{"id":20,"date":"2014-10-20T05:38:17","date_gmt":"2014-10-20T07:38:17","guid":{"rendered":"http:\/\/julianacunha.com\/nonada\/?p=20"},"modified":"2026-10-23T18:25:47","modified_gmt":"2026-10-23T21:25:47","slug":"pinauna","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/pinauna\/","title":{"rendered":"Pina\u00fana"},"content":{"rendered":"<p>Uma vez tentei pegar uma concha na praia e era uma \u00e1gua-viva. Minha m\u00e3o queimou e meu primo teve que fazer xixi nela. Demorei v\u00e1rios minutos para assumir que tinha confundido a \u00e1gua-viva com uma concha e pedir ajuda. Pedir ajuda, no caso, significava consultar os demais, perguntar quem ali estava com a bexiga cheia. Meu problema nunca foi pedir que mijassem em mim, mas assumir que tinha agido como a pi\u00e1 de pr\u00e9dio que de fato era e agarrado a \u00e1gua-viva com a m\u00e3o espalmada, cheia de inten\u00e7\u00e3o. N\u00e3o contei toda a verdade: disse que a concha que eu procurava estava debaixo da medusa. Ali, parada, com seu pequeno arco-\u00edris formado pelo sol, a \u00e1gua-viva parecia uma resistente bolha de sab\u00e3o.<\/p>\n<p>Era um ver\u00e3o em Itaparica em que inventamos de encher garrafas pet com conchas e vender entre os veranistas. Nunca fomos crian\u00e7as empreendedoras, n\u00e3o sei de onde veio essa coisa das conchas. Era quase como vender areia na praia. Naquele ano, as conchas invadiam a orla, formando uma cal\u00e7ada de pequenos paralelep\u00edpedos junto \u00e0 espuma. Com muito cuidado, era poss\u00edvel caminhar sobre elas sem melar o p\u00e9 de areia. Uma cliente em potencial chamou aten\u00e7\u00e3o para o fato. \u201cSe eu quisesse essas conchas, eu mesma catava\u201d. Era uma \u00e9poca em que n\u00e3o se vendia ma\u00e7\u00e3s lavadas em embalagens da Turma da M\u00f4nica nem mini-cenouras que na verdade s\u00e3o apenas cenouras em peda\u00e7os, pateticamente esculpidas como se fossem cenouras em miniatura. Se fosse hoje, talvez tiv\u00e9ssemos mais sorte com nosso tino comercial. As conchas, afinal, eram lavadas e embaladas. Selecionadas, at\u00e9, \u00e0 maneira que tudo na vida \u00e9 sele\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Aquele ver\u00e3o teve v\u00e1rias coisas que n\u00e3o se encaixavam. Em contraste com o \u00edmpeto empresarial e adultinho da venda das conchas, houve o epis\u00f3dio em que eu e minhas primas g\u00eameas partimos em busca do horizonte com uma prancha de pegar jacar\u00e9, num hor\u00e1rio de mar\u00e9 baixa. Era madrugada e a areia encontrava um sert\u00e3o de forma\u00e7\u00f5es rochosas. S\u00f3 l\u00e1 no fundo \u00e9 que dava para ver o mar. Parecia as praias de Aracaj\u00fa, onde a faixa de areia \u00e9 t\u00e3o extensa que d\u00e1 pregui\u00e7a de alcan\u00e7ar a \u00e1gua. Fomos andando pelas pedras, andando e andando. No meio do caminho \u2014 no que pens\u00e1vamos ser o meio do caminho \u2014 Luana pisou em uma pina\u00fana. Nem isso faliu a empreitada. Arrastamos a prancha com a doente at\u00e9 a mar\u00e9 subir e nos descobrirmos no meio do mar, muito longe das barracas que come\u00e7avam a levantar. Se n\u00e3o morremos \u00e9 porque nad\u00e1vamos bem.