Problemas de Leitura

Jacques-Louis David (francês, 1748–1825). Madame François Buron, 1769. Óleo sobre tela, 66.3 × 55.5 cm. Instituto de Arte de Chicago.

Tati Bernardi comprou um martelo — e se ressente de situações que exigem qualquer outra ferramenta. A Boba da Corte, seu livro mais recente, é uma tentativa de politizar esse ressentimento em seis crônicas autobiográficas sobre seu próprio processo de ascensão social, partindo da classe média do Tatuapé rumo à elite de Higienópolis.

O argumento fundamental que informa todos os textos é o de que, embora tenha subido na vida e ocupe lugares de destaque graças a méritos e talentos objetivos e individuais, a autora nunca teria sido aceita por uma elite paulistana imaginária.

A premissa é errada em muitos níveis. É errada porque cria uma elite monolítica cujo único elemento de coesão é o desejo de excluir Tati Bernardi. É errada porque entra em contradição direta com o reconhecimento público que a própria autora exibe dentro e fora da obra. É errada porque combina uma leitura equivocada e instrumental de teorias e tradições que não se aplicam ao caso da heroína do livro com observações empíricas superficiais e mal interpretadas, quando não inverossímeis.

Essa maçaroca de distorções pode parecer inofensiva — afinal, cada um força a barra que pode para construir sua narrativa de superação. O problema é que o coitadismo de Tati tem mais ressonância social do que deveria, apoiando-se no sentimento de inadequação inerente a todo ser humano e no tradicional anti-intelectualismo brasileiro para promover uma inversão de valores já muito desgastados, começando pela própria ideia de meritocracia.

Não pretendo fazer uma análise propriamente literária do livro. O que desejo é explicar: a) por que as premissas de Tati não fazem sentido; b) como o livro se baseia em influências intelectuais que a autora claramente não domina; e c) por que a heroína que ela constrói não é uma vítima do elitismo paulistano, e sim uma rica mimada inconformada com o fato de que ainda haja alguma porta que não possa ser aberta simplesmente tacando dinheiro em cima.

Uma citação inadequada

O problema começa nas epígrafes, com citações a obras que a autora não leu ou não compreendeu. A primeira delas é ao romance Mudar: Método, de Édouard Louis. A segunda, ao livro A Teoria da Classe Inadequada, de Raffaele Alberto Ventura.

A citação a Ventura está simplesmente errada. Bernardi passou pela livraria, viu um livro com a palavra “inadequada” estampada na capa e pensou: “Poxa, é assim que me sinto, vou levar”. Na obra do ensaísta italiano, a inadequação é um conceito um pouco mais específico. Para ele, a classe inadequada seria formada por uma turma que investiu pesado em capital cultural nas últimas décadas, mas, de repente, se viu em um mercado de trabalho e em uma sociedade que já não estavam dispostos a premiar esse tipo de investimento. Essa classe seria inadequada porque teria aspirações burguesas em termos de consumo, reconhecimento e estabilidade, porém viveria em condições materiais muito semelhantes às do uberizado mais precário.

Esse descompasso brutal entre investimento em cultura e retorno econômico e simbólico geraria um bololô de rancor e frustração, fazendo com que essas pessoas se entregassem a uma competição cada vez mais feroz por oportunidades cada vez mais raras, que trariam recompensas cada vez menores.

O próprio Ventura se enxerga como parte dessa classe disagiata e não a romantiza. Sim, sim, é triste que os inadequados tenham recebido cartas tão fracas nesse jogo da vida. É triste perceber que, em décadas anteriores, eles teriam conseguido empregos decentes, espaços decentes e teriam se tornado intelectuais (provavelmente esquerdistas) decentes. A questão é que, diante da não concretização dessas expectativas, os inadequados não estão agindo de forma nem um pouco decente. Em vez de gerar belas lutas coletivas, essa frustração está instaurando um jogo sujo de todos contra todos.

“A classe inadequada está, ao mesmo tempo, convencida do destino de derrota que a espera e condenada a dar tudo numa competição desesperada”, diz Ventura, na epígrafe de Bernardi. Dar tudo de si não significa apenas se esforçar em dobro, mas também conceder em dobro, aceitar humilhações em dobro, atacar os concorrentes em dobro — e assim, ladeira abaixo. Ou seja, a classe inadequada não é uma “classe para si”, no sentido marxista — é uma multidão dispersa, esgotada e cada vez mais belicosa entre si.

O que essas ideias teriam a ver com a literatura em questão? Com os sofrimentos de nossa heroína publicitária, roteirista de comédias da Globo, universalmente injustiçada e incompreendida por parentes que assistem ao SBT, por cariocas desorientadas, por aristogatos de Higienópolis e por pobretões de Perdizes?

Na vida real, alguns dos vilões do livro provavelmente poderiam ser incluídos na classe inadequada de Ventura, mas não são definidos dessa forma na obra. Pelo contrário. Todos os personagens que têm ou parecem ter algum estofo intelectual são ridicularizados e postos como incompetentes por não terem conseguido transformar seu conhecimento em dinheiro. Tudo aquilo que Ventura trata como problema coletivo e dos tempos, Bernardi trata como preguiça e falta de talento por parte desses indivíduos, sempre invejosos de seu magnífico sucesso.

Para encaixar o conceito de Ventura nas crônicas de Bernardi, só estabelecendo uma oposição entre a narradora e os inadequados. Afinal, a classe pensada pelo italiano está com um problema de convertibilidade de capital cultural em capital econômico. Já a autora e sua heroína vivem o oposto disso. Bernardi é o milagre da multiplicação de um capital cultural pífio em uma quantidade desproporcional de capital econômico e simbólico.

Mas nada disso importa porque, na apropriação dadaísta da autora, a citação de Ventura fala sobre ela: sobre o desconforto que ela sente em qualquer meio social que não a aceite de modo imediato e irrestrito, independentemente do fato de não cumprir os requisitos dos clubes aos quais pleiteia acesso ou de desprezar seus membros, sua fundação e tudo o que eles representam.

Há uma elite que se importa com louças Vista Alegre. Outra que se deslumbra com a Galeria Uffizi. Outra com músculos e casa em Ilhabela. Parece até que, em uma delas, o legal é ser pobre, escrever livro encalhado e ter a pele oleosa. Na outra elite, basta ir ao Butantã duas vezes por semana e encomendar seu diploma de mestrado.

Bernardi fica indignada com tudo isso, mas não pelos motivos que você imagina. Para ela, a injustiça não está no preço da sopeira, dos hotéis de Florença ou da Bioritmo. Não está na falta inexplicável de uma estação de metrô dentro da Cidade Universitária. O escândalo é que não dá para passar tudo isso no débito. Veja você: além de ter o dinheiro da louça, a pessoa ainda tem de saber qual seria a marca bacana. Além da passagem, da hospedagem e da mensalidade do cursinho de História da Arte, ainda tem de fazer a maldita aula.

Mas quem disse que ela tinha de participar de algum desses rituais? Eles foram pré-requisitos para que conseguisse publicar seus livros, colunas, fazer seus filmes? Bernardi seria demitida da Globo, da Folha ou da agência do sei lá o quê caso descobrissem que ela não frequentou o Colégio Santa Cruz? Pois aqui começa a forçação de amizade com a chamada literatura dos trânsfugos (ou desertores) de classe, explicitada no livro pela epígrafe que cita Édouard Louis.

Uma vida que não era a dele

Narrativas sobre as agruras da mobilidade social são tão velhas quanto a própria mobilidade — O Vermelho e o Negro, O Jovem Werther, Jane Eyre, A Mão e a Luva. No entanto, um subgênero contemporâneo dessa literatura, bem diferente do romance de formação tradicional, ganhou notoriedade especialmente após Annie Ernaux ser laureada com o Prêmio Nobel, em 2022. Esse movimento tem sido chamado de “autoficção sociológica”, expressão usada pela própria Ernaux, ou de “auto-socioanálise”, nos termos de Didier Eribon, e inclui autores de origem francesa que narram suas próprias subidas na vida através de uma lente declaradamente bourdieusiana.

O que caracteriza esses autores é sua condição de trânsfugos de classe: indivíduos cuja saída da pobreza foi condicionada a uma traição das próprias origens e à reinvenção radical da própria identidade, apagando deliberadamente todos os traços que pudessem ligá-los aos seus mundos de origem. Seus narradores não apenas mudam de classe social, mas são obrigados a negar sua cultura anterior para serem aceitos em seus novos círculos.

É justamente o caso de Édouard Louis, que nasceu em uma vila operária em uma das partes mais pobres da França, filho de um ex-operário aposentado por invalidez e de uma dona de casa que às vezes fazia bico como doméstica. Massacrado pela pobreza e pela homofobia de seu meio, Louis enxergou na escola uma chance mínima de escapar daquilo tudo. Inteligente, ele logo percebeu que, para isso, não bastava estudar: era preciso corresponder à imagem altamente preconceituosa e estereotipada do que seria um aluno promissor. Na prática, era preciso parecer um menino burguês que acidentalmente nascera pobre, e não uma poc filha de operário.

Simultaneamente ao aprendizado escolar, Louis se dedicou ao currículo oculto de desaprender seus modos de comer, falar, gesticular e rir como o jovem provinciano, pobre e afeminado que era, e reaprender todas essas práticas corporais como o burguês parisiense e sofisticado que queria se tornar. Como um ator ensaiando um novo papel, foi se desvencilhando de qualquer traço físico, cultural e psicológico que pudesse conectá-lo a seus parentes e vizinhos. E foi assim que conseguiu se destacar na escola, atrair favores de professores, galgar vagas em liceus e terminar sua educação em universidades de prestígio.

Uma característica fundamental desse processo é que não bastava adicionar novos conhecimentos. Ele não tinha a opção de dominar ambos os códigos, de se tornar bilíngue, de transitar entre Hallencourt e Paris quantas vezes quisesse. O método exigia a negação absoluta da cultura anterior, de modo que seu mundo original se tornasse estranho para ele mesmo.

Assim, o preço pago pela ascensão social foi se transfigurar em outra pessoa, algo simbolizado dramaticamente pela mudança de nome que o transforma de Eddy Bellegueule, como foi batizado, em Édouard Louis. Não surpreendentemente, tudo isso lhe gerou uma baita cisão interna, como se fosse duas pessoas ao mesmo tempo, nenhuma delas especialmente verdadeira. Ele sente “como se vivesse uma vida que não era” a dele — como diz na epígrafe de A Boba da Corte —, porque deveria viver a vida de Eddy Bellegueule, quando está vivendo a de Édouard Louis.

