencem a ele. Porque, discursivamente, trabalham duro para pertencer.<\/p>\n<p>Um livro com \u201cescritores que escrevem o s\u00e9culo 21\u201d que inclui apenas uma mulher para cada 6,2 homens \u00e9 um livro bastante realista e conectado ao seu tempo. Acho mesmo que, para cada mulher escrevendo a hist\u00f3ria hoje, temos ao menos 6,2 homens escrevendo por cima. Ser mais realista que o rei, no entanto, \u00e9 apenas outra forma de assinar embaixo da ordem estabelecida. De que vale ser realista quando a realidade n\u00e3o nos conv\u00e9m?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acaba de ser lan\u00e7ado no Brasil um livro resenhando 101 autores contempor\u00e2neos entre os quais apenas 14 s\u00e3o mulheres. Isso significa que para cada 6,2 homens, os quatro organizadores do livro \u2014 dois deles do sexo feminino \u2014 s\u00f3 conseguiram pensar em uma mulher que merecesse figurar na colet\u00e2nea. 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