<\/p>\n<p>Em dia de mar\u00e9 brava, meu pai nos levava a alguma praia de mar aberto, como as de Amaralina e Arma\u00e7\u00e3o. Nos soltava sem uma palavra de precau\u00e7\u00e3o. Nunca fui observadora, s\u00f3 percebia o perigo quando vinha o primeiro caldo. Minha irm\u00e3 reconhecia o truque, se entediava com aquele arremedo de ensinamento e ficava na areia, fingindo falta de vontade. No Porto da Barra o mar era calmo, mas a correnteza e as brincadeiras moviam os pais da gente para a direita, at\u00e9 se perderem de vista. Era bom sair do mar e notar que estava sendo cuidada por outros pais, que aqueles que olhavam em dire\u00e7\u00e3o ao mar (em dire\u00e7\u00e3o a mim) eram pais de outras crian\u00e7as, igualmente perdidas diante de outros pais.<\/p>\n<p>O estilo de cria\u00e7\u00e3o de meus pais consistia em levar as filhas para a praia \u00e0s dez horas do s\u00e1bado, passar uma camada fina de filtro solar e recolh\u00ea-las esturricadas \u00e0s quatro da tarde, quando \u00edamos almo\u00e7ar no Yemanj\u00e1. Caruru, vatap\u00e1, comida de dend\u00ea. Com\u00edamos de biqu\u00edni em um restaurante. Ser banhista era uma condi\u00e7\u00e3o. Lembro que no meu primeiro ano em S\u00e3o Paulo eu olhava com humor para as garagens dos pr\u00e9dios, sentindo falta da plaquinha que avisava: \u201cEntrada de banhistas\u201d. Depois do almo\u00e7o \u2014 sempre arrastado \u2014, as crian\u00e7as entravam em um coma induzido por sol e azeite e s\u00f3 se recuperavam na segunda-feira, para ir \u00e0 escola. N\u00e3o sei em que momento ter filhos deixou de ser gritar para que ningu\u00e9m sujasse o carro de areia e passou a ser montar murais de festas artesanais no Pinterest. Esse assunto de filhos me incomoda: nele eu sou a pessoa que lamenta a mudan\u00e7a das sensibilidades. Me ressinto. Talvez isso indique que em muitos assuntos eu seja essa pessoa.<\/p>\n<p>De algum modo, Marina sobreviveu \u00e0quele ver\u00e3o. A mais nova, a \u00fanica loira, a riquinha, a desgarrada, a que era meio carioca, meio ga\u00facha. A que a m\u00e3e ganhava mais que o pai. Um dia, em alto mar, nos revez\u00e1vamos para subir na \u00fanica prancha dispon\u00edvel. Eramos sete crian\u00e7as. Nossos mai\u00f4s, originalmente neons, iam ganhando tons pasteis, descoloridos pelo sol e elastecidos pelo uso. Fic\u00e1vamos todos ao redor da prancha e s\u00f3 um subia nela, para descansar. Era uma prancha feia, com um desenho do Godzilla que destoava do clima tropical. Faz\u00edamos esse rod\u00edzio no intuito de irmos cada vez mais para o fundo sem necessariamente morrermos. Uma hora, Marina n\u00e3o aguentava mais de sol e cansa\u00e7o e come\u00e7ou a reclamar. Em dado momento, Luana explodiu: \u201cCala a boca, carioca chata\u201d. Virou a hero\u00edna instant\u00e2nea das f\u00e9rias. Anos depois, enquanto assist\u00edamos <em>Titanic<\/em>, sentadas no ch\u00e3o de um cinema horr\u00edvel, Marina perguntou por que Jack e Rose n\u00e3o se revezavam na t\u00e1bua de madeira. Eu ri pra ela e respondi: \u201cCala a boca, carioca chata\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma vez tentei pegar uma concha na praia e era uma \u00e1gua-viva. Minha m\u00e3o queimou e meu primo teve que fazer xixi nela. Demorei v\u00e1rios minutos para assumir que tinha confundido a \u00e1gua-viva com uma concha e pedir ajuda. Pedir ajuda, no caso, significava consultar os demais, perguntar quem ali estava com a bexiga cheia. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-20","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10283,"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20\/revisions\/10283"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}