Mas todo esse trabalho e toda essa violência ainda não bastavam. Mesmo o assassinato simbólico de sua identidade original não foi suficiente: seria preciso ocultar o cadáver de Eddy Bellegueule para o resto da vida, porque o que importava não era apenas dominar os códigos, mas conseguir convencer os outros de tê-los herdado naturalmente. Se as pessoas descobrissem que tudo aquilo foi intencionalmente aprendido, e não adquirido inconscientemente desde a infância, através do contato familiar, seus esforços seriam considerados mero falseamento.

Assim, o tom de revolta que permeia Mudar: Método vem da constatação de que, mesmo tendo se esforçado em dobro para dominar a forma e o conteúdo que lhe abriram as portas do meio intelectual francês, Louis sempre estaria prestes a ser posto para fora da festa. Sua aceitação nunca seria completa, definitiva e cristalizada, porque bastava um passo em falso para que alguém descobrisse o cadáver de Eddy Bellegueule.

Uma sociologia que não era a dela

Você pode falar o que quiser dos livros de Louis, Ernaux, Eribon e companhia, mas todos eles se baseiam em argumentos sociológicos com pé e cabeça. Não é o caso de A Boba da Corte. Por mais que Bernardi também tenha subido na vida, sua trajetória não tem nada a ver com a desses autores, e a tentativa de copiar o argumento apresentando uma experiência tão discrepante como evidência faz com que seu livro pareça um pastiche incongruente.

Bernardi nasceu numa família de classe média do Tatuapé que gabaritava o Censo de 94, estudou em boas escolas particulares, foi para a Disney e se formou em uma faculdade particular tradicional. Depois, trabalhou com publicidade, tornou-se roteirista da Globo, fez filmes, virou colunista da Folha, apresentadora de vários podcasts famosos, figura pública de grande visibilidade e alguém muito contente com seus próprios ganhos financeiros.

Em outras palavras, ela partiu de uma posição já confortável em termos de renda, segurança e acesso a bens culturais e teve uma trajetória de sucesso dentro de um mesmo universo social. Em vez de romper com a cultura familiar, prosperou a partir dela. Cresceu assistindo ao SBT com a família para, mais tarde, escrever roteiros de comédia da Globo que dialogam com esse mesmo tipo de público e de humor. É claro que, nesse processo, precisou aprender coisas novas — quem não precisou? —, mas não teve de se tornar outra pessoa, negar suas origens ou perder contato com seu mundo anterior. Pelo contrário: perder esse contato a impediria de produzir entretenimento para pessoas como seus próprios parentes, e suas origens parecem ter impulsionado, e não atravancado, seu sucesso.

Um trânsfugo de classe é literalmente um desertor de classe. É alguém que rompe, que nega, que corta vínculos. Isso significa que, não importa o quanto você se distanciou geograficamente ou materialmente do lugar onde nasceu, não importa se estudou setecentas vezes mais do que toda a sua família combinada: se você continua sendo capaz de ir e voltar, de manter relações legítimas com quem ficou pra trás, se consegue entender e ser entendido, então, meus parabéns, você não é um trânsfugo de classe.

Ser trânsfugo não é mérito, é confissão. Édouard Louis admite ter assassinado seu antigo eu e embarcado em um processo patético e intencional de imitação de traços aburguesados, tudo isso em nome de uma ascensão completamente individual, que não avança e até atrasa qualquer projeto coletivo e classista. A justificativa para essa vilania é que não havia outro jeito: a única rota de fuga que conseguiu enxergar para a situação insuportável em que vivia foi a via escolar, e esses eram os termos impostos por ela.

Bernardi não vivia nenhuma situação insuportável, não ascendeu pela via escolar nem traiu sua própria classe. Então, qual seria a semelhança? E para que admitir um pecado que não cometeu? Minha tese é que a autora simplesmente enxergou nessa literatura uma forma socialmente aceitável de dar vazão ao seu rancor contra toda e qualquer elite intelectual. Pra isso, ignorou certos detalhes pelo caminho.

O primeiro detalhe é que a dinâmica que esses autores descrevem não é universal. Não à toa, são todos basicamente franceses do mesmo par de gerações. Afinal, nem toda sociedade (e nem todo campo dentro de uma sociedade) exige que, para pertencer a certa elite intelectual, o sujeito pegue na xícara de determinado modo, muito menos que esse tique esteja na família há vinte gerações.

O segundo detalhe é que nenhum desses autores se revoltou contra o fato de que, para serem aceitos no meio que desejavam, precisavam aprender filosofia, sociologia ou qualquer outra disciplina. Contra o fato de que tiveram de ler textos complexos sobre temas dos quais nunca tinham ouvido falar, ou mesmo contra o fato de que aprender aquilo tudo era inevitavelmente mais fácil para quem tinha certa bagagem familiar. O problema deles era com o currículo tácito, e não com o currículo explícito. Eles criticaram sistemas incapazes de cumprir suas próprias regras meritocráticas, e não o fato de haver qualquer tipo de critério seletivo para o pertencimento em um campo.

O terceiro detalhe é que esses autores narram batalhas inglórias para serem incluídos em 1 (hum) campo, enquanto Bernardi narra sua birra infantil por não ser automaticamente aceita em múltiplos campos. Ela trata como injustiça o que, na verdade, é apenas a lógica normal da diferenciação entre campos sociais e suas formas de capital.

A autora não compreende por que certos tipos de capital e de reconhecimento simbólico que já possui — dinheiro, popularidade, influência midiática, consagração como escritora pop — não são automaticamente convertidos em um prestígio intelectual e acadêmico que ela nem sequer se esforçou para adquirir.

Ela não leu os livros difíceis dos aristogatos e dos sebosos de Perdizes, desistiu do mestrado ao notar que era trabalho demais para algo de tão baixa, incerta e demorada monetização (em vez disso, decidiu usar anotações de aulas que mal entendeu para montar cursos on-line). Tudo isso é narrado por ela mesma ao longo das crônicas. Mesmo assim, sua conclusão é a de que estaria sofrendo uma grande injustiça por parte de uma elite cruel e desaplaudida.

O desaplaudimento, aliás, é sempre a cartada que lança contra seus inimigos imaginários. A “pobreza” de gente que definitivamente não é pobre é outro insulto contumaz, embora a riqueza hereditária de quem não teve de fazer duzentas e trinta e quatro versões de slogans publicitários para comprar um Audi também não seja bem vista. O marketeiro de vinte e sete anos que comia marmita e hoje ganha cento e trinta mil por mês é um idiota por se achar inteligente, afinal, ele só vende sabão em pó. Mas o bem-nascido da Zona Oeste que coleciona diplomas e o self-made intelectual malvestido também são idiotas, afinal, não fizeram dinheiro com isso.

Os jovens de hoje em dia que ela insiste em contratar, “doentes, deprimidos, ofendidos, chorosos, moles”, são mimados por não entenderem que é preciso se matar de trabalhar e ouvir numa boa que entregaram uma merda. Mas esse espírito meritocrático e industrial não vale para o estudo — isso é sempre luxo de herdeiros desocupados ou de lumpens sem noção.

Ironicamente, nenhum de seus vários antagonistas parece particularmente indignado com o prato que recebeu. Em todo o livro, não se vê um publicitário enfezado por não ter recebido um honoris causa, ou um acadêmico aguardando seu primeiro milhão. Só a autora é que gostaria de ser aprovada em vestibulares que não prestou e universalmente aplaudida por grupos que nem toleram uns aos outros.

A parte do querer a gente até entende, mas ver uma mulher de quarenta e cinco anos se jogando no chão por não ser atendida em tão razoável desejo é um pouco esquisito.


Faz meses que escrevi este texto, mas fiquei incomodada com o fato de que ele parece fazer elogios rasgados ao Mudar: Método (que, na verdade, não achei tão legal), e ao Teoria da Classe Inadequada, que é um livro bem complicado. Minhas críticas ao Louis não são dignas de nota, mas o outro eu não quero citar sem explicar os perrengues. Então, decidi acrescentar este P.S. esquisito.

O livro de Ventura parte de observações interessantes sobre a situação das camadas culturais e das chamadas “profissões criativas”, mas é cheio de problemas. O mais grave é que ele desenvolve seu conceito de classe disagiata com base em uma tradução equivocada do termo leisure class (classe ociosa), de Veblen, que foi traduzido para o italiano como classe agiata (classe confortável) e acabou se estabelecendo dessa forma.

Ventura parte mais dessa tradução equivocada do que do próprio Veblen para dizer que classe agiata seria aquela que tem uma realidade material compatível com a própria identidade e que pode pagar por seu consumo ostentatório, enquanto os disagiati (desconfortáveis) seriam aqueles para os quais a conta não fecha.

O problema é que Veblen nunca usou o termo classe agiata, e esse não é um daqueles casos em que o autor não disse exatamente aquilo, mas bem que poderia ter dito. Não é como Marx e a mais-valia, por exemplo: um termo que, embora impreciso na tradução, permanece justo e conveniente para expressar o conceito original. Marx não usou “mais-valia”, mas até devia ter usado.

Aqui, a questão não é um preciosismo terminológico. Ventura alega estar seguindo Veblen, como se seu livro fosse complementar ao trabalho do economista, quando, na verdade, eles nem estão falando do mesmo assunto.

Se está desenvolvendo uma teoria própria, por que se apoiar em outro autor de forma tão distorcida? — esse é o tipo de pergunta inocente que a pós-graduação remove do seu corpo. É claro que ele fez um puxadinho para emprestar a autoridade de um clássico aos seus argumentos. E, no percurso, fez uma maçaroca.

A coisa fica ainda pior quando o livro é traduzido para o português e a Âyiné resolve meter um “classe inadequada” que fica belo no título, porém não condiz nem com o classe disagiata do italiano nem com “classe trabalhadora”, que seria o oposto de leisure class em Veblen. Pra mim, “classe desconfortável”, “desajustada” ou “em desajuste” seriam traduções mais acertadas para a ideia de Ventura. Isso ao menos manteria o caos no mesmo nível que se encontrava no original.

O segundo maior problema do livro é a pretensão universalizante de aplicar o conceito de classe inadequada a todas as épocas históricas e a qualquer ser humano em situação de mobilidade descendente. É assim que uma ideia que poderia dizer alguma coisa caso se assumisse original, pontual e contemporânea acaba não dizendo patavinas.


Eu fui escrevendo este texto no grupo de zap das minhas amigas, de modo que tem bastante ajuda delas aqui no meio. Clara, Vera e Camila, obrigada <3

E obrigada a você pela companhia. Se quiser receber outros posts, basta pôr o e-mail aqui: Assine a newsletter

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Personagens bonitos

Eu estava lendo A Montanha Mágica e fiquei com vontade de ter um pôster daquela palestra que acontece no sanatório do livro. Aquela que acaba de vez com a vida do protagonista, logo na primeira semana da estadia nos alpes. É o tipo de coisa que eu teria feito de um jeito ou de outro, mas hoje em dia faço conversando com o Claude e com o GPT.

