{"id":378,"date":"2015-02-22T16:55:17","date_gmt":"2015-02-22T19:55:17","guid":{"rendered":"http:\/\/julianacunha.com\/nonada\/?p=378"},"modified":"2026-10-23T18:25:25","modified_gmt":"2026-10-23T21:25:25","slug":"teto-solar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.juliana-cunha.com\/blog\/teto-solar\/","title":{"rendered":"Teto solar"},"content":{"rendered":"<p>Uma das cr\u00edticas mais frequentes ao cinema de den\u00fancia social \u00e9 a de que ele \u00e9 did\u00e1tico. Em <em>Dois dias, uma noite<\/em>, no entanto, os irm\u00e3os Dardenne se atrevem a fazer um filme quase t\u00e3o did\u00e1tico quanto as pe\u00e7as did\u00e1ticas de Brecht e nenhuma cr\u00edtica ousa acus\u00e1-los de didatismo como se isso fosse um defeito em si.<\/p>\n<p><em>Dois dias, uma noite<\/em> \u00e9 did\u00e1tico porque precisa nos explicar muito lentamente o que h\u00e1 tempos esquecemos: que trabalhadores s\u00e3o pessoas; que pessoas s\u00e3o feitas de carne e osso; que por tr\u00e1s das embroma\u00e7\u00f5es e tucanagens de nossos esquemas de trabalho impessoais e distanciados h\u00e1 vidas humanas e necessidades materiais.<\/p>\n<p>No filme, Marion Cotillard \u00e9 Sandra, uma oper\u00e1ria que acabou de voltar ao trabalho ap\u00f3s um per\u00edodo de afastamento por conta de uma depress\u00e3o. Durante sua aus\u00eancia, o dono da pequena f\u00e1brica de tetos solares onde ela trabalha descobre que os dezesseis funcion\u00e1rios que lhe restaram podem muito bem dar conta do servi\u00e7o, ainda que todos estejam fazendo hora extra por isso. Ele decide ent\u00e3o fazer uma vota\u00e7\u00e3o para que os funcion\u00e1rios escolham se preferem ganhar um b\u00f4nus e demitir a colega ou ficar com a colega e sem b\u00f4nus. Ou seja: o patr\u00e3o terceiriza para os trabalhadores o fardo da demiss\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 ele quem demite, s\u00e3o os colegas.<\/p>\n<p>A vota\u00e7\u00e3o \u00e9 feita pelas costas de Sandra e o chefe, Jean-Marc, diz a alguns oper\u00e1rios que o patr\u00e3o quer fazer cortes de todo modo e que se n\u00e3o for Sandra depois ser\u00e1 um deles. N\u00e3o surpreendentemente, o abono ganha por quatorze votos a dois e Sandra \u00e9 demitida. Gra\u00e7as \u00e0 press\u00e3o de uma colega, o patr\u00e3o concorda em refazer a vota\u00e7\u00e3o na segunda-feira e Sandra tem um fim de semana \u2014 dois dias e uma noite \u2014 para tentar reverter sua demiss\u00e3o. De novo, o patr\u00e3o terceiriza o trabalho sujo: ele se coloca como o conciliador, o sujeito que deixa Sandra refazer sua vota\u00e7\u00e3o, que respeita a &#8220;livre escolha&#8221; dos funcion\u00e1rios enquanto Jean-Marc, o chefe, tem que fazer lobbies e amea\u00e7as para garantir que o resultado da segunda vota\u00e7\u00e3o seja o mesmo da primeira.<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia de Sandra \u00e9 personalizar as coisas, \u00e9 retirar o v\u00e9u de impessoalidade que permite que os colegas tomem decis\u00f5es sem pensar nela. Ela tenta ir \u00e0 casa de cada um dos dezesseis colegas repetir o mesmo argumento: \u201cEu sei que um b\u00f4nus de mil euros \u00e9 muito dinheiro, mas para mim \u00e9 o meu emprego. Quero ficar com voc\u00eas, n\u00e3o sozinha, no desemprego\u201d. A defini\u00e7\u00e3o do desemprego como um estado de solid\u00e3o \u00e9 a mais tocante e precisa que j\u00e1 ouvi. O que Sandra tenta fazer nada mais \u00e9 do que recordar os colegas de sua materialidade e de sua humanidade. \u201cEu n\u00e3o existo\u201d \u00e9 uma frase que ela repete algumas vezes.<\/p>\n<p>O filme \u00e9 quase que puramente descritivo \u2014 o que vemos \u00e9 Sandra indo de casa em casa, parando para almo\u00e7ar, para comprar uma \u00e1gua \u2014, mas Foucault j\u00e1 disse que &#8220;a descri\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 reprodu\u00e7\u00e3o, \u00e9 decifra\u00e7\u00e3o&#8221;. \u00c9 atrav\u00e9s dessa repeti\u00e7\u00e3o de gestos e falas que vamos problematizando o discurso de Sandra, as respostas dos colegas. Alguns s\u00e3o violentos, agressivos, a tratam como pedinte. Outros sentem culpa, pedem perd\u00e3o. Uns tentam explicar que precisam do dinheiro, outros dizem que sabem que devem ajud\u00e1-la porque Deus disse que devem ajudar o pr\u00f3ximo. Ela leva a disc\u00f3rdia por onde passa: causa brigas entre pais e filhos, marido e mulher. Uma das colegas acaba se separando do marido: uma vez que come\u00e7amos a lutar contra uma opress\u00e3o, \u00e9 dif\u00edcil nos submetermos \u00e0s outras. Para v\u00e1rios dos colegas, o fim de semana significa um outro per\u00edodo de trabalho. Uns consertam coisas, outros lavam roupas, alguns fazem bicos para complementar a renda. A precariza\u00e7\u00e3o\u00a0\u00e9 evidente na maior parte dos casos.