Sim, desde que o mundo é mundo eu teria colocado no Google Translate, teria baixado o original e a tradução do francês, dado umas buscas, procurado uns nerds. Mas agora fico perguntando pra eles: “você acha que o tom do cartaz seria assim ou assado?”, “você acha que o dia da palestra seria esse ou aquele?”, “por que você acha isso?”. Fico perguntando e são companhias. São personagens bonitos, e estão sempre lendo o que eu tô lendo, de bobeira nos mesmos horários, é impressionante, rs.

Ah, sim, a IA não faz o seu imposto de renda, não lava sua louça. Que ridículo uma IA que quer fazer Arts. Mas, sei lá, eu também não faço meu imposto de renda, e a louça até que lavo, porém quando quero. Duro de verdade é eu fazer algo pra pôr nessa louça…

Hans Castorp calculou que era baratíssimo viver na Montanha Mágica, até ele conseguiria. Vendo fotos do sanatório no qual Katia Mann se internou por pneumonia, e onde o marido foi visitá-la e acabou escrevendo o livro, você logo diagnostica um caso de burguês safado — algo que também daria pra fazer muito antes da IA, ou lendo Os Buddenbrook.

Enfim, deixei os pôsteres no Canva, se alguém também quiser. Fiz em português e em inglês porque sim. Em alemão porque óbvio, e em francês porque era a língua franca do sanatório:

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Romeu insubmisso

Eu não devia ter um único nanograma de testosterona quando vi Leonardo DiCaprio pela primeira vez, em Romeu + Julieta (1996), emoldurado pelas ruínas de um teatro feito só para aquilo, ao som de “Talk Show Host”, do Radiohead. Talvez não tenha sido o primeiro filme decente que vi na minha vida, mas foi a primeira vez que eu soube que estava vendo um filme decente, e isso conta.

(Aqui há um vídeo que só toca na versão do Substack.)

Depois, eu e minha irmã assistimos a todos os filmes do DiCaprio. Todos, inclusive aqueles que os adultos encarregados não deveriam deixar crianças de dez e doze anos assistirem. Mas era o DiCaprio, o galã inofensivo, o frango que as meninas se autorizavam a gostar, quem pensaria em vetá-lo? E até hoje agradecemos ao rapaz por desde cedo só ter escolhido ótimos trabalhos.

“Talk Show Host” não foi a única música do Radiohead a entrar naquele filme: também havia “Exit Music (for a Film)”, feita especialmente para a ocasião, e que tocava nos créditos. Será que reparei nela em alguma das trezentas vezes que assisti àquilo ainda criança e adolescente? Acho que sim, e ninguém precisa saber inglês (ou mesmo pescar o contexto) para ser atingido pelo tom de lirismo seguido de ameaça que escorre dessa faixa.

Seja como for, essa música é importante pra mim hoje, e queria arriscar uma hipótese sobre ela. Aqui vai um esboço de análise — com um pedido de desculpas prévio, porque me aventurei a analisar não só a letra como também a melodia, os arranjos, a performance vocal e outra pá de coisas sobre as quais não entendo rigorosamente nada. Porém, como a melhor forma de pesquisar na internet ainda é dizendo algo errado, aqui está a minha contribuição para o esforço coletivo de entender essa música.

(Aqui há um áudio que só toca na versão do Substack.)

A minha tese é de que a canção é estruturada em três atos dramáticos, dois deles contando a história de Romeu e Julieta de forma similar à peça original e ao filme de Baz Luhrmann. Porém, no terceiro ato, o Radiohead se desvia significativamente desse caminho ao apresentar um Romeu contestador, que rejeita o papel redentor atribuído a ele na tragédia shakespeariana.

Na minha cabeça, a divisão dos atos seria a seguinte:

Aqui, a mesma divisão na letra traduzida:

Romeu é o eu-lírico de todos os três atos, mas sua situação, posição e destinatário se alteram em cada movimento. No primeiro segmento, a canção estabelece a intimidade conspiratória entre os amantes ainda vivos. As palavras de Romeu dirigem-se diretamente a Julieta, tecendo o plano de fuga do casal e tentando acalmá-la. Não estamos no melhor dos momentos: o tom não é de paixão delirante e empolgada, e sim de ternura e convencimento em meio à crise. É como se a canção já começasse no terceiro ato da peça, após as mortes de Mercúcio e Teobaldo e da consequente condenação de Romeu ao exílio.

Musicalmente, este primeiro ato se caracteriza pela moderação e pelo murmúrio. A voz de Thom Yorke mal se afirma. É uma voz carinhosa, consoladora, urgente e secreta, que desperta a amada, ordena preparativos, teme o tumulto, pede discrição:

(Aqui há um áudio que só toca na versão do Substack.)

Wake from your sleep
The drying of your tears
Today, we escape, we escape

Pack and get dressed
Before your father hears us
Before all hell breaks loose

Com variações sutis na voz, nosso feio transmite desejo e expectativa ao cantar “today, we escape, we escape” e uma mistura de aflição e desdém em “before all hell breaks loose”. A melodia vacila, repete-se em intervalos reduzidos, enquanto a harmonia repousa em poucas notas, como se evitasse acordar alguém. O acompanhamento minimalista, focado em guitarra e texturas eletrônicas delicadas, intensifica a sensação de fragilidade e intimidade.

Em determinado momento, surge um arranjo reminiscente de música sacra enquanto Romeu se esforça para superar os temores de Julieta, implorando sua colaboração para não carregar sozinho o peso da fuga:

(Aqui há um áudio que só toca na versão do Substack.)

Breathe, keep breathing

Don’t lose your nerve

Breathe, keep breathing

I can’t do this alone

Sing us a song

A song to keep us warm

Neste primeiro ato, Romeu desempenha múltiplas funções discursivas: propõe, planeja, ordena, consola, motiva e encoraja a amada. O discurso alterna entre o imperativo prático (“pack and get dressed”) e o suporte emocional (“breathe, keep breathing”), revelando a tensão entre urgência e ternura que caracteriza o amor em situação extrema, além da passividade juvenil e *feminina* de Julieta, exatamente como na obra original.

O segundo ato consiste em um único verso que assinala a transformação ontológica da narrativa: “There’s such a chill, such a chill”. Aqui, o interlocutor já não é claramente Julieta — o verso parece dirigir-se simultaneamente a si próprio, à amada, ao vácuo. Este momento sugere a transição para a morte: a fuga fracassa, o amor não escapa, o corpo esfria.

Musicalmente, esta passagem funciona como uma suspensão fantasmagórica. A linha melódica rompe sua cadência anterior, tornando-se melódica e harmonicamente ambígua. O timbre eletrônico começa a predominar, sugerindo o afastamento gradual do corpo físico (dizem as vozes da minha cabeça). Camadas harmônicas mais frias — possivelmente sintetizadores ou reverberações prolongadas — entram na mixagem, preparando a transformação radical que está por vir. Ao fundo, parece haver ruído de pessoas, de rua, talvez de um parquinho. É Romeu que morre e a vida que segue.

Este verso único atua como portal: marca o instante em que o narrador se desloca de sua posição de sujeito vivo e esperançoso para a nova condição enunciativa que assumirá no ato final.

Bonito até aqui? Bonito demais, porém completamente rente aos significados da tragédia original. Até aqui, o Radiohead contou a história de Shakespeare, fez um ótimo remake.

No terceiro movimento, a banda vai tocar em outro rumo. Agora, um Romeu já morto pragueja contra seus algozes — as duas famílias, a sociedade de Verona, todos os que permaneceram vivos. A função discursiva se transforma completamente: não se trata mais de planejar ou consolar, mas de condenar, amaldiçoar e desprezar. A postura vocal muda drasticamente. Acho que mesmo quem não compreende inglês percebe que mudamos de interlocutor:

(Aqui há um áudio que só toca na versão do Substack.)

And you can laugh
A spineless laugh
We hope your rules and wisdom choke you
Now we are one in everlasting peace
We hope that you choke, that you choke
We hope that you choke, that you choke
We hope that you choke, that you choke

Este terceiro movimento da canção é a grande ruptura com Shakespeare. Na peça original, Romeu e Julieta são vítimas dóceis e inocentes — mártires privados de disputas públicas, cuja morte serve como sacrifício redentor que reconcilia as famílias. Eles são bons demais para aquele mundo, puros demais, e sua morte melhora o mundo que não os acolheu. O Romeu do Radiohead, porém, se recusa a assumir essa posição sacrificial. Ele olha de fora — a partir da morte — para os que sobreviveram, e diz: fodam-se.

A acusação é precisa e implacável: primeiro vem o escárnio (“you can laugh”) — eles zombam, fingem normalidade, seguem adiante como se nada tivesse acontecido, como sugere o murmúrio urbano que ecoa ao fundo. Em seguida, a caracterização moral desse riso: “a spineless laugh” — uma risada sem espinha dorsal, covarde, que revela a submissão cega a convenções, preconceitos e politicagens. Mas o golpe final vem na maldição direta: “we hope your rules and wisdom choke you” — que as próprias estruturas normativas que geraram a tragédia os sufoquem, junto com a suposta sabedoria adquirida tardiamente. A paz invocada — “now we are one in everlasting peace” — não carrega transcendência espiritual, mas sim a frieza da constatação: é o reconhecimento definitivo do fim, não sua sublimação.

No aspecto musical, este movimento final não apenas verbaliza a recusa ao martírio — ele a materializa sonoramente. O registro vocal se expande dramaticamente, enquanto a voz fica áspera, distorcida, amplificada até beirar o berro. A entrada da percussão e das camadas instrumentais assinala o momento em que a música rompe com sua própria moderação inicial. A reiteração compulsiva de “we hope that you choke” assume características de ritual amaldiçoante, onde música e palavra se fundem numa única força de ressentimento.

A peça de Shakespeare se resolve através da catarse clássica: as mortes juvenis despertam as famílias para a futilidade de sua rivalidade, promovem a reconciliação, inspiram monumentos comemorativos, transformam sofrimento em aprendizado. É o movimento arquetípico da tragédia — do caos emerge a ordem, da cegueira nasce a visão, da violência brota a harmonia. As vidas perdidas adquirem propósito redentor para toda a coletividade.

Só que, no Radiohead, o verso “we hope your rules and wisdom choke you” diz: nem por um caralho. Aqui, Romeu deseja que seus carrascos sejam asfixiados não somente pelas normas irracionais que mantinham antes da catástrofe amorosa, mas também pela sabedoria supostamente conquistada através do aprendizado trágico.

Trata-se de uma negação absoluta da função pedagógica da tragédia. O morto recusa-se a ser instrumentalizado como exemplo edificante. Ele rejeita que sua destruição seja convertida em crescimento moral alheio. E seria impreciso falar em “justiça” — há aqui mais um desdém profundo por essa consciência tardia que não muda nada para quem já partiu. É quase um protesto: “Não façam de nossa morte uma lição de moral pra vocês.” Daí a repetição obsessiva final — “we hope that you choke” — se torna uma fórmula encantatória de maldição. É a rejeição ativa da redenção coletiva através do sacrifício individual.

Nesse trecho, a performance vocal e os arranjos ficam furiosos, mas gradualmente retornam à contenção, mantendo intacta a mensagem de condenação. Não se trata de um surto passageiro de ira — o eu-lírico sustenta sua praga mesmo após o retorno da serenidade. Nesse momento, ressurge o arranjo que evoca aquela atmosfera sacra e, nos momentos derradeiros, retorna aquela sonoridade que remete ao burburinho de um parque infantil. É o mundo retomando sua rotina depois da morte trágica dos amantes, enquanto Romeu mantém inabalável sua posição final.

Assim, “Exit Music (for a Film)” promove uma reconfiguração radical do mito de Romeu e Julieta ao construir um protagonista que rejeita categoricamente seu papel de vítima redentora. O Romeu criado pelo Radiohead emerge como uma figura de resistência póstuma, que destrói os alicerces do modelo sacrificial que sustenta a tragédia shakespeariana. A canção executa um movimento duplo e sofisticado: ao mesmo tempo em que reconstitui sonoramente toda a trajetória emocional da narrativa original — da esperança amorosa ao desenlace fatal —, também desconstrói radicalmente sua dimensão ética e social, substituindo a lógica do martírio redentor pela força corrosiva da acusação sem perdão.

Se for para morrer, que a gente não morra ajudando.

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Quatorze anos, três meses, vinte e três dias

O mesmo texto, só que em inglês

Morreu o meu Palito aos quatorze anos, três meses e vinte e três dias, pesando meros dez quilos e meio e com um coração que lhe grilou toda a caixa torácica. Era um whippet macho, de pelagem branca e dourada, filho da Paris e do Guga e com ancestrais de nomes curiosos, como uma cadela chamada Crème Ceci Bonne e outra batizada de Crazy Sexy Cool. Seu dote custou o exato valor do meu salário, e foi parcelado em três cheques pré-datados conhecidos na literatura como Cheques do Palito.

Era um cachorro meigo e educado como todos os whippets, mas fisicamente corajoso e dado ao mundo de um jeito incomum à raça. Não era aquele típico galgo tímido e medroso, acuado num canto, se escondendo atrás da dona. Era o meu companheiro de todas as roubadas, e eu só saía de casa sem ele quando não tinha jeito. Se houvesse um jeito ruim, errado, inconveniente, esse seria o nosso jeitinho. 

Tudo nele era gostoso. O pelo, o cheiro, o hálito, a voz, os gestos, as pétalas de orelhinhas. Nunca sentava e se recusava peremptoriamente a deitar no duro. Então lá íamos nós, com um colchonete do Snoopy enrolado debaixo do braço, amarrado na mochila ou em volta da cintura. Mas mesmo o colchonete não atendia aos seus padrões de conforto, e ele fechava a cara em jantares demorados, cafés que se prolongavam. Às vezes eu dava o braço a torcer e levava uma cama imensa que mal cabia debaixo dessas mesas estreitas de restaurante. 

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Detestava esperar na frente do Extra, soltava um de seus raros latidos quando a moça da farmácia demorava a conferir minhas receitas em um dia frio, ou quando um babaca qualquer empacava no caixa. Gostava de gatos, porém só foi correspondido pelo José, e os dois tiravam longas sonecas ao sol no quintal da minha sogra, debaixo de um brinco-de-princesa de dimensões monumentais. 

Era cheio de tiques engraçados e adoráveis e ajustava a velocidade conforme o gosto do freguês. Estava sempre disposto a andar uma maratona, a jogar bola até dizer chega & a tirar um cochilo. Era curioso e bisbilhoteiro, inteligente e afetuoso, obediente e digno. Seguia os comandos como quem acata a sugestão de um estagiário promissor. Era territorialista com os lugares de sentar e de fato chegou a ser expulso do transporte escolar por disputar o banco da frente com um golden retriever conhecido como Duque. Até perto do fim, ainda vencia o Bingo na corrida de tiro.

Morreu o meu Palito e não sinto a menor gratidão, não acho que ele virou estrelinha, nem que agora esteja com o Thiago. A morte é a desgraça inteira, é uma ideia absurda, um vazio constrangedor no qual tentamos jogar todo tipo de ilusão para enfeitar o palhaço. Ela não dá sentido às coisas, não traz sabedoria, não é uma forma de descanso, um reencontro, uma transformação, não abre um ciclo novo. Outras coisas podem vir a despeito da morte, não por causa dela, e a verdade é que tendem a vir de pé mole. É reconstruir a casa para a próxima enchente. 

Se eu fosse obrigada a citar o lado bom da morte, diria que seu único favor é nos convencer a morrer. Ela esvazia a vida pétala por pétala até chegarmos ao ponto em que tanto faz, é essa merreca que você quer levar?

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Kazão responde, Kazão pergunta

Hoje é dia do escritor e quero compartilhar algumas aspas do meu escritor, Kazuo Ishiguro. 

Em 2021, o Kazão foi a esse podcast britânico bem bobinho chamado How to Fail with Elizabeth Day e disse coisas incríveis. A proposta do podcast era trazer um prêmio Nobel e mostrar como ele é gente como a gente — com fracassos e constrangimentos como os nossos —, e como você, ouvinte, também pode ter um Nobel escondido no peito. 

O Kazão estava lá para vender seu livro mais recente — Klara e o Sol — e cumpriu seu papel na pauta do dia de maneira exemplar, respondendo com gentileza e elegância às perguntas mais abestalhadas, mostrando curiosidade a respeito da entrevistadora e retomando o tema do programa quando começava a devanear.

Então você me trouxe até aqui pra falar de Síndrome do Impostor? Do brinquedo que esqueci no Japão quando minha família se mudou para a Inglaterra, há mais de 60 anos? Quer que eu esclareça pela quadragésima centésima vez se é verdade que escrevi Os Vestígios do Dia em quatro semanas? Kazão não julga, Kazão responde. 

Mas, já que estamos aqui, por que não questionar o sentido da escrita de ficção? Vamos nos perguntar se isso que eu faço da vida serve para alguma coisa, e se essa coisa para a qual isso serve é necessariamente boa. 

Já que o tema é fracasso, então vamos falar do meu fracasso pessoal enquanto escritor por não ter mapeado a existência dos sentimentos que originaram o Brexit e a eleição de Trump antes que eles se concretizassem e explodissem na minha cara. A sociedade me alimentou, me deu espaço e tempo livre para que eu supostamente pensasse sobre as coisas, sobre o mundo, entendesse um pouco mais o que está rolando por aqui, e eu cometi o imenso fracasso de não desconfiar de nada. Um fracasso de visão, de curiosidade, de imaginação, de empatia. Eu achava que estava falando sobre a condição humana, mas essas pessoas certamente não estavam na conta, porque eu nem sabia que existiam. 

O Kazão toma para si uma responsabilidade que não vi mais ninguém tomar, e o faz com uma sinceridade, com um humor e com uma singeleza que vou te contar…

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Sobre a serventia da literatura:

Some of the things that have been happening in the world in recent years do lead me to actually wonder what is the purpose of writing novels and putting them out there? Is it that important? In fact, have we been contributing to something that’s a bit dodgy, given the way we seem to have shifted over on emotions rather than truth and fact? This idea that what you feel is what matters. You can if you feel it, then it’s true.

I’m kind of wondering if the huge emphasis I’ve always put in my work on being able to communicate through emotions and to relate to readers emotionally, is that a sound way to be going about things that kind of larger level? I’ve often thought, you know, is this thing what I do? Is it just some sort of cultural accident that it’s been given a certain place in the hierarchy of things and I get given prizes and knighthoods and things, but actually that’s just some sort of historical and cultural accident. And is it actually so valuable? Is it actually contributing to something, a drift away from truth and a kind of dispassionate way of looking at things? 

Sobre a cegueira em relação a fenômenos recentes como o Brexit e o trumpismo:

Well, it was very much triggered by those two things. There were wake up calls. And it’s not to say that I haven’t moved to a position of thinking or the people who wanted Brexit were correct. And I was ignorant about all their reasons for wanting to leave Europe or that Trump supporters are correct. People who voted for Trump back then in 2016, you were correct to do so. And how ignorant of me not to have understood how they felt. That’s not my position, but I didn’t even know that they were there. I didn’t know these feelings were there. I didn’t even start to ask why so many people might feel that way. So I wasn’t even at the stage of asking questions like, have they been fooled? Have they been tricked? Are they being ignorant or are they correct? Is there some massive failure on the part of the establishment that has ignored them? I realized that I wasn’t even anywhere near asking these questions. 

Maybe most people wouldn’t feel too bad about that. But this is supposed to be part of my job, part of my remit. I’ve been allowed not to commute every day to go into an office or do whatever, because I’m supposed to sit around and think I get given these awards and things because I’m supposed to have some sort of an insight into the world and society and how people relate to each other and human relationships. And so I did feel this wherever this came from, whatever this was, I couldn’t get away from the fact that this was a colossal failure of vision on my part.

Whatever I’ve been writing about in my novels. And whenever I try to say, yes, this is about the universal human condition or whatever. Well, I certainly wasn’t taking all this into account in the universal human condition as I was portraying it, trying to convey it was a failure to understand fully human beings in a very everyday sense.

Sobre a esposa dele, Lorna Ishiguro:

Oh, she’s vital to the creative process. You have to understand that for one reason or another. We’ve been together for 40 years. And so she knew me before I was a writer. You know, when we met, I hadn’t written anything. I was a would be singer songwriter. And so she was there criticizing the very first things I wrote on paper and saying, “you know what? What was this? Do you reckon you’re a writer because you’ve written this?”

I mean, so, you know, stories, whatever. I mean, she was the first person to look at them, scrutinize them, say which ones were good, which ones weren’t. And so I’ve kind of got used to that. I mean, she’s a very good critic and editor. But the important thing is I know where she’s coming from. I know when to ignore her and where not to ignore her. Most of the time I don’t ignore her because I get in real trouble if I do ignore her.