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m levanta a possibilidade de uma greve. Ningu\u00e9m ousa propor\u00a0ter as duas coisa, o b\u00f4nus e a colega de volta. Mesmo entre as pessoas que decidem ajud\u00e1-la, as coisas s\u00e3o colocadas antes como um gesto de solidariedade pessoal do que como um ato pol\u00edtico de solidariedade de classe. Diferentemente do que ocorre em<em> As neves do Kilimanjaro<\/em> \u2014 outro filme mais ou menos recente que retrata um grupo de trabalhadores tendo que decidir a demiss\u00e3o de um deles \u2014 n\u00e3o h\u00e1 um sindicato, um discurso coletivista, os colegas n\u00e3o criam la\u00e7os entre si. Os trabalhadores s\u00e3o divididos internamente: h\u00e1 os funcion\u00e1rios de fato e os tempor\u00e1rios.<\/p>\n<p>No fim, a vota\u00e7\u00e3o \u00e9 refeita numa cena em que todos est\u00e3o uniformizados e apenas Sandra est\u00e1 apartada, num pren\u00fancio de solid\u00e3o que assume a forma de uma blusinha cor-de-rosa. O resultado \u00e9 um empate t\u00e9cnico, mas empate aqui significa vit\u00f3ria do patr\u00e3o. Jean-Marc pergunta se ela est\u00e1 satisfeita por ter dividido a equipe e causado desconforto. Num \u00faltimo gesto de generosidade, o patr\u00e3o chama Sandra, parabeniza-a por ter conseguido tantos votos e diz que n\u00e3o quer causar um mal-estar na equipe, por isso decidiu dar o b\u00f4nus e readmiti-la. A readmiss\u00e3o, no entanto, s\u00f3 ser\u00e1 feita dali a dois meses, quando o contrato de um dos tempor\u00e1rios vencer. At\u00e9 l\u00e1, ela estar\u00e1 \u201ctecnicamente desempregada\u201d. Sandra se nega a tomar a vaga de um colega. O patr\u00e3o diz que ele n\u00e3o ser\u00e1 demitido, o contrato apenas n\u00e3o ser\u00e1 renovado. Ela diz que \u00e9 a mesma coisa e vai embora, encarar um desemprego que agora talvez seja menos solit\u00e1rio.<\/p>\n<p>O sindicato que me representa se intitula \u201csindicato dos jornalistas profissionais\u201d, marcando uma divis\u00e3o artificial entre o que eles chamam de jornalistas profissionais (isto \u00e9, graduados em jornalismo), e a massa identificada como o c\u00e2ncer da profiss\u00e3o (isto \u00e9, gente como eu, que se formou em outras coisas ou sequer pisou na universidade, mas que ganha a vida como jornalista). Enquanto as grandes reda\u00e7\u00f5es do pa\u00eds demitem cerca de 20% dos trabalhadores ao ano, enquanto frila, frila fixo, pjotinha, gratifica\u00e7\u00e3o por fora, contrato tempor\u00e1rio, passaralho e terceiriza\u00e7\u00e3o fazem parte do vocabul\u00e1rio de todo rep\u00f3rter, enquanto \u00e9 cada vez mais dif\u00edcil encontrar um jornalista com mais de 50 anos numa reda\u00e7\u00e3o; o sindicato avalia que o alvo de suas campanhas deve ser a obrigatoriedade do diploma. Em vez de, vamos supor, organizar todos os jornalistas que trabalharam como PJ e frila fixo nos \u00faltimos cinco anos e entrar com um processo coletivo hist\u00f3rico contra os patr\u00f5es, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais se limita a imprimir cartazes cafonas com m\u00e3ozinhas agarradas a diplomas.<\/p>\n<p>Em profiss\u00f5es similares \u00e0 minha \u2014 redatores, revisores, tradutores, publicit\u00e1rios \u2014 o trabalho se torna cada vez mais <a href=\"https:\/\/dinamicadebruto.wordpress.com\/2012\/03\/07\/super-parametros-desativar\/\" target=\"_blank\">abstrato<\/a>, cheio de nuances e eufemismos. As pessoas nunca s\u00e3o desempregadas, s\u00e3o frila; nunca s\u00e3o empregadas, s\u00e3o colaboradoras; nunca s\u00e3o demitidas, os contratos \u00e9 que vencem. Michael Pollan costuma dizer que comida boa \u00e9 aquela que a sua av\u00f3 \u00e9 capaz de entender como comida. Para mim, emprego bom \u00e9 aquele que a sua av\u00f3 consegue entender como emprego, sem grande malabarismo ret\u00f3rico para explicar.\u00a0Acompanhar Sandra por dois dias e uma noite \u00e9 doloroso porque nos lembra de nossa materialidade em oposi\u00e7\u00e3o a um mundo do trabalho fantasmag\u00f3rico, nos lembra que ela existe e que n\u00f3s existimos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das cr\u00edticas mais frequentes ao cinema de den\u00fancia social \u00e9 a de que ele \u00e9 did\u00e1tico. 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