And I mean, it’s almost second nature to me, you know, that she’s part of the team. Sometimes you get these musical duos that are nevertheless their act is named after just one person. Like a person I really admire at the moment is Gillian Welch, the American singer. But actually they are a couple: they are Gillian Welch and David Rawlings, but it’s a two person act with one name. The band name is Gillian Welch and I kind of feel it. It’s a little bit like that with me and my wife. She doesn’t just edit afterwards. I mean, she sometimes gives me the ideas to start with.

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Perigo na esquina

A Volkswagen lançou uma propaganda em comemoração aos seus 70 anos no Brasil. O comercial consiste em um pastiche gerado por inteligência artificial que coloca a cantora Elis Regina, morta há 41 anos, ao lado de sua filha, Maria Rita. 

No vídeo, mãe e filha cantam “Como nossos pais”, um dos maiores sucessos da carreira de Elis. A ironia é que todos os elementos da peça — sobretudo o fato de ela ser o elogio piegas de uma montadora de carros — vão de encontro tanto à mensagem da canção quanto às posturas que a artista mantinha quando estava viva. 

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Se alguém quiser dignificar o filistinismo publicitário, pode dizer que se trata de uma música contrapontística, como são chamadas as trilhas sonoras que entram em contradição deliberada com aquilo que é apresentado na cena de um filme. O mais provável, no entanto, é que nenhum dos envolvidos tenha entendido e/ou se importado com o fato de que tudo naquela propaganda entra em choque com o trabalho, com a carreira e com a postura política de Elis. Nem mesmo seus três herdeiros: os filhos João Marcello Bôscoli, Pedro Mariano e Maria Rita, que autorizaram a peça e lucraram com ela. 

Ninguém sabe o que Elis Regina estaria fazendo hoje, caso não tivesse morrido aos 36 anos, nem o que ela pensaria da vida. Mas, em 1979, Elis estava cantando de graça no Show de Maio: um evento para arrecadar dinheiro para o fundo de greve dos metalúrgicos do ABC. Antigamente, os mortos não reviam suas posições, de modo que, antigamente, Elis passaria toda sua longa morte cantando a greve e os trabalhadores, e dificilmente teria tempo de cantar também as montadoras de carro.

É preciso muita tecnologia para levantar os mortos de suas tumbas e convencê-los a encenar sua própria farsa. A AlmapBBDO, agência de publicidade responsável pela peça, explicou que a peça utilizou uma tecnologia de redes neurais artificiais conectada a uma dublê. No momento da edição, a atriz foi substituída por sons e imagens gerados a partir de um banco de dados com vídeos da cantora morta. 

Esteticamente, não ficou grande coisa, mas o circo chamou atenção por empregar uma tecnologia de ponta chamada de “redes adversárias generativas” (generative adversarial networks), mobilizando duas inteligências artificiais de famílias diferentes: uma para encaixar o som da dublagem (e que é chamada de “deep dub”) e outra para gerar as imagens (e que é sintomaticamente batizada de “deep fake”).

É doido como antes você podia herdar o LEGADO de um artista. Ou seja, o que aquela pessoa fez e deixou para a posteridade. Isso já era um conceito difícil de defender, e dava aos herdeiros o poder de ressignificar a obra do artista de muitas formas, fazendo-a parecer maior e mais importante ou — mais frequentemente — apequenando-a. 

Sempre teve herdeiro publicando coisas que o artista ativamente decidiu descartar, expondo o que ele passou a vida tentando superar, promovendo edições questionáveis, enriquecendo às custas da vergonha alheia, reduzindo tudo a caça-níquel. 

Agora é mais grave porque já não é “só” uma questão de selecionar, dispor e associar a obra do artista da forma que lhe parecer conveniente. Agora você pode efetivamente produzir coisas NOVAS. Pode herdar o baú do Kafka e ainda ir socando coisas lá dentro. 

Agora até os mortos produzem: isto que é a imensa sacanagem. 

Na época em que o capitalismo ameaça prescindir do trabalho dos vivos, tudo o que a gente mais precisava era de um deepfake em que Elis Regina canta a novidade dos patrões. 

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Na Colina Melancólica

Lá, no alto da Colina Melancólica, há um simulacro de vida só aguardando o enterro do próximo sonho. Está me acompanhando? Você não pode ter o que quer, mas pode ter a mim. Vamos lá, querido, mar adentro. Porque você é o meu remédio sempre que estamos juntos. Alerta a todos os submarinos: estamos naufragando. E se um dia eu notar algo estranho em sua voz, será que vejo o despontar de um novo sonho? Bom, se você não conseguir o que quer, então venha comigo para o alto da Colina Melancólica, onde um peixe-boi espera sentado, só aguardando o dia em que você estará de volta ao meu lado. 

(Aqui há um áudio que só toca na versão do Substack.)

(uma leitura de “On Melancholy Hill” na qual o eu poético é a depressão, o vício ou algum padrão tóxico e conhecido qualquer te chamando de volta pra ele com a voz mais compreensiva e reconfortante do mundo.)

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On Melancholy Hill

Up on Melancholy Hill

There’s a plastic tree

Are you here with me?

Just looking out on the day

Of another dream

Well you can’t get what you want

But you can get me

So let’s set out to sea, love

‘Cause you are my medicine

When you’re close to me

When you’re close to me

So call in the submarines

‘Round the world we’ll go

Does anybody know, love

If we’re looking out on the day

Of another dream?

If you can’t get what you want

Then come with me

Up on Melancholy Hill

Sits a manatee

Just looking out for the day

When you’re close to me

When you’re close to me

When you’re close to me

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Páginas envenenadas

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Essa coisa de leitura não era um assunto tranquilo no século 18. Foi nessa época que a soma de três revoluções mais ou menos separadas começou a dar resultados de massa, e as pessoas deram uma surtada com isso. As três revoluções a que me refiram são a invenção da prensa de tipos móveis por Gutenberg, a ideia de Lutero de traduzir a Bíblia para as línguas vernáculas e o sonho iluminista de alfabetizar geral. 

Pela primeira vez na história da humanidade, o número de mulheres alfabetizadas não era estatisticamente irrelevante. Ao menos nos países ricos do Ocidente, uma mulher letrada já não era uma atração de circo, como nos tempos de Safo ou de Christine de Pizan. Pobres e subalternos que sabiam ler e escrever também eram um fenômeno cada vez mais comum, e eles andavam pelas ruas em plena luz do dia, com livros e jornais debaixo do braço como se fosse a coisa mais normal do mundo.

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Ascensão e Queda da Literatura (The Rise, and Fall, of Literature), 1825. Gravura em papel colorido à mão, 111 × 148 mm. Museu Britânico (Londres, Inglaterra). Link. 

Mas é claro que não tinha nada normal nessa história. Havia todo um mal-estar pairando no ar. Uma sensação de que tinha gente demais lendo textos demais, de jeitos demais e por motivos demais. As formas de consumir e acessar os textos estavam mudando drasticamente e a leitura ia ficando uma atividade muito mais solitária do que antigamente. Muito mais discreta, sorrateira, fácil de esconder. 

Tinha gente que achava que certas pessoas nem deveriam ser alfabetizadas. Outros achavam que a alfabetização em si era uma ferramenta neutra ou até positiva, mas ficavam cabreiros com o uso que ela receberia na mão desses novos leitores. Para esse segundo grupo, a preocupação era saber o que esse pessoal ia ler. Quando, como, onde, em que quantidade e às custas de quem eles leriam.

A Marcha do Intelecto (The March of Intellect), c. 1828, de Robert Seymour (inglês, 1798 – 1836). Gravura em papel colorido à mão, 220 × 325 mm. Museu Britânico (Londres, Inglaterra). Link..

Eles ficavam se perguntando o que esse zé povinho entenderia dos textos e que tipo de relação estabeleceria com a leitura. Será que essa rapa sairia misturando ficção e realidade? Será que não ficaria tão tomada pela leitura que começaria a esquecer as obrigações e vagabundear no trabalho? Será que ia se deixar levar por qualquer coisa que lesse? Será que esse povo não ficaria ambicioso agora que tinha um vislumbre do mundo fora da sua vidinha de merda? Provavelmente sim, né. 

A privacidade era um perigo e, ao mesmo tempo, estava em perigo. Tem uma história famosa de que Agostinho teria ficado chocado ao ver Ambrósio lendo em silêncio, sem nem mexer os lábios. Muita gente diz que o choque seria porque ele não sabia que isso era possível, mas eu li que não é bem assim. Ele provavelmente sabia dessa possibilidade, ela só era muito incomum no século 6.

Pelo menos até o século 17, o normal é que as pessoas lessem em voz alta mesmo quando estavam sozinhas. É somente no século 18 que o jogo vira e, de repente, quase todo mundo está lendo em silêncio. 

A Indiscrição (L’Indiscretion), 1788, de Jean-François Janinet (francês, 1752 – 1814), a partir de Nicolas Lavreince (sueco, 1737 – 1807). Gravura e forma de lavagem, 36,2 × 28,4 cm. National Gallery of Art (Washington, Estados Unidos). Link.

Esse silêncio era bem conveniente quando a gente estivesse no trem, com várias pessoas lendo o jornal ao mesmo tempo. Mas a coisa mudava de figura quando sua mulher começasse a ler uma carta do seu lado e você já não soubesse que mensagem era aquela. Havia toda uma sociabilidade por correspondência naquela época, as pessoas trocavam cartas o tempo inteiro. Pense nas brigas de casal que ainda rolam por causa de mensagens de texto. Agora pense em uma sociedade bem mais machista e controladora. 

O texto é a rua dentro de casa. A pessoa achava que a filha estava segura em casa, protegida da safadeza do mundo lá fora, quando na verdade ela estava sendo pessimamente influenciada por cartas e romances escritos sabe Deus por quem. Pense no caso da pobre Cécile Volanges, em As Relações Perigosas1.

Resistência Inútil (La Résistance Inutile), de Jean-Honoré Fragonard (francês, 1732 – 1806). Óleo sobre tela, 45 × 60,5 cm. Nationalmuseum (Estocolmo, Suécia). Link.

A menina só tinha quinze anos. E estava tudo tão acertado. A Madame Volanges era tão zelosa com a respeitabilidade da filha que só tirou a moça do convento poucos meses antes do casamento com o Comte de Gercourt. Cécile quase não colocava os pés pra fora de casa. O único homem que ela via com alguma regularidade era seu ingênuo e bem-intencionado professor de música — nosso querido Chevalier Danceny. Mesmo assim, todas as aulas aconteciam dentro de casa, debaixo dos olhos da mãe. 

Mas não teve muro de convento ou diligência materna que barrasse a influência demoníaca da Marquesa de Merteuil. Imbatível na sórdida arte da escrita, ela lançou sua teia pecaminosa sobre Cécile e Danceny, derrubando a honrada Présidente de Tourvel e até mesmo o safo Vicomte de Valmont de carona. Quando o livro termina, a taxa de fatalidade é impressionante. E tudo isso para quê? Só para se vingar de Gercourt, que teve a audácia de trocá-la por outra.

As Ligações Perigosas (Les Liaisons Dangereuses), 1936, de René Magritte (belga, 1898 – 1967). Guache sobre papel, 41,4 × 29 cm. Walker Art Center (Minneapolis, Minnesota, Estados Unidos). Link.

Há algo de inato na vilania de Merteuil, nisso eu concordo. Mas onde ela conseguiu polir sua amoralidade congênita? Onde aprendeu a transformar seus pensamentos torpes na realidade torpe de outras pessoas? Ela aprendeu com os romances, é claro. Não só com romans libertins de quinta categoria, mas também com os romances de Rousseau — seu favorito. Os mesmos romances que Madame de Staël enxergava como os grandes civilizadores da modernidade se transformavam em armas quando caiam nas mãos de leitores incautos e incompetentes como Emma Bovary2 ou nas mãos de leitores competentes até demais, como Merteuil.

A situação era tão desoladora que mesmo nossos bons e velhos Leitores Tradicionais — nossos estimados homens brancos, ricos, heterossexuais, oriundos dos países centrais — pareciam ter esquecido como ler corretamente. Estavam ficando afeminados e hipersensíveis, deixando-se emascular por uma literatura rastaquera voltada para mulheres ou, pior ainda!, escrita por mulheres.

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Leituras Cruzadas (Cross Readings), 1800, de F. Sansom (inglês, c. 1797 – 1810), depois de George Moutard Woodward (inglês, 1765 – 1809). Gravura em papel colorido à mão, 346 × 468 mm. Museu Britânico (Londres, Inglaterra). Link

A verdade é que estávamos saindo de um mundo dominado pela leitura intensiva — onde especialistas dedicavam a vida inteira a ler e reler a mesma meia dúzia de textos, debatendo exaustivamente cada passagem — para um mundo de leitura extensiva, onde todo tipo de gente dava uma passada de olho em uma quantidade inédita de textos todos os dias e raramente parava um instante para refletir sobre algum deles em particular.

Pensando por esse lado, fica difícil rotular todas essas preocupações com a leitura como uma grande bobajada elitista, mesmo sabendo que, sim, a maior parte delas partia de elites conservadoras cujo poder e prestígio estavam sendo abalados pela perda do monopólio sobre os textos.

Veja o caso da Igreja Católica, por exemplo. Um dos motivos pelos quais a Igreja era contra a ideia de que leigos lessem a Bíblia sozinhos, em casa, sem mediação de um padre, era o medo de que isso gerasse um monte de interpretações equivocadas do texto sagrado. Esse não me parece um argumento vazio, nem mesmo hoje em dia3.

No mais, preocupações em relação à leitura não são uma modinha do século 18. Elas estão aí desde a invenção da escrita. Em Fedro, por exemplo, Platão mostra que Sócrates tinha argumentos mais ou menos nessa linha. Ele dizia que a escrita era uma coisa temerária porque criava uma separação artificial entre o autor e suas ideias.

A Escola de Atenas (Scuola di Atene), 1509 – 1511, de Raffaello (italiano, 1483 – 1520). Afresco, 550 × 770 cm. Museus do Vaticano (Vaticano). Link. 

Ele achava que a interação face a face era imbatível porque permitia que a pessoa adequasse seu discurso de acordo com as características de cada interlocutor específico. Em uma discussão ao vivo, você avalia a reação do público em tempo real e ajusta seus argumentos enquanto fala. Isso aumenta muito as chances tanto de ser entendido quanto de convencer alguém.

É algo que os professores fazem o tempo inteiro em sala de aula. Mesmo que ninguém diga explicitamente que não entendeu, dá pra sentir quando a turma está boiando e explicar melhor, usar outros exemplos, dar uma cambalhota. Dá pra ver que um ponto específico despertou o interesse dos alunos e se aprofundar nele. Dá pra notar se algo que você disse pegou mal e se corrigir imediatamente.

Já o texto escrito deixaria o autor basicamente impotente porque ele não teria a chance de se explicar melhor, de calibrar, modular ou reformular seus argumentos a partir desse feedback imediato.

Sócrates ficava louco de pensar que cada vez que alguém entendesse as ideias dele do jeito errado, essa pessoa sairia por aí dizendo que ele defendia umas coisas nada a ver. Ele não entendia por que alguém preferiria ler ideias mortas fossilizadas em um pedaço de papiro do que travar diálogos vivos com pensadores vivos com quem você pudesse conversar, influenciar e ser influenciado, criar novas ideias.

Mulheres Elegantes em uma Biblioteca (Femmes Élégantes dans une Bibliothèque), segunda metade da década de 1800, de Édouard Gelhay (francês, 1856 – 1939). Óleo sobre tela. Bridgeman Art Library (Londres, Inglaterra). Link.

“— (…) Há algo estranho na escrita, Fedro, que a torna exatamente como a pintura. A pintura cria figuras que ficam ali paradas como se estivessem vivas, mas se você perguntar algo a elas, respondem com um silêncio solene. O mesmo acontece com as palavras escritas: ficam ali falando e dá até para achar que têm alguma inteligência, mas se pedir para explicarem algo do que dizem, elas simplesmente repetem a mesma coisa para sempre. Se uma ideia qualquer é escrita, ela sai por aí falando com qualquer um. Conversa com gente que a entende, mas também com gente totalmente inadequada, indistintamente. Não sabe com quem deve e com quem não deve dialogar. Se alguém é grosseiro ou injusto com uma ideia, ela não sabe se defender. Precisa sempre recorrer ao pai.”4

(Adoro como essa citação acaba revelando o lado Mean Girls da posição de Sócrates: em meio às inúmeras desvantagens do texto escrito está o fato de que ele não pode escolher com quem vai sentar no recreio da escola. Essa imagem das ideias como crianças indefesas também é uma pérola.)

Ilustração da capa do livro A Abadia de Northanger, de Jane Austen, 2010, de Anna e Elena Balbusso (italianas, contemporâneas). Encomendado pela editora Black Cat. Acrílico e digital, 16,51 × 13,97 cm. Link.

A recomendação de “ler com moderação” também tem raízes clássicas. Em 65 a.C., Sêneca alertava contra a glutonia intelectual, e dizia que entornar pilhas de livros de um trago só gerava mais confusão do que qualquer outra coisa. A abordagem estoica ia por um caminho mais slow reading, espremendo os textos e tirando o máximo possível de um autor antes de partir para próximo. Ele dizia que esse método daria mais resultado no longo prazo, mesmo se você acabasse conhecendo menos obras e autores do que colegas mais vorazes.

“Demasiada abundância de livros é fonte de dispersão; assim como não poderás ler tudo quanto possuis, contenta-te em possuir apenas o que podes ler. Dirás tu: ‘Mas sinto vontade de folhear ora este livro, ora aquele.’ Provar muita coisa é sintoma de estômago embotado; quando são muitos e variados os pratos, só fazem mal em vez de alimentar. Lê, portanto, constantemente autores de confiança e quando sentires vontade de passar a outros, regressa aos primeiros. Reflecte todos os dias em qualquer texto que te auxilie a encarar a indigência, a morte ou qualquer outra calamidade; quando tiveres percorrido diversos textos, escolhe um passo que alimente a tua meditação durante o dia.”5

O Bobo Risonho (De Lachende Nar), c. 1540, de um artista holandês desconhecido ativo no século 16. Óleo sobre carvalho, 47 × 37 cm. Nationalmuseum (Estocolmo, Suécia). Link.

Livros contagiosos, manuscritos envenenados e doenças textualmente transmissíveis também são paranóias típicas do século 18 que têm uma ficha corrida muito anterior. Talvez essa metáfora tenha aparecido pela primeira vez no conto “O rei Yunan e o médico Duban”6, que aparece no Livro das Mil e Uma Noites7. A narrativa conta a história de um médico que consegue curar um rei leproso e recebe recompensas valiosas em troca, além de um cargo como conselheiro real. Porém, isso desperta a inveja do vizir, que o convence o monarca de que o pobre médico estaria planejando matá-lo.

Duban tenta dissuadir o rei da injustiça de sentenciá-lo à morte, mas não consegue, então decide que pelo menos teria vingança. Ele presenteia o monarca com um livro que supostamente trazia conhecimentos inestimáveis, mas faz questão de saturar cada uma das páginas com um veneno mortal. Assim, o rei envenena a si mesmo conforme lambe o dedo para passar as páginas do livro, e morre vítima do mesmo conhecimento que havia lhe salvado. 

Ao longo da Idade Média, do Renascimento e entrando pela Idade Moderna, livros envenenados continuam aparecendo em obras de ficção, em discursos religiosos contra textos heréticos e em ataques seculares contra o que quer que seja considerado secularmente herético em cada época.

Mais recentemente, Umberto Eco, gostou tanto dessa imagem que usou como mote de seu primeiro romance, O Nome da Rosa8, ambientado na Idade Média. No livro, um monge passa arsênico nas páginas do último exemplar disponível do segundo tomo da Poética, de Aristóteles. Porque existe essa teoria de que a Poética teria dois tomos: o primeiro seria o que a gente conhece, focado na tragédia, e o segundo seria focado na comédia. O texto da Poética de fato afirma que vai tratar de assuntos que depois não aparecem no livro, mas ninguém sabe ao certo se ele deixou a obra incompleta ou se parte dela se perdeu. 

Seja como for, o monge de Umberto Eco não gosta do segundo tomo porque considera que o riso seja uma forma de heresia. Sem coragem de destruir o último exemplar de uma obra tão importante, ele decide envenenar o manuscrito, contando que possíveis leitores lamberiam o dedo para passar as páginas e morreriam envenenados. A estratégia é engenhosa e cria uma espécie de crime sem vítimas, já que a pessoa só morreria se estivesse metendo o nariz onde não foi chamada. 

Então, acho que deu pra entender que a leitura gera preocupações e controvérsias basicamente desde sempre. No entanto, essas advertências nunca haviam se transformado em uma onda de histeria coletiva como acontece a partir do final do século 17 até o começo do século 20. E isso tem tudo a ver com a popularização do acesso à alfabetização e com a ascensão do romance realista moderno como forma literária predominante.

(a ser continuado)

PS: Semana passada eu dei uma surtada federal com o ChatGPT. Fiquei achando que não vai ter mais trabalho pra basicamente nenhum redator ou escritor. Que vamos virar meros revisores de lero-lero produzido por IA. Aí pensei que eu devia ao menos escrever em inglês, pra aumentar minha sobrevida na profissão. Este texto que você acaba de ler foi escrito em inglês, depois traduzi para o pt. Fiz uma seção no Substack só pra colocar textos que eu porventura escreva em inglês. Ela funciona como uma newsletter separada, porque assim eu não fico enviando coisa em inglês para quem vai achar isso chato. Se quiser receber, você precisa clicar aqui e assinar esta seção específica, mesmo se já for assinante da newsletter geral. Outra opção é me mandar um e-mail dizendo que quer ser incluído. Se puder enviar o texto para algum amigo gringo, eu agradeço <3

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1 As Relações Perigosas, Choderlos de Laclos. Tradução de Dorothée de Bruchard. Penguin-Companhia, 2012. Publicado em francês em 1782, com o título de Les Liaisons Dangereuses.

2 Madame Bovary: Costumes de Província, Gustave Flaubert. Tradução de Mário Laranjeira. Penguin-Companhia, 2011. Publicado em francês em 1856, com o título de Madame Bovary: Mœurs de Province.

3 Em 2007, o Fantástico fez uma matéria sobre um pastor que achava que Oséias, capítulo 3, o autorizava a ter casos com mulheres casadas que frequentavam sua igreja. A interpretação era totalmente disparatada, e o homem era precariamente alfabetizado. Mas o trecho em questão de fato é uma passagem complexa, na qual Deus ordena que Oséias perdoe sua esposa Gomer, que o traiu e acabou sendo vendida como escrava em um prostíbulo. Deus diz que Oséias deve agir com Gomer como Ele agiu com Israel, que também o traiu com outros deuses.

4 Tradução indireta minha, a partir do livro em inglês. Depois eu vou encontrar o exemplar da 34 e substituir aqui no post. Fedro, Platão. Tradução de José Cavalcante de Souza. Editora 34, 2016. Escrito por volta de 370 a.C.

5 Cartas a Lucílio, Lúcio Aneu Sêneca. Tradução, prefácio e notas de J. A. Segurado e Campos. 2 ed. Fundação Calouste Gulbenkian, 2008. Carta 2, p. 3–4.

6 O Infinito em um Junco: A Invenção dos Livros no Mundo Antigo, Irene Vallejo. Tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht. Intrínseca, 2022. Publicado em espanhol em 2019, com o título de El Infinito en un Junco: La Invención de Los Libros en el Mundo Antiguo.

7 Livro das Mil e Uma Noites: Volume 1, Ramo Sírio. Tradução de Mamede Mustafa Jarouche. Biblioteca Azul, 2017.

8 O Nome da Rosa, Umberto Eco. Tradução de Homero Freitas de Andrade e Aurora Bernardini. Record, 2022. Publicado em italiano em 1980, com o título de Il Nome Della Rosa.

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Poisonous pages

Reading was a touchy issue back in the 18th century. By this time, the sum of the printing revolution started by Gutenberg, Luther’s bold proposal of translating the Bible into vernacular languages, and the Enlightenment’s push for universal literacy, started to yield widespread results1.

For the very first time, the number of literate females was not statistically irrelevant. At least in the western industrialized world, a lettered woman was no longer a circus-worthy anomaly, as in the times of Sappho or Christine de Pizan. Educated workers and lower-class folks were also increasingly common, and they were walking around in broad daylight, carrying books and newspapers under their arms as if it were no big deal.

The Rise, and Fall, of Literature, 1825. Hand-coloured paper etching, 111 × 148 mm. British Museum (London, England). Link. 

But it actually was. There was a sense of unease in the air: a feeling that there were too many people reading, too much reading being done, too many texts being read in too many ways, for too many purposes and reasons. As access to and consumption of texts underwent drastic changes, reading became much more solitary than it had ever been before. It grew far more discreet, sneaky, easy to access, hide, and conceal.

Some thought that certain ilks of people shouldn’t even have access to literacy. Others believed that literacy itself was either a positive or at least a neutral tool, but worried about what these new readers would read, when, how, where, how much they would read, and at whose expense2.

The March of Intellect, c. 1828, by Robert Seymour (English, 1798-1836). Hand-coloured paper etching, 220 × 325 mm. British Museum (London, England). Link.

They wondered what they would glean from their readings and what kind of relationship they would establish with the texts. Would they conflate truth and fiction? Would the absorption spawned by reading make them antisocial or oblivious to their duties? Would they have their heads turned by books? Would they grow clumsily ambitious, now that they caught a glimpse of things far beyond their circumscribed lives? Most likely, yes.

Privacy was a danger and was also endangered. In the late 6th century, Augustine was taken aback when noticed that Ambrose preferred to read silently: his lips motionless as his eyes and mind devoured the pages. In fact, reading aloud, even in solitude, was the norm until at least the 17th century. Suddenly, everything changed, and almost everyone was reading in perfect quietness3. 

The Indiscretion (L’Indiscretion), 1788, by Jean-François Janinet (French, 1752 – 1814), after Nicolas Lavreince (Swedish, 1737 – 1807). Etching and wash manner, 36.2 × 28.4 cm. National Gallery of Art (Washington, United States). Link.

That was cute, except when it wasn’t. Take letters, for instance; people were crazy about exchanging them. But then, your wife would be sitting beside you, reading a letter whose contents you were unaware of. Think of the insecurity many of us feel about flirtatious partners texting other people in the middle of a family dinner. Now imagine that in a way more controlling and sexist society4.

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You might have thought that your daughter was safe at home, shielded from the pernicious influences outside your respectable roof, while her mind was soaking up all kinds of filth made available by novels and letters written by who knows whom. Consider what happened to poor Cécile Volanges in Dangerous Liaisons5. 

Useless Resistance (La Résistance Inutile), by Jean-Honoré Fragonard (French, 1732 – 1806). Oil on canvas, 45 × 60.5 cm. Nationalmuseum (Stockholm, Sweden). Link.

She was only fifteen, for God’s sake. And it was all so settled. Madame Volanges was so zealous about her daughter’s respectability that she only took her out of the convent a few months before the girl’s wedding to the Comte de Gercourt. Cécile hardly left the house, and the only man she interacted with on any regular basis was her naive, well-meaning music teacher — our beloved Chevalier Danceny. Even so, all classes took place at home, where Madame Volanges could easily keep an eye on the young people.

Still, there was no convent wall or maternal diligence to match the nasty influence of the Marquise de Merteuil. Peerless in the sordid art of letter writing, she cast her sinful web over the lives of both Cécile and Danceny, bringing down the honorable Présidente de Tourvel and even the savvy Vicomte de Valmont as collateral damage. By the end of the novel, the body count was impressive. All this for what exactly? Just to get back at Gercourt, who had the audacity to turn her down for somebody else.

Dangerous Liaisons (Les Liaisons Dangereuses), 1936, by René Magritte (Belgian, 1898 – 1967). Gouache on paper, 41.4 × 29 cm. Walker Art Center (Minneapolis, Minnesota, United States). Link.

There is something innate in Merteuil’s villainy, that’s for sure. But where did she manage to polish her congenital amorality? Where did she learn how to turn her own bad thoughts into other people’s bad reality? She learned from the novels, of course. Not just from second rank romans libertins, but also from Rousseau — her favorite. The same novels that Madame de Staël saw as the great civilizers of modernity could be weaponized both in the hands of unwary, incompetent readers like Emma Bovary6, and in the hands of overly competent readers like Merteuil.

The situation was so bleak that even our good, traditional readers — i.e., straight, white men from western, industrialized, upper classes — had suddenly forgotten how to read properly7. They were becoming feminized and overly sensitive, letting themselves be emasculated by third-rate literature that was either aimed at women or, even worse!, written by women8.

Cross Readings, 1800, by F. Sansom (English, c. 1797 – 1810), after George Moutard Woodward (English, 1765 – 1809). Hand-coloured paper etching, 346 × 468 mm. British Museum (London, England). Link.

We were leaving a world dominated by intensive reading made mostly by experts who would wade through the same few books gazillions of times, insistently reflecting, and discussing each passage, to a world of extensive reading in which all sorts of people would cast their eyes over an unprecedented amount of written materials on a daily basis, taking little to no time to reflect on the meaning of any specific piece. 

So, yes, most of the 18th century concerns about reading came from conservative elites whose power and prestige were shaken by the loss of their monopoly over written materials. However, not all of their arguments were devoid of sense, nor were they defended only in cynical terms by people who did not believe what they said.

Take the Catholic Church, for instance. One of the reasons it opposed the idea of laypeople reading the Bible was the fear that it would surely lead to misinterpretations. This argument does not strike me as far-fetched even today.

Moreover, anxieties about literacy were not just an 18th century fad. In his 370 BC dialogue, The Phaedrus, Plato reported Socrates’ distrust of writing in a similar vein. He felt that writing was a reckless scheme that created an unnatural split between the writer and his ideas.

The School of Athens (Scuola di Atene), 1509 – 1511, by Raffaello (Italian, 1483 – 1520). Fresco, 550 × 770 cm. Vatican Museums (Vatican). Link. 

Face-to-face interaction would be unbeatable since it allows one to tailor their exposition according to the characteristics of their specific interlocutor and gauge the audience’s reaction in real-time, adjusting arguments as they speak. In contrast, writing would disempower the arguer in every possible way, leaving no room to explain oneself better, calibrate, modulate, reason, or revamp one’s claims.

To think that whenever someone misunderstood his arguments that person would go around spreading misconceptions about his ideas drove Socrates crazy. He couldn’t understand why readers would stare at zombie monologues, frozen in pieces of papyrus, instead of engaging in live dialogues with living proponents whom they could both influence and be influenced by, thus creating real knowledge. 

— (…) There’s something odd about writing, Phaedrus, which makes it exactly like painting. The offspring of painting stands there as if alive, but if you ask them a question they maintain an aloof silence. It’s the same with written words: you might think they were speaking as if they had some intelligence, but if you want an explanation of any of the things they’re saying and you ask them about it, they just go on and on forever giving the same single piece of information. Once any account has been written down, you find it all over the place, hobnobbing with completely inappropriate people no less than with those who understand it, and completely failing to know who it should and shouldn’t talk to. And faced with rudeness and unfair abuse it always needs its father to come to its assistance, since it is incapable of defending or helping itself.9

 (I love how this quote unveils a kind of Mean Girls side of his argument. Amidst the countless drawbacks of written text, lies its impotence to choose who it will sit with at high school lunch. This image of ideas as helpless children is also a gem.)

Elegant women in a library (Femmes Élégantes Dans une Bibliothèque), late 1800s, by Édouard Gelhay (French, 1856 – 1939). Oil on canvas. Bridgeman Art Library (London, England). Link.

The temperance side of the reading controversy also had its early debut, as the Roman stoic philosopher Seneca cautioned against intellectual gluttony in 65 BC. He argued that quickly devouring large amounts of books by a range of different authors would only lead to confusion.

Instead, a slow reading approach, allowing yourself to thoroughly dissect an idea before moving to the next one, would yield much better results in the long run, even if you end up knowing fewer authors and walking through fewer texts than your greedier counterparts.

Be careful lest this reading of many authors and books of every sort may tend to make you discursive and unsteady. You must linger among a limited number of master-thinkers and digest their works […] for food does no good and is not assimilated into the body if it leaves the stomach as soon as it is eaten, and nothing hinders a cure so much as frequent change of medicine. […] Each day […] after you have run over many thoughts, select one to be thoroughly digested that day.10

Book jacket illustration for Jane Austen’s Northanger Abbey, 2010, by Anna and Elena Balbusso (Italians, contemporary). Commissioned by Black Cat Publishing. Acrylic and digital, 16.51 × 13.97 cm. Link.

Contagious books, poisoned manuscripts, and textually transmissible diseases are also typical 18th century paranoias with a long prior history.

Perhaps this metaphor first appeared in “King Yunan and the Sage Duban”, a tale that is part of The Arabian Nights collection11. It tells the story of a wise man who manages to cure a leper king, receiving precious gifts, and a position as a royal advisor as a reward. These blessings, however, stir up the envy of the king’s viziers, who convince the ruler that the poor sage was plotting to poison him12.

Unable to dissuade the monarch from the injustice he was about to commit, the sage decides that his death would at least be avenged. He gifts the king with a book that supposedly contains priceless wisdom, but makes sure to saturate every single page with a deadly poison. Thus, the ungrateful monarch dies, becoming a victim of the same intellect that had once saved his life.

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Throughout the Middle Ages, the Renaissance, and all the way into the Modern Age, poisoned books keep popping up in fiction works, in religious discourses against heretical texts, and in secular attacks against whatever was considered secularly heretical at that time.

Umberto Eco, for instance, was so fond of this image that he made it the motto of his first novel, The Name of the Rose13, set in the Middle Ages. In the book, a monk laces the pages of the missing second tome of Aristotle’s Poetics that supposedly deals with comedy with arsenic.

The Laughing Fool (De Lachende Nar), c. 1540s, by an unknown Dutch artist active in the 16th century. Oil on oak, 47 x 37 cm. Nationalmuseum (Stockholm, Sweden). Link.

Considering laughter to be somehow heretical but not daring to destroy the last available copy of such an important work, the monk decides to poison the manuscript, counting on anyone who ventured to read its pages to have to lick their fingers to turn them, and thus dying poisoned. This ingenious strategy creates a sort of victimless crime, as readers would only be poisoned to the exact extent of their undue curiosity.

So, I think it’s pretty clear that people have had issues with reading basically since always. However, these concerns never reached the level of a massive wave of hysteria as they did from the late 17th century onwards, and it had everything to do with the rise of both mass literacy and the modern realist novel as the prevailing literary form.

(to be continued)

1 Literacy was a crucial ground of the dispute between the Catholic and Protestant churches. Promptly in the 16th century, literacy campaigns inspired by Luther were conducted in German states and Scotland. In the 17th century, it was Sweden’s turn to initiate its first religious campaigns promoting reading and in the 18th century, France, Spain and England followed the same path. The Rise of Mass Literacy: Reading and Writing in Modern Europe, by David Vincent. Polity Press, 2000. 

2 The Reading Lesson: The Threat of Mass Literacy in Nineteenth-Century British Fiction, by Patrick Brantlinger. Indiana University Press, 1998.

3 Space Between Words: The Origins of Silent Reading, by Paul Saenger. Stanford University Press, 1997.

5 Dangerous Liaisons, by Choderlos de Laclos. Translated by Helen Constantine. Penguin, 2007. First published in 1782.

6 Madame Bovary, by Gustave Flaubert. Translated by Adam Thorpe. Penguin, 2021. First published in 1856.

7 Men of Feeling in Eighteenth-Century Literature: Touching Fiction, by Alex Wetmore. Palgrave Macmillan, 2013.

8 Victims of the Book: Reading and Masculinity in Fin-de-siècle France, by François Proulx. University of Toronto Press, 2019.

9 Phaedrus, by Plato. Translated by Robin Waterfield. Oxford University Press, 2002, p. 70. Written around 370 BC.

10 As quoted in The Art of Living: The Stoics on the Nature and Function of Philosophy, by John Sellars. Bloomsbury, 2009, p. 122. First published in 2003.

11 Papyrus: The Invention of Books in the Ancient World, by Irene Vallejo. Translated by Charlotte Whittle. Knopf, 2022. First published in 2019.

12 The Annotated Arabian Nights. Translated by Yasmine Seale, edited by Paulo Lemos Horta. Liveright, 2021.

13 The Name of the Rose, by Umberto Eco. Translated by William Weaver. Mariner Books, 2014. First published in 1980.

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Annie Ernaux: uma mulher para amar

Hoje a Annie Ernaux foi laureada com o Nobel de Literatura de 2022 e esta é uma excelente notícia por vários motivos. Vou resumir o assunto em cinco tópicos:

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❶ O primeiro motivo de festa é que os livros dela são muito maravilhosos e muito acessíveis. Quase todos são bem curtinhos, alguns chegam a ter menos de 70 páginas.

Lendo na velocidade normal, um adulto mata 70 páginas em menos de 2h. Se quiser, você começa e termina um livro dela no mesmo dia. E, se quiser mais ainda, dá pra ler todos os 20 livros dela até o fim deste ano.

Quem esteve na última edição do meu curso de literatura contemporânea — o Lendo o Nosso Tempo — largou na frente, porque a gente leu O Lugar em março de 2022, cof cof. 

Aqui no Brasil, os livros da Ernaux estão sendo editados pela Fósforo, que já lançou O Lugar, Os Anos, O Acontecimento e A Vergonha, e agora está com O Jovem na pré-venda. Antes disso, a Três Estrelas havia publicado Os Anos em 2019 e, na década de 1990, a Objetiva lançou Paixão Simples e Os Anos. Como deu pra notar, Os Anos é mesmo a obra mais famosa e reconhecida da autora, mas não é necessário começar por ela e não existe uma ordem certa de leitura.

Também saíram dois filmes baseados na obra dela, e ambos estão disponíveis nos streamings brasileiros. O Acontecimento está na HBO Max e Pura Paixão está na Apple TV. Ainda não vi nenhum dos dois, então farei a Glória Pires e não opinarei, rs.

❷ A premiação da Ernaux é um tapa na cara da crítica francesa, que nunca engoliu o fato de ela ter uma escrita sóbria e clara, sem muitas firulas e paranauês e sem o psicologismo noir estilo mulher profunda e misteriosa que se espera das escritoras francesas do sexo feminino. Aquela vibe anêmica de gola rolê fumando na janela em um dia chuvoso. E Ernaux bem que tem o physique du rôle, mas graças a Deus não incorporou a personagem.

Quando estava preparando minha aula sobre O Lugar, li um livro interessante sobre ela que dizia que não havia nenhum artigo a respeito da obra dela publicado em nenhum periódico literário francês. Pensa que o texto abaixo foi escrito no ano 2000, quando ela já tinha 26 anos de carreira. Confesso que isso me deixou bem puta da minha cara.

❸ Um dos grandes temas da Ernaux é o sentimento de traição e inadequação por ter ascendido socialmente. Ela se considera uma pessoa “transclassial”, no sentido de ter passado de filha de operários numa super roça da Normandia a professora e escritora em Paris.

Eu acho que esse sentimento é compartilhado por toda uma geração de brasileiros que foram os primeiros de suas famílias a entrarem na universidade, e que convivem com o orgulho, mas também com a desconexão e com um eventual rancor que isso pode gerar entre os familiares. 

Essa migração de classe não é beeem uma migração financeira, e sim para outro tipo de sociabilidade. Espero que hoje em dia a Ernaux esteja muito bem de vida, até porque os livros dela são best-sellers tanto na França quanto no mundo anglófono. No entanto, a transição se deu assim que ela se tornou professora de francês na escola pública. Nessa época, não devia ganhar tão melhor do que os pais — que também subiram na vida operária e passaram a ser donos de um café. A diferença cultural, no entanto, já foi o suficiente para afastá-los.

A Ernaux passou a vida inteira dando aula em escola. Antes de se aposentar, era professora do Centro Nacional de Ensino a Distância, um instituto mantido pelo governo francês e que existe até hoje. Primeiro eles ofereciam curso por correspondência. Agora, pela internet.

❹ Ela é uma feministaça da melhor estirpe porque nunca perde o horizonte de classe e o contexto histórico de vista. Além disso, não tem uma visão idílica sobre si mesma ou sobre essa entidade mítica chamada As Mulheres. Ernaux fala de seu aborto clandestino, de seu caso extraconjugal, dos casamentos e divórcios que teve. Fala bastante de sexo e de como essa transição de classe chega até a cama. Tudo em um tom de sincera investigação e curiosidade.

Esta é uma escritora interessada na experiência do francês comum, e que enxerga sua escrita como uma forma de abordar as reverberações do coletivo na vida individual. Os textos são todos autobiográficos, mas não é uma coisa alecrim dourado de “oh, como sou diferente de tudo e todos”. O foco é na história coletiva do povo francês — mais especificamente da mulher francesa comum, vinda das classes médias e populares. O projeto literário dela é uma grande investigação pessoal da história francesa das últimas décadas.

❺ Ela não joga para a torcida, nem tenta caber no padrão que os leitores e editoras costumam gostar. É muito difícil que uma literatura de não ficção, produzida por uma mulher e completamente baseada em sua vida pessoal seja valorizada pela crítica — e pelos leitores.

Eu tenho um bode imenso de como o Karl Ove Knausgård pode escrever seis calhamaços chatíssimos (na minha opinião) falando sobre a sujeirinha do canto do umbigo dele e o pessoal fica noooossa. Mas vai fazer isso aí sendo mulher. Vai cometer um décimo dessa egotrip sendo mulher e sua obra será taxada de literatura confessional. De diarinho, de fofoca, de Carrie Bradshaw. 

A Annie Ernaux ganhou um Nobel sem fazer nenhuma concessão, e isso é respeitável demais da conta.

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